Um livro excepcional

Marcos Bagno
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Um livro excepcional

Por Marcos Bagno

Acaba de ser publicado um desses livros que já chegam para ocupar um lugar definitivo na bibliografia sobre a formação histórica do Brasil. É a História sociopolítica da língua portuguesa, de Carlos Alberto Faraco, um dos nossos mais respeitados linguistas, conhecido por sua prosa elegante e clara, pela capacidade de construir argumentos muito bem fundamentados e documentados. É uma história da língua portuguesa, sim, mas não uma história da “língua em si”, isto é, de suas transformações ao longo do tempo, desde o latim até os dias de hoje. É uma história sociopolítica, e esse qualifi cativo deixa claro que o objeto da narrativa é outro. É a língua como elemento constitutivo da identidade dos povos, como fenômeno antes de tudo social, cultural, político e ideológico, como instrumento de aquisição e manutenção do poder, como arma de opressão e conquista de povos e terras.

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Faraco inicia seu relato dois séculos antes de Cristo, quando os romanos finalmente conquistam a região noroeste do que hoje é a Espanha e a transformam numa província chamada Galécia. Ali vai nascer uma língua derivada do latim imperial, uma língua que mil anos depois vai ser chamada de “galego” e que só no século XV receberá o rótulo de “português”, depois de ter sido levada cada vez mais para o sul pelos soldados que tratavam de expulsar os mouros do ocidente ibérico. O reino de Portugal, nascido simbolicamente em 1189, é consequência dessas incursões militares.

A colonização portuguesa deixou como herança países que encabeçam a lista dos mais pobres e atrasados do mundo.

 

A parte que mais nos interpela, obviamente, é a que narra a saída da língua da Europa e sua instalação nas terras invadidas e conquistadas pelos portugueses na Ásia, na África e na América. E é nisso que o livro de Faraco se mostra um divisor de águas, um livro que veio desmontar velhos e perversos mitos. Ao longo dos séculos, surgiu uma ideologia que tenta mostrar de que maneira a colonização portuguesa teria sido diferente das outras, mais tolerante, mais propensa à assimilação, ao convívio pacífico com os povos dominados. Mentira pura. Um dos artífi ces mais famosos dessa bobajada foi Gilberto Freyre, com seu lusotropicalismo, um devaneio reacionário absoluto. A colonização portuguesa foi como qualquer outra: predatória, genocida, escravagista, intolerante. E foi até pior: enquanto, por exemplo, a Espanha favoreceu a educação e a cultura em suas colônias, Portugal manteve seus domínios sob a ignorância e o analfabetismo até 1975, quando seu império ruiu de vez. A colonização portuguesa deixou como herança países que encabeçam a lista dos mais pobres e atrasados do mundo.

Ao lado disso, se acumula na história um discurso de exaltação da língua portuguesa, como se ela estivesse destinada a redimir a humanidade. Intelectuais delirantes como o padre Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva gastaram rios de tinta para construir essa utopia balofa, sem nada que a sustente a não ser a saudade de um império que desapareceu e a vontade de ser maior do que se é. Infelizmente, esses delírios desaguaram na ideia de “lusofonia”, que Faraco revisita e critica, mostrando que se trata de uma verdadeira quimera.

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