Seriam os soviets uma forma obsoleta de organização?

Jean de Menezes
Typography

 

Seriam os soviets uma forma obsoleta de organização?

Por Jean Paulo Pereira de Menezes

Nesta semana apresento aos caros leitores um tema bastante interessante e também instigante. Como o título sugere, falaremos da Rússia. León Trotsky nos chamava atenção para a necessidade de entender profundamente o tempo presente e é nesta perspectiva que trabalharemos aqui:

“Embora, como é evidente, saibamos que cada povo, cada classe e até cada partido se educam sobretudo a partir de sua própria experiência, de modo algum isso significa que a experiência dos outros países, classes e partidos seja de pouca importância. Sem o estudo da grande Revolução francesa, da Revolução de 1848 e da Comuna de Paris, nunca teríamos realizado a Revolução de Outubro, mesmoo com a experiência de 1905” (TROTSKY, 2007, p. 25).

Vamos inicialmente ao significado da palavra. Soviet, pode ser traduzido para o Português como Conselho. Mas que tipo de Conselho? Vamos situar estes conselhos históricamente. Antes de mais nada é preciso deixar claro e cristalino que Soviet/Conselho são formas de organização política da classe trabalhadora russa diante do governo czarista e todas as leis repressivas que garantia a mordomia imperial as custas da classe trabalhadora russa.
Em 1905 uma etapa do processo revolucionário havia se realizado. Trotsky se refere no texto acima ao Domingo Sangrento de 1905, deflagrado em São Petersburgo. Um verdadeiro massacre da classe trabalhadora que ainda buscava o diálogo com o Imperador Nicolau. Outro protagonista desta história também chamava atenção para a necessidade do entendimento da história, neste caso, Lenin. Vejamos, suas palavras publicadas no jornal Pravda em 1925 quando de uma conferência sobre o tema em Zurique na Casa do Povo aos jovens operários suiços em janeiro de 1917:

Jovens amigos e camaradas,

Comemoramos hoje o décimo segundo aniversário do ‘Domingo Sangrento’, considerado com toda justeza como o início da revolução russa.
Milhares de operários, não social-democratas, mas crentes, súditos fiéis do czar, conduzidos pelo padre Gapone, encaminharam-se de todos os pontos da cidade para o centro da capital, em direção a praça do Palácio de Inverno, para entregar uma petição ao czar. Os operários caminham com ícones, e Gapone, o seu chefe na ocasião, tinha escrito ao czar dando-se como garante da sua seguranção pessoal e pedindo-lhe que se apresentasse perante o povo.

A tropa foi alertada. Ulanos e cossacos carregam sobre a multidão com armas brancas; disparam contra os operários desarmados que ajoelhados suplicam aos cossacos que lhes permitam aproximar-se do czar. Segundo os relatórios da polícia, houve neste dia mais d eum milhar de mortos e mais de dois mil feridos. A indignação dos operários doi indescritível.

É este, em grandes linhas, o quadro do dia 22 de janeiro de 1905, o ‘Domingo sangrento’.
A fim de melhor realçar o alcance histórico deste acontecimento, citarei algumas passagens da petição dos operários. Começa com estas palavras:
‘Nós, operários, habitantes de Petersburgo, dirigimos a Ti. Somos escravos miseráveis, humilhados; somo subjulgados pelo despotimo e o arbítrio. Com a paciência esgotada, cessámos o trabalho e pedimos aos nossos patrões que nos dessem pelo menos aquilo sem o qual a vida não passa de uma tortura. Mas isso foi-nos recusado; dizem os industriais que não está conforme a lei. Somos milhares e, tal como todo o povo russo, estamos privados de todos os direitos humanos. Os teus funcionários reduziram-nos à escravatura’.
[…] e termina com estas palavras:

‘Senhor, não recuses ajudar o Teu povo! Derruba a muralha que Te separa do Teu povo! Ordena que seja dada satisfação aos nossos pedidos, ordena-o publicamente e tornarás a Rússia feliz; se não, estamos prontos a morrer aqui mesmo. Só temos dois caminhos: a liberdade e a felicidade ou o túmulo’” (LENIN, 2017).

