Eu e Lula

Cynara Menezes
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Eu e Lula

Por Cynara Menezes

Minha história com Lula não foi de amor à primeira vista. Naquele fatídico ano de 1989, eu tinha 22 anos e outra paixão, um gaúcho grisalho, turrão e valente: Leonel Brizola. Brizola me conquistara com sua fala certeira e um objetivo que me parecia fundamental, e continua parecendo até hoje. Investir em educação para garantir o futuro de nossas crianças e consequentemente da nação.

Se há algo que me tira do prumo, me revolta, dói no coração, é ver uma criança na rua e não na escola. E Brizola e Darcy Ribeiro falavam disso o tempo todo. “La-la-la-la Brizola”, dizia o jingle de campanha, com imagens de crianças felizes em escolas de turno integral, como defendia Darcy. Apaixonei, claro, por ambos.

O amor por Lula veio depois, no segundo turno da eleição. Foi quando Brizola levantou o braço dele em um comício e falou: “Vocês vão ter que engolir este sapo barbudo!” Aí entendi o perigo que aquele operário significava para a elite mesquinha deste País. Uma elite que faria de tudo para derrotar Lula, até mesmo apoiar o jogo sujo de seu adversário. E eu não fazia parte da elite.

 

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Naquele momento me dei conta de que, mesmo com a admiração que tinha e tenho até hoje pelo engenheiro Brizola, era com o operário nordestino que sentia identificação. Eu, baiana do interior, de família simples, me vi representada por aquele lutador. Metade do País chorou quando Lula foi derrotado na eleição, e eu junto.

Em 1994, meu amor por Lula entrou numa fase morna. Não foi um ano bom para o ex-operário, que, diante do “príncipe” da Sociologia, parecia ter absorvido o preconceito de classe que sempre o perseguiu. Lula estava mal-humorado, nervoso, inseguro; não estava de bem consigo mesmo. Por isso perdeu. Na eleição seguinte, em 1998, eu estava desinteressada de política e não lembro nem se votei; só fomos nos reencontrar, Lula e eu, em 2002.

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"Era o ano de Lula, não tinha quem fosse capaz de negar. Ele estava brilhante, alegre, senhor de si, prenunciando o estadista que seria no cargo. A imprensa sempre explicou esta guinada como resultado de 'marketing político'. Mas não tem marketing político que transforme uma pessoa no que ela não é. Para mim, as grandes responsáveis pelo amadure cimento de Lula foram as caravanas da cidadania, que o levaram a andar pelo Brasil inteiro"

Era o ano de Lula, não tinha quem fosse capaz de negar. Ele estava brilhante, alegre, senhor de si, prenunciando o estadista que seria no cargo. A imprensa sempre explicou esta guinada como resultado de “marketing político”. Mas não tem marketing político que transforme uma pessoa no que ela não é. Para mim, as grandes responsáveis pelo amadurecimento de Lula foram as caravanas da cidadania, que o levaram a andar pelo Brasil inteiro.

As caravanas fizeram muito bem a ele, o inspiraram, lhe trouxeram repertório. Porque o nordestino Lula não conhecia o Brasil profundo; só fazendo campanha. A partir das caravanas se desenvolve essa relação umbilical que conquistou com o sertanejo, com quem se identificava mais por berço e história do que por vivência: Lula é paulista desde os 7 anos de idade. Até nisso veio para incomodar a elite...

Lula passou oito anos na presidência da República, cumpriu o prometido de tirar milhões de brasileiros da miséria, resgatou nossa autoestima e colocou o País em outro status internacional. Passamos a ser importantes. Sob o escrutínio da esquerda, concedeu demais ao status quo da política, se rendendo às formas tradicionais de se fazer campanha, o que no Brasil é sinônimo de corrupção. Mas fez a sucessora, a primeira mulher a ser presidente do Brasil, e choramos novamente em sua despedida.

Muitos de nós pensamos que, a partir dali, Lula ia ficar fazendo palestras, dando seus palpites sobre  o destino do Brasil, como um magistrado, e sendo respeitado como o grande presidente que foi. Mas aconteceu o contrário: a “aposentadoria” deu início a uma caça a Lula, por temor de sua volta. Os que, como eu, admiram o ex-presidente, fomos assistindo atônitos às seguidas tentativas de destruição de Lula por seus inimigos.

No terreno sem lei das redes sociais, as calúnias se espalharam como rastro de pólvora. Como nas mais sórdidas tramas de perseguição política, era preciso envolver seus familiares. Causar dor ao ex-presidente atingindo o que lhe era mais caro. Ao seu filho “Lulinha” foram atribuídas fortunas gigantescas e até mesmo a posse de uma fazenda em Araçatuba cuja foto era, na realidade, de uma faculdade.

Lula adoeceu, teve um câncer na garganta. Como a extrema-direita não é solidária nem no câncer, tratou de declarar abertamente seu desejo de ver Lula morto. Nós, ao contrário, sofremos de vê-lo sem cabelos. Lula sem barba, que dó! Logo ficamos felizes de vê-lo se recuperar e voltar a ser o inimigo número um da burguesia e da classe média mais tosca.

Aí veio a judicialização do ódio a Lula. Era preciso achar alguma forma de saciar a turba ensandecida com a prisão do ex-presidente. Mas cadê achar? Se não era possível encontrar nada contra Lula nem de abatê-lo, voltaram à carga atingindo, desta vez, sua mulher, Marisa. Revelaram conversas privadas da ex-primeira-dama, devassaram sua casa, e, por último, transformaram-na em ré. Marisa não suportou. A morte de Marisa Letícia doeu em Lula e doeu em nós porque doeu nele. Que cenas dantescas! Ver Lula sofrer desta maneira é insuportável, porque é injusto. É como se fosse alguém da minha família: mexeu com Lula, mexeu comigo. A gente se preocupa: será que Lula vai aguentar isso? Será que não vai simplesmente desistir? É este o objetivo, claro. Quem ama Lula torce para que resista. Porque quanto mais batem nele, mais a gente gosta e valoriza Lula. Entende porque ele é tão importante para a luta por mais justiça social. Se Lula é perfeito? Imagina, ninguém que a gente ama é.


 

 Cynara Menezes é jornalista e editora do Blog Socialista Morena

Leia esta e outras colunas completas na edição 239 de Caros Amigos, que está nas bancas e loja virtual.  

 

 

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