Faça o que eu digo, porque eu mesmo não faço!

Marcos Bagno
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Faça o que eu digo, porque eu mesmo não faço!

Por Marcos Bagno

Um amigo português, o linguista Fernando Venâncio, volta e meia me manda de presente alguns petiscos gramaticais para nos divertirmos. O mais recente foi colhido de um site português chamado Ciberdúvidas. O site, como o próprio nome indica, é uma dessas incontáveis revivescências dos antiquíssimos “consultórios gramaticais”, muito comuns na imprensa do início do século 20, quando o jornal era praticamente o único meio de comunicação. A tecnologia só veio lhes dar nova forma, porque o conteúdo e, principalmente, o discurso cego a qualquer mudança na língua e surdo a qualquer fundamentação científica permanece o mesmo.

Ao publicar um balanço das principais dúvidas que acometem os consultores, o site elenca esta: “Formação de plurais simples (‘Vende-se casas ou vendem-se casas?’ A forma correta é ‘vendem-se casas’)”. Parece piada, mas não é: ainda tentam nos fazer acreditar que casas podem vender-se a si mesmas, quando até minha samambaia de plástico sabe que “se” é o sujeito dessas frases, um pronome-clítico com semântica de indeterminação. Em 1908, o filólogo brasileiro Manuel Said Ali já dizia que impor essa concordância era um desafio à “sanidade mental”. A tal da “voz passiva sintética” ou “voz passiva pronominal” é a prova mais cabal de que os gramáticos não são seres infalíveis, e que às vezes também são acometidos por delírios tremebundos.

 

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Ora, pois, pois. Não é que, prosseguindo na enumeração das dúvidas mais comuns, o mesmo site registra: “A forma como se pronuncia algumas palavras”. Uai, sô! A forma correta não é “vendem-se casas”? Então era para ser também “a forma como se pronunciam algumas palavras”. Só que não foi. A explicação para essa atitude parece residir entre o dito tradicional “Faça o que eu digo, não o que eu faço” e as temíveis descobertas do Dr. Freud. Quando a pessoa escreve sobre a tal regra descabelada, conscientemente, ela recita o velho dogma da concordância. Mas quando escreve sobre outra coisa qualquer, deixando-se levar pela sua poderosa intuição gramatical, a tal regra fica no limbo, lugar de onde nunca deveria ter saído. Afinal, o “se” de “a forma como se pronuncia algumas palavras” equivale perfeitamente a “a forma como (alguém) (a gente) (você) pronuncia algumas palavras”. Essa é a equivalência, voz ativa total. Não existe passividade nenhuma aí, porque nós, falantes da língua, quando usamos a voz ativa ou a voz passiva, temos intenções comunicativas muito precisas. A única voz passiva em português é a que se forma com o verbo “ser” e o particípio passado: “Dilma foi derrubada por uma corja de criminosos”. Dizer que “se” é “partícula apassivadora” é o mesmo que dizer que temos um ministro da Cultura, quando o que se tem de fato é um réptil pusilânime que escancara a podridão de que se nutre o atual (des)governo.


 


 Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB (www.marcosbagno.org)

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