Um longo e doloroso processo

Marcos Bagno
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Um longo e doloroso processo

Por Marcos Bagno

O mais importante prêmio do mundo editorial brasileiro, o Jabuti, foi atribuído este ano, acho que pela primeira vez, a uma obra que trata de questões linguísticas. É o livro Língua e sociedade partidas: a polarização sociolinguística do Brasil, publicado em 2015 por Dante Lucchesi, um pesquisador reconhecido por suas investigações sobre o impacto das línguas africanas sobre o português brasileiro. Ao lado de outro livro importante, que já comentei aqui, a História sociopolítica da língua portuguesa, de Carlos Alberto Faraco, lançado este ano, temos já à nossa disposição um panorama muito bem documentado da realidade linguística brasileira nos dias de hoje e ao longo do tempo.

Muitos acreditam que a língua portuguesa se implantou no Brasil logo no primeiro dia em que os portugueses pisaram estas terras. Já teve filólogo conhecido que disse que o português aqui se espalhou “como mancha de azeite no papel”, porque as outras línguas eram “incultas” e “rudes”, e não tinham como fazer “concorrência” ao português “civilizado”. Me engana que eu gosto! Essa ideologia é facilmente desmascarada quando estudiosos sérios, como Lucchesi e Faraco, recorrem aos documentos históricos e aos resultados da investigação científica. Se hoje o português é a língua majoritária dos mais de 200 milhões de habitantes do Brasil, essa situação levou muitos séculos para se estabelecer.

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Durante a maior parte do período colonial, os primeiros trezentos anos, o português foi língua extremamente minoritária. Existiam centenas de línguas indígenas e duas delas, o tupi da costa e o tupinambá, acabaram se tornando o que chamamos de “línguas gerais”, veículos de interação entre falantes de línguas diferentes, incluídos os colonos portugueses. Em carta escrita no final do século 17, o padre Antônio Vieira atestava que a língua mais falada em São Paulo era “a dos índios”. Os filhos dos portugueses com as índias também só falavam a língua indígena, e os célebres bandeirantes, que saíram explorando as terras desconhecidas atrás de riquezas e de índios para escravizar, também eram falantes da língua geral.

Foi a descoberta do ouro em Minas Gerais, no final do século 17, que provocou uma grande reviravolta linguística no Brasil. Muitas pessoas de outros cantos da colônia, incluindo milhares de escravos, se deslocaram para a região mineira, em busca de fortuna. Além disso, mais de meio milhão de portugueses vieram da Europa para cá, atraídos pelas oportunidades de enriquecer. Foi esse encontro de classes sociais diversas, falantes de línguas diversas, mas capitaneado pelos senhores das terras, os falantes de português, que permitiu o que Lucchesi chama de “primeira vaga de lusofonização do Brasil”.

A partir daí, o português segue uma curva ascendente até se impor como a língua mais falada entre nós. Para isso, foi preciso extinguir, por meio de genocídio sistemático, centenas de povos (e línguas) indígenas; escravizar milhões de africanos que, trazidos para cá, tiveram de aprender a língua de seus senhores de modo irregular e assistemático, dando surgimento às variedades populares do português brasileiro. Como tudo na nossa história, foi um longo e doloroso processo, marcado pelas mesmas violências que ainda imperam na nossa sociedade, uma das mais desiguais do planeta.


 

♦ Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB (www.marcosbagno.org)

 

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