Falar brasileiro: É golpe! É golpe! É golpe!

Marcos Bagno
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É golpe! É golpe! É golpe!

Por Marcos Bagno

É golpe, sim. O mundo inteiro reconhece, todas as forças políticas progressistas internacionais já aplicaram o rótulo certo e preciso a esse pesadelo que estamos vivendo no Brasil: é golpe. Um golpe muito bem analisado por Chomsky: o imperialismo estadunidense quer retomar o seu quintal, já se cansou de uma América do Sul querendo andar com as próprias pernas. Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Equador, Bolívia – é preciso golpear com força, com marreta pesada, aniquilar qualquer tentativa minimamente reformista que possa comprometer os mesmos e eternos interesses dos donos do mundo. A Argentina foi entregue a um governo que em poucos dias já mostrou a que veio: o número de cidadãos pobres e miseráveis aumentou exponencialmente. A Venezuela, atingida pela queda do preço internacional do petróleo, está a ponto de desabar, tanto por causa de um governo destrambelhado quanto, principalmente, pela conspiração das oligarquias, ansiosas por voltar a lamber as botas dos capatazes que falam inglês. Agora é o Brasil, onde uma presidenta legitimamente eleita é afastada pelo que há de mais abjeto, podre, corrupto, infame, reacionário no espectro social.

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Nem é possível falar em “espectro político conservador”, porque não se trata de diferenças políticas, de diversidade de opiniões. Como declarou Dilma Rousseff numa entrevista, o termo “conservador” não cabe neste momento: “na realidade, são golpistas de direita”. Existem partidos conservadores honestos, que defendem suas posições ideológicas respeitando o jogo democrático. No Brasil, nada disso: temos uma máfia parlamentar, dominada por assassinos profissionais (a bancada da bala), por latifundiários escravocratas (a bancada do boi) e por sugadores da ignorância maciça da nossa população pobre (a bancada da bíblia). E agora um presidente interino notório informante da CIA.

 

"Enquanto o mundo estiver nas mãos dessa raça escrota, nojenta, imperialista, escravocrata, poluidora, hematófaga, não existirá liberdade nem igualdade nem democracia" 

 Um governo de perdedores, em todos os sentidos. Perdedores. Mas o homem  branco da oligarquia não suporta perder. Não admite ninguém mais no jogo. Só ele  e seus iguais. Mulheres, já pro gineceu. Índios, pra debaixo da terra. Negros, na  senzala. Gays, lésbicas e transexuais, no cemitério. Pobres, pra debaixo da ponte ou  pra cima dos morros. Perderam quatro eleições. Não suportaram. Perder duas vezes  para um ex-operário, nordestino sem curso superior que “fala tudo errado”? Perder  duas vezes para uma mulher? Para uma MULHER? Horror dos horrores. Nada, nada,  nada é pior neste mundo do que a vaidade ferida do homem branco oligarca. Nada.  Ele mata por isso. Estrangula a mãe, eletrocuta o irmão, tortura o filho, estupra a  filha. Enquanto o mundo estiver nas mãos dessa raça escrota, nojenta, imperialista, escravocrata, poluidora, hematófaga, não existirá liberdade nem igualdade nem democracia. Enquanto eles exercerem seus podres poderes, enquanto essa minoria mandar com um chicote na mão e o fuzil na outra, o resto da humanidade nunca encontrará a paz.

Pois são eles que estão aí de novo. Aliás, nunca deixaram de estar. O pacto conservador que os governos do PT estabeleceram não foi suficiente para apaziguar a avidez insaciável das eternas sanguessugas que há meio milênio controlam todas as estruturas sociais, políticas, econômicas do Brasil. Nunca o provérbio espanhol “Cría cuervos y te sacarán los ojos” me pareceu tão cabível numa situação. Nunca o perigo de “dormir com o inimigo” esteve tão evidente. E o resultado está aí: um golpe, sem mais nem menos. Um golpe contra tudo e contra todos, menos contra quem sempre esteve por cima da carniça do povo.


 Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB (www.marcosbagno.org)

Leia esta e outras colunas completas na edição 231 que está nas bancas e loja virtual

 

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