Maia supera seus pares ao dizer que Bolsa Família "escraviza pessoas"

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Maia praticamente reafirmou o lugar comum: "em vez de dar o peixe, é preciso ensinar a pescar"

Por Miguel Martins
Da Carta Capital

Rodrigo Maia, presidente da Câmara, não perde a oportunidade de mostrar seu alinhamento com a agenda do "mercado" e do pensamento conservador. Cotado como presidenciável pelo DEM, ele demonstra não ter constrangimento em assumir posições impopulares em pleno ano eleitoral, ao contrário de outros integrantes da base de Michel Temer. 

Em palestra no centro de estudos Brazil Institute, em Washington, Maia afirmou nesta quarta-feira 17 que o Bolsa Família "escraviza pessoas" e criticou os programas sociais de Lula e Dilma Rousseff. Seu argumento é muito semelhante ao chavão "não dê o peixe, ensine a pescar", um lugar-comum eternamente repetido por opositores da política de distribuição de renda.

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"Criar um programa para escravizar as pessoas não é um bom programa social", defendeu o presidente da Câmara na palestra. "O programa bom é onde você inclui a pessoa e dá condições para que ela volte à sociedade e possa, com suas próprias pernas, conseguir um emprego."

O discurso de Maia pode ter o apoio de uma parte da sociedade brasileira, mas não é aconselhável para quem pretende disputar um cargo majoritário. Derrotado em 2014, o tucano Aécio Neves chegou a defender naquela campanha a transformação do Bolsa Família em uma política de Estado. Crítico do programa em outras oportunidades, o governador Geraldo Alckmin, pré-candidato a presidente pelo PSDB, tem sinalizado que defenderá políticas de distribuição de renda na campanha.

À parte Jair Bolsonaro, que costuma fazer críticas ao Bolsa Família, os presidenciáveis deste ano não demonstram aversão à política social. Até o governo Temer não parece disposto a terminar com o programa. Cotado como candidato governista, Henrique Meirelles sinalizou um reajuste acima da inflação no benefício para este ano. Não será muito significativo, mas ao menos é um gesto. Como o índice de aumento de preços está em seu patamar mais baixo em 20 anos, o governo estuda elevar o valor em 0,5% ou 1% acima da inflação.

Os presidenciáveis não são os únicos a destoarem de Maia. O presidente do Senado, Eunício Oliveira, do MDB, tem adotado postura diametralmente oposta à do deputado do DEM. No fim do ano passado, ele participou de um evento de lançamento de 495 unidades do Minha Casa, Minha Vida no Ceará ao lado do governador Camilo Santana, do PT, com quem discute fazer uma aliança.

Em vez de enaltecer a agenda neoliberal do governo Temer, Eunício preferiu celebrar as conquistas do ex-presidente Lula para a região. "Se não fosse esse nordestino chamado Luiz Inácio Lula da Silva, não teríamos a transposição das águas do rio São Francisco", garantiu o parlamentar.

Em outras oportunidades, Eunício chegou a defender a importância do Bolsa Família no Congresso. Em termos eleitorais, qualquer crítica ao programa no Ceará seria um tiro no pé: mais de 40% da população do estado é beneficiária do programa, enquanto no País um entre quatro cidadãos é beneficiado direta ou indiretamente pela política. No Rio de Janeiro, colégio eleitoral de Maia, a porcentagem de beneficiários é menor, mas o discurso pode ser igualmente impopular.

A argumentação de Maia parece mais a de um candidato a deputado do que a de um aspirante a qualquer cargo majoritário. Para renovar seu mandato na Câmara, críticas ao Bolsa Família podem até lhe render um eleitorado suficiente. Mas convencer uma grande parcela da população não será nada fácil.

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