Falar e fazer falar

Marcos Bagno
Typography

 

Falar e fazer falar

Por Marcos Bagno

Em fevereiro de 2008 eu estava em São Paulo e recebi um convite para dar uma entrevista à Caros Amigos. Fiquei muito entusiasmado, porque era leitor da revista e tinha especial admiração pelas entrevistas que publicava. Foi um encontro que até hoje recordo com alegria, porque eram pessoas inteligentes que conversavam comigo e compreendiam a visada assumidamente política das discussões que eu levava, e continuo levando, sobre as relações entre linguagem
e sociedade, especialmente sobre os usos da língua como forma de exclusão social da ampla maioria da população, uma exclusão que reflete ou, melhor, integra o grande sistema de injustiça, repressão e violência que vigora no Brasil há muitos séculos.

Terminada a entrevista, resolvi dar uma de “oferecido”, como se diz em Minas, e perguntei se a revista não teria interesse em publicar uma coluna sobre questões de linguagem. Para meu espanto e prazer, a oferta foi imediatamente aceita. Eu sempre tinha desejado escrever uma coluna permanente sobre aqueles temas e fazer isso na Caros Amigos era apenas perfeito.

Desde então, toda vez que viajo Brasil adentro e Brasil afora, na minha interminável campanha por uma educação linguística mais democrática e inclusiva, alguém se aproxima de mim para dizer que acompanha meus textos na Caros Amigos e me felicitar pela “coragem” em denunciar os falsos ídolos que tentam vender um peixe gramatiqueiro
podre e malcheiroso. E eu sempre respondo que a tal coragem me vem do fato de escrever numa revista que assume sem rodeios suas posições políticas e que seria incoerente participar dessa equipe sem seguir pelo mesmo caminho.

PUBLICIDADE

Agora recebo a triste notícia de que a Caros Amigos vai deixar de ser publicada. A notícia é ainda mais triste por causa dessa etapa trágica da história brasileira que estamos vivendo. Mas sei que as pessoas que colaboraram com a revista durante esses vinte anos não vão se deixar abater e vão buscar outros canais e outros meios para seguir denunciando
a miséria social, a miséria política e a miséria ética que assola esse País. Eu sei que não vou me calar. E agradeço a chance que a revista me deu, nos últimos dez anos, de falar sobre a língua que falamos e sobre os que tentam nos fazer calar essa língua. A luta não continua: é contínua, porque nunca parou.


 

♦ Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da unB – marcosbagno.org.

 

 

Artigos Relacionados

Sem revolução não tem solução Sem revolução não tem solução
FALAR BRASILEIRO Leia coluna do linguista Marcos Bagno, publicada na edição 247 de Caros Amigos,...
Tá ruim? Pois vai piorar! Tá ruim? Pois vai piorar!
FALAR BRASILEIRO Leia artigo do linguista Marcos Bagno, publicado na edição 246 de Caros Amigos,...
Uma escola que produz analfabetos Uma escola que produz analfabetos
FALAR BRASILEIRO Leia coluna do linguista Marcos Bagno, publicada na edição 245 de Caros Amigos (...

Leia mais