Sonhei com o “trabalho”...

Jean de Menezes
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Sonhei com o “trabalho”... 

Por Jean Paulo Pereira de Menezes

Depois de um longo dia fatigante, muitos compromissos, acordos, combinações e muitas ordens... Fui para casa... Afinal, quem trabalha tanto merece um bom sono. E não demorou para cair nos braços de Morfeus.

(...)

Trabalhava em uma fábrica de terminais de baterias. Nela estava morrendo... Já havia perdido partes dos dedos na prensa e por pouco não fui engolido totalmente pelo torno quando cobria o camarada que precisava ir ao banheiro... A produção não parava por nada! Outro dia, indo para este trabalho... Ainda no final da madrugada, com uma “leitoinha125” emprestada e com um capacete de viseira improvisada com garrafa descartável, acabei me acidentando... O vento gostoso entrava pelos furos da viseira e refrescava meu rosto... Quando de repente... Vários cavaletes amarelos, alinhados horizontalmente com a faixa amarela da pista, arregaçaram minhas pernas junto com o camarada que estava na garupa. Assim mesmo aqueles que nos socorreram acabaram nos levando para fábrica primeiro (para explicar para o patrão), só depois para o hospital, com a instrução do patrão de que não era para falar que estávamos indo para o trabalho... Enquanto isso, meu fêmur, trincado, esperava paciente as orientação do Sr. Amado!

Neste sonho tive outro sonho e nesse estava trabalhando também, só que desta vez era em uma fábrica de fios elétricos... Fazíamos fios para a Fiat, eram mandados para a Itália... A minha parte era enrolar os fios em uma máquina de três bocas que juntava os fios em pequenos rolos que deveriam ser amarrados rapidamente e embalados... Quando o fio rompia era chicotada por todo lado... Imaginem... Um fio de cobre de dois milímetros, rodando em um eixo em altíssima velocidade... Poisé...Se pegasse no corpo era corte na certa... E, é claro... Cortei-me várias vezes até ficar adestrado... Muitos perdiam a visão quando o fio chicoteava nos olhos dos trabalhadores.

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Neste sonho, lembro que precisava ir ao banheiro e tomar um cafezinho para ficar acordado a todo custo, entravamos às 5 da manhã... Era “foda”... Quando voltei para a minha máquina o sonho ainda estava comigo e de repente, só escutei o fio estalando na minha cara...

Foi quando acordei em outro cenário... Já não sabia se era sonho ou realidade... As coisas estavam ficando cada vez mais confusas (...).

Estava trabalhando em outro lugar, era uma usina de cana de açúcar... Estava sempre junto de vários camaradas... Fazíamos os reparos nas estruturas da usina, no período entre as safras... Estava com o maçarico na mão e a minha trena no cinto... Cortava uma “boca de lobo”... Só que isso era em um lugar bem alto e estava pendurado em uma ponte (ponte é um guindaste que se movimente horizontalmente, bem no alto de toda estrutura da fábrica), era muito “foda”... Além do fogo do maçarico cozinhando a minha cara (ar de maçarico, nos olhos) e as pelotas de fogo caindo lá do alto (essa era uma parte linda... elas desciam pelo ar e quando tocavam o chão, explodia fogo para todos os lados) tinha a sensação de que o guincho da ponte ia se soltar a qualquer momento... Aquilo era real... Não poderia ser sonho... Era muito real!

A ponte começou a se mover para a direita e me desequilibrei... Comecei a cair como as bolas de fogo feitas pelo meu maçarico... Via o chão chegar à minha cara quente... Escutava a gritaria da peonada... Silêncio... Estava estendido no chão da usina... As pessoas se aproximavam com uma tremenda cara de espanto... Era muito estranho... Todos da fábrica caminhavam em minha direção... Eu não sentia nada... Todos tinham nas mãos uma azulzinha. Pareciam que estavam velando o meu corpo... Quando de repente uma camarada riscou o isqueiro no bico do maçarico e o oxigênio e o acetileno cuspiram fogo como sempre... Fizeram uma montanha de azulzinha e pregaram fogo.

Lá do fundo vinha um capacete branco dizendo: “Vamo gente, não pode parar não... é a vida... pra morrer basta estar vivo. Vamo, vamo!!!”. Foi quando a turma começou a cruzar os braços e foram para as ruas da usina... Estava muito confuso... Mas já estava percebendo que a morte era um fato para mim... Dessa vez tinha trabalhado até morrer. Muitos trabalhadores ganharam o RH, que de humano não tinha nada. Deflagraram uma greve geral.

Era um sonho dentro do outro e eu já não sabia mais onde é que eu mais sofria... Se era com a prensa, com as chicotadas de fio de cobre ou se era com a morte caindo da ponte com o maçarico ligado... Foi quando um crepúsculo tomou conta do sonho ou sei lá o que era aquilo...

Acordei em Brasília, e, como espectador, várias cenas apareciam para mim... Um senador mexendo no fio da bateria do seu carro importado, um deputado cortando o fio de cobre do placar para fraudar a votação e um presidente falando que a sociedade deveria trabalhar mais para tirar o Brasil da crise... Ai não tive mais dúvidas... Era o pesadelo sendo consolidado!

"Olhei para o calendário... Era 28 de abril de 2017... Mais do que depressa, peguei meu casaco e fui me esconder da classe trabalhadora, pois era dia de greve nacional!"  
   

O despertador marcava cinco da manhã... Acordei, meio na dúvida se não seria mais um episódio do pesadelo... Olhei para o calendário... Era 28 de abril de 2017... Mais do que depressa, peguei meu casaco e fui me esconder da classe trabalhadora, pois era dia de greve nacional!

Eu já sabia que uma hora isso iria dar problema... Parece-me que o vulcão de Tocqueville está em atividade... E agora? Como vou sobreviver? Pensei que estava tudo no controle... Enganei-me. Poderia ser só mais um pesadelo. Caramba, vossas excelências, não tem como fazer de conta que não fizemos nada?!


Jean Paulo Pereira de Menezes é docente no curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – Campus de Paranaíba

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