Sociedade de consumo e a maldição do fetichismo

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Por Ari de Oliveira Zenha

"Não tenho um caminho novo, o que tenho de novo é o jeito de caminhar" (Thiago de Mello)

A sociedade de consumo capitalista traz em suas entranhas a maldição do fetichismo da mercadoria que se funda na mentira, na manipulação do psiquismo do homem, na soberania suprema das estratégias de marketing, do desejo desenfreado de ter, possuir, interiorizada no âmago do ser humano endeusado como consumidor. Faz do homem um sujeito-objeto, aturdido pelos objetos de consumo que sofre de uma insatisfação contínua diante dos reluzentes produtos ofertados no mercado um “ser” - o produto - objeto de desejo, de satisfação insaciável, que alimenta uma sociedade divinizada, atormentada, impregnada, sempre, de novas mercadorias, de novos propósitos de existência alicerçada num consumismo sem comedimento a não ser consumir – sempre –, fazendo da existência humana um labirinto de buscas, de uma monstruosidade de produtos iludindo através do estigma de consumismo a realização do reino de uma pseudofelicidade apregoada pelo capitalismo – consumir!

Bauman diz: “A economia consumista tem de se basear no excesso e no desperdício.” Para que esta sociedade se configure é necessário que novas necessidades, novos impulsos sejam sistematicamente criados, arquitetados novos mecanismos de conduta, sempre renovados, criados e assimilados pela população, pois a dinâmica do capitalismo – entre tantas – está embasada no consumo, pois esta nebulosa sociedade para se manter tem que sustentar sua estrutura produtiva no consumismo num ritmo frenético, assombroso, pois é necessário ultrapassar qualquer barreira que bloqueia o reino do consumo e da realização da acumulação do capital, do valor de troca – dinheiro – em lucro para o capitalista.

"Para que esta sociedade se

configure é necessário que

novas necessidades, novos

impulsos sejam

sistematicamente criados"

Karl Marx já dizia nos Grundrisse: “A circulação de dinheiro partia de infinitos pontos e retornava a infinitos pontos. O ponto de retorno não estava de forma alguma posto como ponto de partida. No curso do capital, o ponto de partida é posto como ponto de retorno e o ponto de retorno, como ponto de partida. O próprio capitalista é ponto de partida e de retorno. Ele troca dinheiro pelas condições de produção, produz, valoriza o produto, isto é, transforma-o em dinheiro, e depois começa o processo de novo.”

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Dentro do pensamento marxista a circulação tem importância fundamental na acumulação, na reprodução e realização do capital. Podemos afirmar, tendo como embasamento o pensamento de Marx que é na circulação onde se concretiza a realização do processo de produção. No atual estágio do capitalismo a circulação e sua concretização - consumo- assumiram e assumem uma expressão extremamente importante para o capital mundializado.

É na circulação onde se realiza a transformação da mercadoria em dinheiro e o dinheiro – valor de troca – em lucro ao ser a mercadoria (produto) consumida. Para concretizar este processo o sistema capitalista, ao longo do tempo, tem criado inúmeros mecanismos no sentido da realização do seu objetivo – o lucro, a acumulação e a realização da mercadoria em dinheiro. Marx – limitado pelo momento histórico em que viveu – jamais poderia imaginar o que o capitalismo está realizando no sentido de obter seus objetivos com tanta perspicácia e eficiência.

Enfim “terminamos” com a seguinte colocação de Bauman: “A sociedade de consumidores desenvolveu, a um grau sem precedentes, a capacidade de absorver toda e qualquer discordância que ela mesma - ao lado de outros tipos de sociedade, inevitavelmente produz – e então reciclá-la como ponto importante de sua própria reprodução, revigoramento e expansão. Ela extrai seu ânimo e seu ímpeto da deslealdade que ela própria produz com perícia”.

Ari de Oliveira Zenha é economista

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