Milhares foram mortos, por tentarem encaminhar pessoalmente uma petição de direitos ao governo czarista (muitos ainda acreditavam que o Czar – como também era conhecido o imperador- era bem intencionado e que era preciso garantir que o “paizinho”, como era também chamado, soubesse o que os patrões estavam fazendo com o povo da Rússia), ledo engano, pois foram tratados a tiros e baionetas, impiedosamente, ao mando do governo.
Acredito ser razoavél afirmar que encontramos uma permanencia aqui com nosso tempo presente, pois ainda é típico dos governos atacarem a classe trabalhadora quando estas se manifestam em defesa de direitos e melhores condições de vida, bas observamos as manifestações nos últimos anos no Brasil, atacadas com total repressão, amparadas por uma lei antiterror, trantando assim os trabalhadores como terrorista por se manifestarem em defesa dos seus direitos! Estamos até agora esperando os Amarildos, os Chicos, as Doroths, as Sandras e todos os assassinados e desaparecidos no Brasil e Latino América!

No caso da Russia, o massacre de 1905 não fora de todo uma derrota. Desta luta nasceram formas de organização legítimas da classe trabalhadora, no caso, os conselhos (Soviets) de trabalhadores. A classe trabalhadora passou a se organizar a partir de conselhos representarivos de diversos setores, como trabalhadores, soldados, etc. O Primeiro conselho surgiu em outubro de 1905 na própria cidade de São Petersburgo e Trotsky era um dos seus participantes mais ativos. Vejamos nas palavras do próprio protagonista: “ […] “o soviet organizou as massas trabalhadoras, norteou as greves e manifestações políticas, armou os trabalhadores, e protegeu a população” […]. Embora este Soviet tenha durado um curto período, acabou por colocar na Rússia uma forma de organização que não fora abandonada até 1917. A forma de organização dos soviets como uma “autêntica democracia” dos trabalhadores forneceu o elemento central para a constituição do Partido Bolchevique entre os anos de 1905 e 1917, sendo abandonada com o desenvolvimento da burocratização da União Soviética, capitaneado por Josef Stálin.

A representação política era feita por escolha direta dos trabalhadores e os representantes deveriam ser os porta vozes do seu conselho de trabalhadores, não apenas da sua vontade. Os delegados (representantes escolhidos) deveriam levar até o fim o que a sua base havia deliberado, sem invendar nenhum tipo de moda, sob pena de ser destituído imediatamente da posição de tribuno do seu Conselho.

Eram os trabalhadores tomando as rédeas da política na Rússia, sem receitas, mas se amparando em esperiencias históricas como as Revoluções de 1848 e a Comuna de Paris de 1871, mas impreterivelmente, de acordo com a realidade da classe trabalhadora russa. Com o amadurecimento desta forma de resistencia e organização, o poder político que expressava os Conselhos era tão significativo que nem mesmo a Duma (assembléia) era mais respeitada como fonte de representação do governo. Os tabalhadores, organizados, estavam construindo o poder político que era radicalmente centralizado e democrático ao mesmo tempo. Centralizado porque o delegado de determinado soviet não tinha nenhuma liberdade de enventar moda alguma… sem chance para uma fala do tipo que vemos hoje “eu entendo que assim é o melhor encaminhamento” ou “em nome da família, da minha esposa, dos meus filhos… dos meus pais, eu voto…”. Sem chance, o seu papel era centralizado e fiscalizado pelos próprios membros dos Soviets… o que um delegado deveria fazer é ser a representação direta do que os trabalhadores deliberassem nos Conselhos… ser delegado de um Soviet não era sinônimo de mordomia, nem de superioridade, mas de responsabilidade para com a base e suas deliberações. Centralizado.

 

Leia mais:

É necessário romper com o binarismo para a classe avançar

A crítica que desagrada

A pseudocategoria "esquerdista" no subjetivo ignorante

PUBLICIDADE
,
PUBLICIDADE

Era democrático, porque as deliberações era o resultado dos debates em assembléias dos próprios trabalhadores, diretamente, cientes de que o representante do Soviets representaria a vontade deliberada pela maioria, garantindo que a minoria continuasse a defender suas posições e novamente submetesse suas proposta nas instâncias deliberativas. 

