Comer bem é um ato político

Cynara Menezes
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Comer bem é um ato político

Por Cynara Menezes

A maioria das pessoas costuma pensar que política diz respeito apenas à política partidária, ou seja, em quem a gente vota na hora da eleição. No meu modo de ver o mundo, a política está em quase tudo nas nossas vidas, cotidianamente, e não só de dois em dois anos. Viver “esquerdamente” não é só votar em políticos ditos de esquerda, mas enxergar as coisas de uma forma própria e consciente. A comida, por exemplo.

Gosto de comer e de cozinhar minha própria comida. Felizmente, tenho escritório em casa e posso fazer isso. Mas penso que todo mundo poderia se dedicar mais às questões alimentares, tanto em relação a si mesmo como em relação a seus filhos. Estamos comendo cada vez pior, muito por influência da correria do dia a dia, mas também pelas escolhas que fazemos, influenciados por um estilo de vida que nos foi imposto pelo capitalismo. De que adianta uma pessoa se dizer de “esquerda” e levar os filhos para comer no McDonald’s como “prêmio”? Quem sou eu para patrulhar as escolhas alimentares dos outros, mas não posso deixar de apontar a incoerência de querer um mundo melhor enquanto dá dinheiro para uma empresa que vende comida ruim e, ainda por cima, é uma péssima empregadora, que paga mal e explora os trabalhadores. O McDonald’s é tão mau patrão que a jornada móvel variável, uma forma de precarização do trabalho, é conhecida como “jornada McDonald’s”.

 

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Costumo dizer que hambúrguer não é sinônimo de “má alimentação”, pelo contrário: é pão, proteína e salada. Parece-me bastante balanceado. O problema é que ninguém sabe o que essas empresas de fast food colocam nos hambúrgueres que vendem. Os hambúrgueres congelados tampouco podem ser considerados saudáveis, porque estão cheios de sódio, cujo uso excessivo é tão nocivo à saúde humana quanto o açúcar. Um hambúrguer congelado possui 629 mg de sódio por unidade, quando o consumo máximo recomendado pela Organização Mundial de Saúde é de 2000 mg/dia. E existe coisa mais fácil no mundo do que preparar um hambúrguer em casa? Caramba, é apenas um bolinho de carne! Se a pessoa quiser, compra a carne moída e só acrescenta sal, como fazem os norte-americanos, sem a necessidade de adicionar nenhum tempero. Quer dizer, é possível fazer um hambúrguer em cinco minutos! Então, não é verdade que escolher o hambúrguer da rede de fast food é uma questão de “praticidade”. Muito menos sabor. É, isso sim, aceitar ser vítima da propaganda feita por estas redes, segundo a qual “amamos muito tudo isso”.

Vejo com desdém a tal “gourmetização” que transforma um reles brigadeiro em algo caríssimo, mas com muito bons olhos a “artesanatização”. Acho maravilhoso que as pessoas estejam redescobrindo o prazer de desfrutar a comida que não é feita em série e sim por um profissional dedicado, que coloca aquele ingrediente especial que jamais uma rede de fast food será capaz de acrescentar, embora adorem usar este termo na publicidade de seus produtos: amor.

"Está comprovado que a melhor forma de comer não é a vegetariana ou a onívora ou a orgânica ou a sem glúten ou a sem lactose. A melhor forma de comer é aquela em que se usa produtos industrializados na menor quantidade possível. Em vez de pão comprado no supermercado, pão artesanal ou caseiro; em vez de pizza congelada, pizza feita em casa; em vez de suco de caixinha, polpa de fruta. Fazer o máximo para se livrar de produtos que têm, entre seus ingredientes, nomes misteriosos: acidulantes, espessantes, conservantes..."

Está comprovado que a melhor forma de comer não é a vegetariana ou a onívora ou a orgânica ou a sem glúten ou a sem lactose. A melhor forma de comer é aquela em que se usa produtos industrializados na menor quantidade possível. Em vez de pão comprado no supermercado, pão artesanal ou caseiro; em vez de pizza congelada, pizza feita em casa; em vez de suco de caixinha, polpa de fruta. Fazer o máximo para se livrar de produtos que têm, entre seus ingredientes, nomes misteriosos: acidulantes, espessantes, conservantes...

Graças à mídia, as pessoas passaram a achar que comer bem é sinônimo de fazer dieta, uma indústria milionária. E criou-se uma paranoia contra o glúten, contra a lactose, contra a manteiga. Todo dia é uma nova. Quando se pode comer de tudo um pouco, desde que se melhore a procedência. Quem nos garante que as pessoas estão mesmo ficando alérgicas a leite e não alérgicas aos antibióticos que colocam no leite? Só 1% da população sofre de doença celíaca; no entanto, tem milhões de pessoas fugindo do glúten como o diabo da cruz, quando a questão preocupante é a fermentação, que já foi natural e hoje não é. Mas vejam que boa notícia: a fermentação natural do pão está voltando.

Infelizmente, em nosso País, ainda é caro comprar apenas verduras sem agrotóxicos. Mas acho ridículo dizer que, se for tudo orgânico, não vai dar para todo mundo. Ora, uma das regras básicas do capitalismo não é a lei da oferta e da procura? Quanto mais aumentar a procura por orgânicos, mais haverá orgânicos e os preços cairão. Ainda que a pessoa não consiga comprar orgânicos, dá para comprar direto do produtor, de pequenos produtores, nas feiras de sua cidade.

Essa é uma tendência da gastronomia mundial: comprar produtos da estação, de produtores próximos de onde se vive. Por que isso? Porque são necessários mais defensivos agrícolas para produzir o alimento fora de seu ciclo biológico natural, e na época própria eles são mais saborosos. Comprando de produtores próximos, eliminamos o transporte de longa distância que desgasta as estradas e polui, além de incentivar a economia local. Atitudes pequenas que contribuem para um mundo melhor sem depender diretamente da política partidária e de políticos.


 

 Cynara Menezes é jornalista e editora do blog Socialismo Morena (socialistamorena.com.br)

 

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