Fé, essência e outras babagens

Marcos Bagno
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Fé, essência e outras babagens

Por Marcos Bagno

Mês passado, critiquei um padre reacionário que se meteu a ridicularizar a pedagogia de língua materna em vigor atualmente no Brasil (e em muitos países, diga-se de passagem). Misturando gramática com anticomunismo, ele arrotava contra a “lenta e gradual imbecilização de uma nação”. No final do texto, depois de deixar claro o fascismo do sacerdote, escrevi: “Quanto a mim, penso que ‘lenta e gradual imbecilização de uma nação’ é alguém continuar apregoando que virgens podem dar à luz sem intercurso sexual e fazendo medo nas crianças com esse terrorismo psicológico de que ‘Deus está vigiando’, quando Deus nunca se deu ao mero trabalho de sequer existir”.

Pois não é que uma leitora ficou indignada com essas palavras finais? Me acusou de  “intenção velada de propagação de ódio religioso”. Jesus, Maria, José! Eu não posso então dizer que Deus não existe? Por que não? Por que tanta gente pode apregoar por aí a existência dessa coisa, existência nunca comprovada empiricamente, enquanto euzinho, pobre mortal, não posso alegar o contrário?

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No final de sua diatribe, a leitora escreve as seguintes palavras balofas: “A fé é a essência humana”. Uau! Então eu e os bilhões de ateus que existimos neste planeta não somos humanos? Ou não temos essência? Aliás, o que é “essência”? Palavrinha complicada essa, viu? Serve pra tudo e, por isso mesmo, não quer dizer nada. Atribuir a toda a espécie humana características que, de fato, são exclusivas de determinadas culturas e sociedades é uma falácia intelectual das mais vagabundas. Basta ver que em milhares de línguas humanas simplesmente não existe nenhuma palavra que corresponda a “fé”. A ideia de “fé” é ocidental, cristã e não tem paralelo, repito, em inúmeras línguas, a começar pelas mais próximas de nós, as centenas de línguas indígenas brasileiras que sobreviveram ao genocídio sistemático praticado pelos portugueses e seus descendentes, eles sim, muito cheios de “fé” na “essência”.

Dizer que “a fé é a essência humana” é uma visão fuleira da “essência humana”, seja lá o que isso for. É considerar “humano” só o que pertence a uma determinada cultura, a uma determinada sociedade e, ainda assim, a uma parcela dessa sociedade. Afinal, insisto, mesmo nas sociedades onde existe um conceito de “fé” também existem pessoas  que não têm fé religiosa nenhuma. E eu me incluo aí, com muito orgulho. Ódio religioso, minha senhora? Me poupe! Umas pitadas de antropologia cultural vão lhe fazer muito bem.


♦ Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB (www.marcosbagno.org)

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