Querem nos calar

Cynara Menezes
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Querem nos calar

Por Cynara Menezes

Há dois anos e meio eu escrevia minha primeira coluna na Caros Amigos. Foi uma alegria receber o convite de Wagner Nabuco para ser colunista, o que marcou um mini-retorno à imprensa escrita, já que há mais de três tenho me dedicado unicamente ao jornalismo digital. Hoje, escrevo com pesar este último texto. A revista vai acabar e isto é razão de preocupação para todos nós, leitores e não-leitores da Caros.

A ameaça fascista que cresce no mundo inteiro não almeja apenas os esquerdistas detentores de cargos no poder e os partidos políticos. O plano é muito maior, e inclui calar nossa voz justamente quando parecia que, com a chegada das redes sociais, nós, os excluídos da mídia, tínhamos conquistado um lugar ao sol. Foi assim nos últimos anos, mas agora começa um movimento oposto, de fortalecer as grandes corporações midiáticas e esmagar a mídia alternativa.

Não se trata de “teoria de conspiração”. Os próprios jornais da imprensa hegemônica têm falado sobre o assunto. Em novembro, o The New York Times publicou um artigo assinado pelo editor de uma organização de jornalismo independente da Sérvia, Stevan Dojcinovic, queixando-se que suas publicações deixaram de aparecer no Facebook como de costume, coisa que nós também estamos sentindo na pele.

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Segundo Dojcinovic, a rede de Mark Zuckerberg tem utilizado seu país como laboratório para experimentos que depois se espalharão pelo planeta. E o experimento em questão é retirar da timeline geral as notícias fornecidas pelos sites pequenos para abrigá-los em uma timeline específica chamada “Explore o Feed”, que os usuários precisam selecionar antes de ver as histórias. Isso significa que os sites de esquerda simplesmente desaparecerão do feed de notícias, mesmo que a pessoa os siga.

No Brasil, uma executiva do Facebook declarou que a rede social está trabalhando para que sites de “baixa qualidade” e com “uma quantidade enorme de anúncios” tenham uma performance pior. Este filtro tem o potencial de atingir enormemente os sites de esquerda, que têm sobrevivido graças aos anúncios do tipo “ad sense”, e que estão sendo incluídos pelos manda-chuvas da rede no mesmo balaio que os chamados “caça-cliques”.

Outra notícia preocupante é a censura que está sendo promovida pelo Google contra os sites russos RT e Sputnik. Um executivo do mecanismo de busca declarou que a empresa pretende adotar algoritmos que tornariam mais difícil a busca por artigos da agência Sputnik e da emissora RT no serviço Google News. Já foi denunciado também que vários sites de esquerda norte-americanos estão sendo “desclassificados” na busca, e com isso viram seu tráfego cair de forma assustadora.

A desculpa para tais atitudes são as chamadas fake news: para barrar as notícias falsas, as grandes corporações tecnológicas estão beneficiando os mesmos gigantes de mídia que sempre existiram. O mais irônico (e trágico) desta situação é que as fake news têm sido exploradas à exaustão, principalmente pela direita fascista. Quer dizer: além de sermos prejudicados pelas notícias falsas, elas estão sendo usadas como álibi para nos calar. É o plano perfeito.

O que seria de nós, hoje, sem os sites de esquerda? A concentração da mídia nas mãos de meia dúzia de famílias só se intensificou após o golpe contra Dilma. Diziam dos blogs e das revistas progressistas que eles só sobreviviam por conta da publicidade governamental, quando o que o PT fez no poder foi democratizar o acesso à verba publicitária a todos os meios, grandes e pequenos. Com Temer, somente a mídia hegemônica se forra de propaganda oficial; ela, sim, tem vivido às custas de dinheiro público, embora continue a se dizer “independente”.

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O projeto de destruir a esquerda encontrou seu braço tecnológico na pretensa perseguição às fake news. O objetivo não declarado é diminuir nosso alcance, que estava crescendo a ponto de ameaçar as grandes corporações midiáticas. A esquerda precisa estar preparada para reagir. Ou vamos deixar que nos matem assim, sem pestanejar?

Estava mais do que claro, desde o princípio, que não poderíamos nos fiar em uma rede autoritária como o Facebook, que censura até mamilos em obras de arte... Em todos os cantos por onde ando dando palestras, tenho alertado do perigo que é concentrar as publicações apenas nesta rede social, sem investir nos sites, onde as postagens ficam guardadas, não se perdem. E na hora que o face não nos quiser mais? Este momento parece cada dia mais próximo.

Como se não tivéssemos aprendido a lição, estamos mais uma vez à mercê de um sistema que nos rejeita por natureza. Criamos uma dependência de uma rede social que não só não nos quer lá como nos sabota. A esquerda, não só do Brasil, mas do mundo, precisa se articular de forma estratégica para criar nossas próprias redes, nossos próprios espaços de divulgação. Só com uma rede nossa teremos condições de sobreviver e crescer.

O futuro do jornalismo está no digital. É mais barato e tem um alcance muito maior do que o papel. O hábito de ler notícias em papel praticamente se extinguiu. Ao longo de 20 anos, a Caros Amigos tornou-se uma leitura importante e uma rara presença nas bancas para o público de esquerda. Fará falta. Mas não errará se investir na sobrevivência como revista digital e se unir à luta para que nossa voz continue a reverberar.


♦  Cynara Menezes é jornalista e editora do blog Socialista Morena (socialistamorena. com.br).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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