É necessário romper com o binarismo para a classe avançar

Jean de Menezes
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É necessário romper com o binarismo para a classe avançar

Por Jean Paulo Pereira de Menezes

Há um princípio metodológico muito importante que diz: “Concordar não deve ser obrigatório, mas entender o que um autor escreve é”.

Vivemos em um período histórico onde o binarismo toma o corpo de um Colosso de Rodes. Como sempre, vou logo limpando o terreno para meu caro leitor. Binarismo aqui é referente àquela leitura de mundo reducionista, que resume o complexo de complexo em dois posicionamentos: certo ou errado. Dependendo do sujeito se escolhe um lado. Como podemos imaginar, ou você está do lado certo ou do errado, não existindo outras possibilidades. Deste binarismo é que vou tratar no artigo desta semana.

Se não bastasse o autoritarismo que tal posicionamento binário nos impõe, ele ainda nos impede de formular propostas para além do binário posicionamento sobre o mundo, as coisas, as pessoas, a crise capitalista.

Estamos no centro de uma clássica crise do sistema capitalista como caracterizou o próprio Marx ainda no século XIX. E, para entendermos a crise e seus desdobramentos para a vida do trabalhador brasileiro, precisamos pensar ela internacionalmente e o posicionamento que cabe ao Brasil, coisa que o comportamento binário não colabora em absolutamente nada para este debate.

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Apontarei alguns exemplos, não os aprofundarei agora, mas a título de ilustração: “Se na Síria o povo vem sendo assassinado por Bashar al-Assad”, logo, “todos que são contrários ao ditador são nossos aliados”. Outro: “Se na Síria há resistência e entre eles existem fanáticos”, logo, “Sou contra esse tipo de ação”. Só mais um: “Se Assad é aliado dos EUA, logo temos que apoiar a casa branca, do contrário são todos terroristas”. Nem entrarei no debate dos limites destes exemplos. Parece-me razoável afirmar que eles não dão conta de entender minimamente a realidade. É preciso ir para além da procura do bem e do mal. Eles existem, mas se fossem tão óbvios, toda “ciência seria desnecessária”!

Pensemos o Brasil (...).

Para entendermos os desdobramentos da crise internacional no País o binarismo se mantém imprestável. Por quê? Respondo: porque as relações sociais não são compostas de apenas duas coisas, ou dois comportamentos, duas leituras do real e por ai vai (não se enganem com certo pluralismo metodológico, não é meu posicionamento).

Muitas organizações afirmavam com todas as letras que “uma onda conservadora” assolava o País e que era necessário fazer alianças para resistir ao mal menor. Que uma política muito radical (como se isso fosse algum tipo de problema) afastaria a classe trabalhadora e que “não seria possível militar com uma política” muito revolucionária. Pois bem, hoje, muitos que afirmavam esta leitura da conjuntura não conseguem mais sustentar esta tese. Pois a luta dos trabalhadores não ficou a reboque deste medo militante de ser muito radical. Como explicar as greves, ocupações, paralizações, atos,manifestações, etc... Como nunca nos últimos tempos e a classe trabalhadora vem debatendo e agindo diante da crise.

É verdade que há um avanço do conservadorismo no Brasil?

Não vejo como não identificar no tempo presente a manifestação deste posicionamento e diria mais... observamos maior publicização de elementos do pensamento fascista, quando não declaradamente nazista. E isso causa asco, medo, repulsa e combate. Boa parte da classe média descobriu que o Brasil é um País conservador em 2014 e isso é muito grave, pois as consequências desta perspectiva custam, há séculos, milhares de vidas!

O que diz o binário? “Que se tem que ter os pés no chão, não dá para sonhar com algo distante da nossa realidade”. Eu contra argumento: pés no chão é se levantar contra o capitalismo, pois não há nada mais real do que isso... Trabalhadores que não recebem salários, trabalhadores que recebem um valor menor do que o mínimo necessário para sobreviver, capacidade de produção em escala maior que a planetária e pessoas (que fazem comida) morrendo de fome? Não... isto não é ser sonhador... isto é ser realista! Sonho é acreditar que o capitalismo está dando certo, que a crise capitalista é algo natural. Acho que o binário é que está com os pés em outro lugar.

