“Este” ou “Esse”? Tanto Faz!

Marcos Bagno
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“ESTE” OU “ESSE”? TANTO FAZ!

Um tema que sempre fascina quem estuda as relações entre linguagem e sociedade é a atitude que as pessoas mais letradas assumem diante das noções de erro e de correção. Essa atitude às vezes é quase patológica. Certas supostas “verdades” imutáveis são ensinadas na escola e se entranham tão fundo nos corações e mentes que é quase impossível removê-las de lá. Uma dessas falácias é a tentativa de impor uma distinção nos usos dos demonstrativos “este” e “esse” (e suas flexões de número e gênero) e “isto” e “isso”. A resistência dos letrados em admitir que não existe nenhuma diferença nesses usos é tamanha que nem mesmo a palavra dos gramáticos e dicionaristas, sempre considerados como os mestres supremos da “língua certa”, consegue abalar esses dogmas empedernidos.

A diferença entre “este” e “esse”, se é que algum dia já foi sentida pelos falantes de português, há muito tempo deixou de existir. E quem diz isso são os nossos mais respeitados filólogos, gramáticos e dicionaristas. Evanildo Bechara, por exemplo, escreve em sua gramática: “Estas expressões não se separam por linhas rigorosas de demarcação; por isso exemplos há de bons escritores que contrariam os princípios aqui examinados e não faltam mesmo certas orientações momentâneas do escritor que fogem às perscrutações do gramático”.

Já há mais de trinta anos, Celso Cunha também dizia: “Estas distinções que nos oferece o sistema ternário dos demonstrativos em português não são, porém, rigorosamente obedecidas na prática”. Rocha Lima, há mais de meio século, declarava: “Não há, entretanto, muito rigor na distinção de isto e isso, em virtude da predominância dos seus valores estilísticos sobre os seus valores gramaticais”. E o dicionário Houaiss não hesita: “no português do Brasil, a oposição entre este e esse desvaneceu-se, especialmente na língua falada, e só na língua formal escrita é observada, devido mais ao ensino escolar do que ao sentimento linguístico individual, por isso é frequente, mesmo na língua escrita, a troca de um pelo outro”. Mas nada disso impede tanta gente de querer ser mais realista do que o rei e bradar aos sete ventos que tem diferença, sim! Ah, minha mãe Oxum, me dê paciência... No caso do Houaiss, vale enfatizar o que se diz sobre o “sentimento linguístico individual”: quando os falantes não fazem mais distinção, é porque não sentem necessidade.

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E é assim que as línguas vão mudando. Quando levantei essa discussão nas redes sociais, muita gente ficou feliz por descobrir que não aprendia a tal regra simplesmente porque ela não existe na gramática intuitiva dos falantes da língua. Mas, como sempre, apareceram os chatos de plantão com seu eterno argumento: “Eu não acho”. Claro que não acha! Nem tem que achar nada! Quando os linguistas afirmam que determinado uso deixou de existir numa língua, eles não dizem isso porque “acham” ou porque querem que seja assim, mas porque gastaram horas de suas vidas pesquisando, levantando dados reais e analisando esses dados para realmente dizer como a língua é. “Eu não acho?” Vá achar um macaco pra pentear, ora essa!

Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB – marcosbagno.org

FALAR BRASILEIRO Publicado na edição 223 da revista Caros Amigos

 

 

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