De volta à estrada

Alexandre Matias
Typography

 

De volta à estrada

Por Alexandre Matias 

O pequeno Salomão tinha 10 anos de idade quando, ao subir pelas escadas do pequeno prédio onde morava, ouviu uma voz que ecoava pelas paredes, acompanhada por um violão sutil e rebuscado. Correu em direção àquele som e viu Milton, alguns anos mais velho, tocando sozinho. Aquele encontro mudaria a história da cultura no Brasil.

Era inevitável. Milton era amigo do irmão mais velho de Salomão, Márcio, e juntos eles eram alguns dos poucos jovens em Belo Horizonte que se descobriam músicos por sua paixão pela música. O próprio Lô, apelido de Salomão, tocava com uma banda cover de Beatles ainda no início dos anos 1960, ao lado de outro menino chamado Beto, os Beavers.

Lô era de uma geração posterior à de Milton, embora este tivesse desenvolvido uma afeição pelo garoto. Um dia, aguardando por Márcio na porta do prédio, Milton convidou o irmão do amigo para em um bar ali perto. Pediu uma batida de cachaça com limão e um guaraná para o garoto, que, já com 17 anos, também pediu uma caipirinha. Milton percebeu que Lô já não era mais menino. Ele pôs-se a lamentar, dizendo que se sentia excluído do grupo. Milton o ouviu e seguiram falando sobre música. Subiram ao apartamento dos Borges e começaram a brincar com voz e violão. A delicada jam session que os dois improvisaram seria batizada de “Clube da Esquina Nº2”, no álbum que lançaram coletivamente com os amigos dois anos depois.

Àquela época Milton já era um artista estabelecido. Deixara BH para conquistar o Rio de Janeiro e já havia gravado discos com o Tamba Trio (sua estreia) e Eumir Deodato (no exterior, a convite do mesmo). Já havia composto uma de suas obras-primas, “Travessia”, e era requisitado por diferentes intérpretes por composições inéditas.

 Leia mais:

Reverência ao mágico

Esperança para 2017

PUBLICIDADE
,
PUBLICIDADE

Fim do capítulo

Quando retornava a Belo Horizonte, retomava o contato com seu amor inicial: a música puramente sentida, longe do mercado fonográfico. Sentia-se melhor no grupo de amigos que aos poucos tomava as calçadas da esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza, tocando violão até alta noite. Quando a gravadora pediu um novo trabalho a Milton, ele resolveu fazer um disco com a turma de sua cidade. Especificamente com Lô Borges, que tinha completado 18 anos e com quem havia desenvolvido uma afinidade mágica.

Lô tinha dois desafios: convencer os pais e o exército, pois havia sido convocado para servir as Forças Armadas às vésperas de passar para a maioridade. Peitou ambos e foi para o Rio. Lá se instalaram em uma casa em Niterói, na praia de Piratininga, e Lô, marinheiro de primeira viagem no show business, 19 anos recém-completos e visto como uma exigência inusitada de um nome em ascensão na música brasileira, pediu para não ir só e convocou o amigo Beto. Na casa, os três compunham de uma forma peculiar: Lô trabalhava em um quarto, Milton no outro e Beto Guedes ia de um lado a outro sugerindo harmonias, melodias, solos, instrumentações. As canções surgiam naturalmente e então eram entregues aos letristas do grupo: Fernando Brant, Márcio Borges, Ronaldo Bastos; e depois aos músicos da turma de Belo Horizonte que eventualmente iam para Niterói ou que já moravam no Rio – como Wagner Tiso, Nelson Ângelo, Toninho Horta, Tavito, Robertinho Silva – e também músicos estabelecidos – como Eumir Deodato, Alaíde Costa e Paulo Moura. Tudo regido por Milton, o veterano da turma, o maestro daquele clube.

