Ciência, não silêncio!

Décio Semensatto
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Ciência, não silêncio!

Por Décio Semensatto

Neste último 22 de abril houve um evento global de cientistas, a Marcha pela Ciência. Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas protestar. Embora observamos diferenças entre os países na pauta de reivindicações, praticamente todos demandaram o mesmo: maior investimento em Ciência, Tecnologia e Inovação e que as decisões governamentais se baseiem em evidências científicas. Estive no evento em São Paulo, o maior no Brasil em termos de presença. Devo reconhecer que a chamada da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) ao movimento mundial é louvável. Não é de hoje que a SBPC alerta para a situação cada vez mais crítica da ciência brasileira, que neste ano teve um corte de 44% em seu orçamento e que já vinha sendo reduzido nos últimos dois anos. Também deve-se reconhecer que organizar esse evento exige um grande esforço. Em São Paulo, foi realizado pela Profa. Nathalie Cella (USP) e colaboradores daquela e de outras universidades públicas (Unicamp, Unesp e Unifesp). Houve falas interessantes, mostras de divulgação científica que fascinaram as crianças que enfrentaram a chuva, que por sua vez atrapalhou. Mas tenho um grande senão pela postura de vários colegas cientistas.

Sinceramente, eu esperava que uma marcha fosse realmente uma marcha, assim como ocorreu em outros países onde dezenas de milhares de pessoas estiveram presentes e fizeram uma caminhada com muito barulho. Não posso garantir que terão sucesso em suas reivindicações, mas definitivamente chamaram a atenção. Apesar de algumas falas importantes, o evento em São Paulo se transformou em feira de ciências na praça e contou com a presença de cerca de 500 pessoas. Li em matérias que em outras cidades foi ainda menor. Isso não foi responsabilidade da organização, que fez a sua parte em montar todo o palco, mas sobretudo da ausência de muitos cientistas que não atenderam o chamado. Cheguei a ouvir de uma colega cientista no evento que se fosse para protestar mesmo, com cartazes e uma caminhada, ela iria embora. Já outros colegas foram com o espírito de protesto, mas arrefeceram quando chegaram. Teve outra coisa que me incomodou. Quando alguém quis falar de forma mais contundente contra o atual governo e sua política, ouviu que o evento era apartidário (e era), como se criticar governo fosse algo exclusivo de partidos. Diversidade de opinião também faz parte da Ciência, que não perde sua unidade com isso. Quem não percebe esse fato, provavelmente não está maduro para o debate sério e de maior nível sobre o Brasil.

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"Trata-se, sobretudo, de sermos coerentes, firmes e resolutos com aquilo que acreditamos. Cientistas também são trabalhadores e se aposentam. Parece que alguns se esquecem disso. Não podem se dar o luxo do silêncio nesse momento de incríveis retrocessos"

Não há como promover mudanças e reverter cenários sem sermos contundentes. Falas nas praças, por mais que possam ser interessantes, não incomodam os políticos que estão com a caneta na mão. Não é essa a língua deles. O momento é gravíssimo e exige postura enérgica por parte da comunidade científica brasileira. Não se trata de partidarizarmos o debate, mas sim de o politizarmos no melhor sentido desta palavra. Trata-se, sobretudo, de sermos coerentes, firmes e resolutos com aquilo que acreditamos. Cientistas também são trabalhadores e se aposentam. Parece que alguns se esquecem disso. Não podem se dar o luxo do silêncio nesse momento de incríveis retrocessos. Lamento que o único movimento de muitas cabeças brilhantes seja o de balançar negativamente e com desapontamento quando pensamna conjuntura do País para, em seguida, voltarem aos seus problemas acadêmicos. Muitos admiram o teor das diversas manifestações de Albert Einstein, que era físico, sobre a política e a sociedade. Mas não pensam em seguir seu exemplo.

Colegas cientistas, se não marcharmos de verdade, se não nos articularmos politicamente, se não formos contundentes, se não participarmos do debate sobre os direitos sociais no Brasil e contribuirmos com nossa capacidade de reflexão e análise, tudo o que fazemos corre sério risco. Está também nas nossas mãos e na força de nossa voz garantirmos um futuro decente para a nossa geração e as futuras. Não podemos nos abster disso por mero preciosismo de que ciência e política não andam juntas. Andam, sim. Negar isso é uma ilusão pueril que, entre outras coisas, nos fez chegar até a situação que motivou a Marcha pela Ciência. Mais do que nunca,precisamos da Ciência. Não do silêncio.


 Décio Luis Semensatto Junior é ecólogo e professor de Ciências Ambientais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus Diadema (SP)

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