Mas o pensamento binário não para por ai... Há situações ainda mais polêmicas diante do binarismo.

Diante disso, o golpe na presidente Dilma Rousseff... Espera ai... Não foi golpe! Ou foi? “De que lado você está?”... “Não reconhece o golpe no PT, então é golpista, Bolsonaro 2018”. Ou... “A democracia venceu. Foi tudo legal e a constituição foi cumprida, justiça seja feita... Não teve golpe foi tudo legítimo”.

Ou seja, golpistas e golpeados... Outra manifestação do binarismo, e, reafirmo: ele não ajuda em absolutamente nada. Não será Lula 2018 que resolverá a questão da crise capitalista, menos ainda os políticos do PMDB, PSDB (...)!

Pode-se afirmar: “Então nos resta o menos pior”.

Fomos educados para pensarmos binariamente e dentro das regras do jogo da democracia dos ricos, feito pelos próprios patrões e seus aliados. Há vida para além do binarismo, é necessário romper com o binarismo para a classe avançar!

Não serão as eleições que mudarão a vida dos trabalhadores explorados... Observem, elas existem há séculos e jamais a essência da realidade da propriedade privada, do assalariamento, mudou um centímetro! Se as eleições mudassem a realidade, provavelmente, já estaríamos a anos-luz da barbárie que vivemos. Novas eleições com as mesmas regras? Depositando no Congresso Nacional os rumos do País? Isso é um desrespeito à inteligência alheia, pois me parece que isso já não deu certo, reiteradamente.

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Não me estranhará sea pergunta for: “Mas fazer o quê então... Não temos outra saída”. Esta também foi uma pergunta realizada em Paris, Rússia e Cuba.

E é ai que reafirmo minha tese, caro leitor, há saída para além de PSDB, PMDB e PT. Esta é uma das perspectivas, e, é verdadeiro que elas são válidas, mas não são as únicas. Na verdade nunca foram.

O que pretendo com isso, caros leitores? Pretendo apontarpara o fato de que o binarismo não vai nos ajudar a entender, e, menos ainda, transformar a realidade de exploração da classe trabalhadora.

É verdade que o terreno da democracia é o melhor para lutarmos por uma sociedade justa, para que a barbárie seja umacoisa da história passada. Mas se tivermos a democracia como objetivo final (como estratégia) estaremos reproduzindo o que Francis Fukuyama já afirmou em o seu O Fim da História e o Último Homem, algo como: vencemos, trata-se agora de buscar aperfeiçoar o que temos!

O fato é que nossa formação, predominantemente, é capitalista, vivemos neste tipo de sociedade e é entendível que pensemos que não exista outra saída... Fomos educados para pensarmos assim.

É também verdadeiro que outras saídas podem ser possíveis para a crise. A questão: não é somente 0-1. As saídas são múltiplas. O Socialismo não é a única também. Todavia, é uma.

Não será com eleições de cartas marcadas que a classe trabalhadora irá mudar a sua realidade. “Qual é então?” Será aquela que ela construir... Por exemplo, temos uma Greve Geral marcada para dia 28 de abril... Esse é um caminho da classe organizada para dar respostas diante da crise. Desenvolver comitês/conselhos, por todo o País para debater e organizar ações contra os ataques à classe trabalhadora é fundamental (e isso já está acontecendo, a lista seria enorme).

Não é uma regra, mas o pensamento binário normalmente espera cair do céu a fórmula mágica para resolver os problemas. É preciso romper com isso. A saída do matadouro não é a porta aberta pelo açougueiro, certamente não!

Não se trata aqui de desprezar a democracia dos ricos (porque é nela que resistimos com lutas), mas de construir formas de organização para além dela. Não se trata de se conformar com as possibilidades impostas pelos grupos políticos predominantes, sejam eles PMDB,PSDB ou mesmo o PT.

A conciliação de classes não é a saída para os trabalhadores, os trabalhadores desempregados... Nem mesmo o PT abre mão da conciliação de classes e está pagando muito caro por ter esta política, sendo caçado pelos seus próprios aliados, pelas suas próprias alianças.