"O disco Clube da Esquina trazia para o País parte da sonoridade pop que tomava conta do mundo: folk rock, rock progressivo, jazz funk e rock psicodélico em canções bucólicas, devaneios lisérgicos, sonoridades pastoris e ecos latinos e uma sensação quase barroca, de esmero e cuidado, característica da musicalidade mineira"

O disco Clube da Esquina trazia para o País parte da sonoridade pop que tomava conta do mundo: folk rock, rock progressivo, jazz funk e rock psicodélico em canções bucólicas, devaneios lisérgicos, sonoridades pastoris e ecos latinos e uma sensação quase barroca, de esmero e cuidado, característica da musicalidade mineira. Aquele disco duplo (que, por pouco, não foi o primeiro disco duplo da história da música brasileira, perdendo para o clássico ao vivo de Gal Costa, FaTal, lançado meses antes) era um convite ao encontro, uma obra aberta que chamava o ouvinte para dentro de um mundo imaginário, emotivo e sentimental. Um dos primeiros discos brasileiros a creditar todos os músicos envolvidos em sua ficha técnica e em que músicos não ficavam restritos aos instrumentos que lhes foram delimitados.

Lançado no início de 1972, o grupo impulsionou a carreira do Lô. A gravadora lhe pediu um disco solo e ele topou. O único problema: ao gravar suas principais composições em seu primeiro registro fonográfico – o Clube – Lô havia esgotado seu repertório. Sem músicas novas, entrou em um processo de composição, arranjo e gravação quase industrial. Acordava, escrevia uma música, passava para o irmão que colocava a letra à tarde e, à noite, encontravam-se no estúdio, tentando colocar a canção de pé. Um processo convulsivo, uma jam session em câmera lenta, que reuniu quase todos os músicos que participaram do Clube para firmar um disco de músicas curtíssimas que formavam um mosaico psicodélico sem par na música brasileira – e mundial.

O disco ficou pronto e aquilo era o fim. Ele viu o horizonte tenso em que havia que compor músicas na marra e a sensação de que sua carreira musical poderia se tornar apenas aquilo. Quando cogitaram sua foto na capa, ele sugeriu que publicassem a imagem de seu par de tênis gasto. Era um código interno para avisar que estava pendurando as chuteiras e que iria colocar o pé na estrada. Para compor era preciso viver – e Lô desistiu da carreira fonográfica para viajar de carona pelo Brasil. Por cinco anos viveu como hippie, cruzando o País da Bahia ao Rio Grande do Sul, dormindo em comunidades, tocando música – e compondo sem parar. Quando parou, já tinha experiência e material para compor vários discos, como fez, a partir de seu segundo álbum solo, Via Láctea, lançado em 1979, retomando sua carreira profissional.

Mas seu homônimo disco de estreia havia ficado intacto no passado. Depois de lançado no mercado, não teve show, não teve campanha de lançamento, ficou esquecido com o tempo. Até 2017. Ao completar 45 anos, Lô reuniu uma banda de jovens músicos para recriar seu clássico disco no palco pela primeira vez. Como a duração do álbum é curta (pouco mais de meia hora), foram incluídos no repertório músicas que Lô gravou para o primeiro Clube da Esquina, transformando o show – que foi lançado em janeiro em São Paulo e deve percorrer o País durante o ano – em uma celebração àquele mítico 1972.


 

 Alexandre Matias, 4e anos, é jornalista e dono do site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br) e também mantém um blog no uol (matias.blogosfera.uol.com.br)

 

Artigos Relacionados

Reverência ao mágico Reverência ao mágico
 TUDO TANTO Leia coluna de Alexandre Matias, publicada na edição 239 de Caros Amigos (Foto:...
Esperança para 2017 Esperança para 2017
TUDO TANTO Leia coluna do jornalista Alexandre Matias, publicada na edição 238 de Caros Amigos&...
Reerguer o Maranhão Reerguer o Maranhão
TUDO TANTO Leia coluna de Alexandre Matias sobre a produção do festival BR-135, que evidencia...

Leia mais
×