Lorotas que aprendemos na escola

Marcos Bagno
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LOROTAS QUE APRENDEMOS NA ESCOLA

O ensino explícito da gramática tem sido muito criticado, e com razão, desde meados do século passado. Com razão porque as promessas tradicionalmente feitas para justificar esse ensino nunca foram cumpridas: ninguém até hoje conseguiu provar que saber o que é uma “oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo” leva alguém a ler ou a escrever melhor, como sempre se alegou. Saber o que é essa oração só serve para saber o que é uma “oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo”. E isso lá é saber alguma coisa?

O outro problema grave é que esse ensino sempre tem sido feito com base no que hoje chamamos de gramática tradicional, um conjunto de ideias e termos sobre o funcionamento da língua que se formou na civilização grega antiga, séculos antes de Cristo. É fácil imaginar que essa doutrina é cheia de paradoxos, contradições e de erros puros e simples. Ninguém hoje se submeteria a um tratamento médico tal como era feito no século 3 a.C., mas quase ninguém se espanta que o ensino de língua continue se valendo de conceitos tão antiquados e ultrapassados. Ora, como é que podemos continuar dizendo que “sujeito e predicado são termos essenciais da oração” e, na mesma página da gramática, pouco abaixo, aprendemos que existem “orações sem sujeito”? Se o sujeito é essencial (ou seja, se faz uma oração ser uma oração), como é que ele também pode ser dispensado?

Outra lorota que aprendemos e ensinamos é “o pronome substitui o nome”. No entanto, se continuamos a classificar “eu” como pronome, é possível perguntar: que nome “eu” substitui? Nenhum, é claro. Simplesmente porque “eu” não é um pronome, mas um índice pessoal, uma palavra que aponta (indica, por isso “índice”) para algo que está fora do texto, para uma pessoa que está na realidade das coisas, no ato do discurso. Assim, o verdadeiro pronome é “ele” (e suas formas no feminino e no plural). Só que, mais uma vez, a classificação tradicional é problemática: como é que se pode falar de uma “3a pessoa do discurso”, se o discurso envolve sempre e exclusivamente duas pessoas (“eu” e “você”)? “Ele” é o assunto, é a pessoa ou coisa da qual se fala, está sempre fora do discurso. A melhor classificação, portanto, para “ele” é a de “pronome da não-pessoa”, e é assim que a linguística moderna vem fazendo. Justamente por isso é que os verbos conjugados na não-pessoa podem exprimir fenômenos, estados de coisas etc.: chove, nevou, caiu granizo, pode ser, hoje tem sol!

Além disso, “ele” não “substitui nome”: o pronome de não-pessoa retoma (anaforicamente, se me permitem um termo técnico) algo que já foi enunciado. Por exemplo: “A atitude ideológica que os grandes jornais brasileiros têm assumido ultimamente é assombrosa. Ela autoriza até as mentiras mais deslavadas”. É óbvio que o “ela” da segunda frase não substitui nome nenhum. “Ela” retoma toda a frase anterior, desde “a atitude” até “assombrosa”. É triste saber que a educação (e não falo só da brasileira) permanece tão enraizada nessas tradições infrutíferas. Que tenhamos uma escola do século 19, com professores do século 20 e alunos do século 21. E não se trata só do ensino de língua. Até hoje ninguém me explicou por que tive de sofrer tanto para aprender a fórmula de Báskara, as raízes quadradas e o esoterismo da trigonometria se nada disso jamais me serviu para coisa alguma na vida!

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Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB – marcosbagno.org

FALAR BRASILEIRO - CAROS AMIGOS EDIÇÃO 204

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