Isso provoca grande confusão na classe trabalhadora, afinal o PT ficou conhecido por ser um partido dos trabalhadores... Mas quantos operários eram seus ministros? Alianças, isso tem preço! E a história nos mostra que este nunca foi o caminho para uma (a repetição do artigo indefinido é proposital em todo texto) outra sociabilidade.

"É preciso debater amplamente as propostas que não aparecem diante do binarismo. A realidade é muito mais complexa do que zero e um, do que PMDB e PT. A crise é estrutural e não me parece a melhor saída ficarmos nos digladiando para escolhermos quem será o próximo partido que gestará melhor a crise do capital. Escolher o 'menos pior', o 'mal menor', é o pior posicionamento de um revolucionário"  
   

É preciso debater amplamente as propostas que não aparecem diante do binarismo. A realidade é muito mais complexa do que zero e um, do que PMDB e PT. A crise é estrutural e não me parece a melhor saída ficarmos nos digladiando para escolhermos quem será o próximo partido que gestará melhor a crise do capital. Escolher o “menos pior”, o “mal menor”, é o pior posicionamento de um revolucionário. É legítimo que se façam estas escolhas, mas exigir de ummilitante/organização que reivindica uma tradição bolchevique já é um absurdo (O que é essa tradição bolchevique? Esta vendo, não existe apenas 0-1). É necessário entender para além do binarismo. Ao contrário disso corre-se o risco de não entender a riqueza diversa que é a sociedade de classes. Seria como pedir para o alfaiate fazer um bolo de manga longa para usar no salão de festas ou solicitar a confeiteira um bolo de couro para vestir-se no inverno.

É preciso ousar a ousar, não se contentar com o reformismo e apresentar sem medo uma outra proposta diante do binarismo imperante em nosso tempo presente. Sei que muitos ficam de pelos de pé com este debate, mas ele é mais do que um diletantismo, é uma necessidade de construirmos juntos a resistência contra as austeridades já vem ocorrendo há anos. Honestidade intelectual é uma característica levantada por Marx há muito tempo e reivindico-a como parte de uma tradição que ajudo a construir. Não é a única, mas é aquela que acredito e estou convencida de ser imperiosa.

Marx em A Ideologia Alemã apresenta vários resultados sobre sua exposição sobre a concepção de história e nenhuma delas faz coro ou serve de saída para a classe trabalhadora:

[...] “que tanto para a criação em massa dessa consciência comunista quanto para o êxito da própria causa faz-se necessária uma transformação massiva dos homens, o que só se pode realizar por um movimento prático,por uma revolução; que a revolução, portanto, é necessária não apenas porque a classe dominante não pode ser derrubada de nenhuma outra forma, mas também porque somente com uma revolução a classe que derruba detém o poder de desembaraçar-se de toda a antiga imundície e de se tornar capazde uma nova fundação da sociedade” (Marx, 2007, p. 42).

Trata-se de uma ação transformadora no tempo presente e o que interessa aqui são o que as pessoas fazem no tempo, não apenas o tempo histórico como uma abstração. Revolução é uma necessidade histórica e não se deve temer este conceito, pois se trata de construir a superação de toda uma imundice levantada pelo reformismo e das classes dominantes. Trata-se de combater todas as formas de violência, de exploração e opressão. Trata-se de reafirmar a perspectiva revolucionária diante do pensamento binário predominante.

Isso não dá exclusividade para minha tese. Apenas se coloca uma outra forma de ler a realidade. Novamente, não é a única, mas é uma existente: que não defende o golpe que a classe trabalhadora vem recebendo há séculos, menos ainda, pretende fazer coro com a casa grande. Trata-se de explodir a senzala, de não se conformar com esse ou aquele apenas... Mas de construção de um terceiro campo: o revolucionário, não o reformista!

Pelos Conselhos de Trabalhadores!

Que a burguesia pague pela crise!

Todos à Greve Geral dia 28 de Abril!

Referência:

Marx, Karl & Engels, Friedrich. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauere Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). Supervisão editorial, Leandro Konder; tradução, Rubens Enderle, Nélio Schneider, Luciano Cavini - São Paulo: Boitempo, 2006.


 Jean Paulo Pereira de Menezes é docente no curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – Campus de Paranaíba

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