Observe que tudo isso passa por fora do poder imperial do governo dos Romanov (nome da dinastida do imperador naquele momento) eram os trabalhadores assumindo os rumos da sua história em uma Rússia desigual, cheia de contrastes e de violações dos trabalhadores do campo e da cidade.
Ao lado desta forma de organização, partidos políticos (como já foi citado aqui), foram se organizando ao mesmo passo que os Soviets, mas este poderá ser o tema de um outro artigo, meus caros leitores. Fiquemos com os Conselhos (…).

Na Rússia, a organização dos Soviets demonstrou que a classe trabalhadora é plenamente suficiente no que tange a se organizar para além da classe que a explora e oprime. E aqui insisto em mais uma comparação com a história do Brasil (…)
Na maior parte da história do Brasil os trabalhadores foram escravizados, sejam indígenas, afircanos e “brancos” também. O fato é que os africanos foram os mais utilizados como mão de obra escrava, ninguém pode ignorar isso!

Os povos (vários) africanos que foram escravizados no Brasil tiveram seus filhos aqui neste lugar, diante de todas as atrocidades da sociedade escravista colonial e imperial, seja sob o poder dos portugueses ou depois com os governo imperial brasileiro!
E aqui também resistiram e desenvolveram táticas de resistência ao escravismo. Estou me referindo aos acampamentos, aos Quilombos, como formas de organização dos trabalhadores escrvizados. Vejam, caros leitores, estamos falando de formas de resistência, formas de organização ao poder explorador e opressor. A reação do império na América “brasileira” também foi de violência constante aos trabalhadores que buscavam constituir formas de organização para além da escravidão. Embora ainda hoje se dê grande ênfase ao movimento abolicionista composto por intelectuais (e é claro que foram importantes), o principal movimento pelo fim da escravidão no Brasil não veio da inglaterra, menos ainda de uma canetada de uma princesa bibelô, mas da luta secular dos trabalhadores escravizados aqui neste território: dos pŕoprios trabalhadores. Assim como em outras partes do mundo, os trabalhadores, historicamente, nos apresentam formas de organização política, formas de resistência. Não se trata de receitas (como o próprio Trotsky alerta na citação inicial do nosso artigo), prontas e infalíveis, mas de lições a serem estudas, consideradas para que continuemos a desenvolver formas de organização política de resistência que não são feitas por aqueles que se encontram no poder, explorando e oprimindo. A saída sempre foi pela classe explorada e oprimida, jamais nenhuma forma de organização advinda da classe dominante visou a libertação, a emancipação da classe dominada!

A partir da experiência da classe trabalhadora na Rússia, pudemos observar a constituição de uma das maiores experiências revolucionárias da história que conhecemos. Para os simpatizantes e mesmo para os antagonistas da Revolução Russa, o que a classe trabalhadora foi capaz de demonstrar a partir dos conselhos de trabalhores é inquestionável: mudaram a forma de vida e de pensar a vida. Gostemos ou não disso! Em todos os cantos do mundo, de intelectuais, proprietaŕios e trabalhadores… todos de algum modo, não ousam ignorar a experiência Russa dos trabalhadores no poder.
Hoje, estes conselhos poderiam ser identificados nos comitês de luta dos trabalhadores. No caso brasileiro, espalhados por todo o País, seja com trabalhadores de fábricas, rurais, nos bairros, nos locais de estudo e de trabalho em geral. Penso que um elemento aglutinado destes comites de lutas (que já existem hoje e tendem a crescer) é a greve geral dos próprios trabalhadores.

Neste dia 28 de abril, as centrais sindicais estarão realizando um dia de greve geral no País… e isso aterroriza qualquer patrão, pois trabalhador em greve significa queda da taxa de lucro e é isso mesmo que desejamos!

"O sucesso do dia 28 não se encerra neste dia propriamente. A greve geral deve ser construida permanentemente e para isso é necessário a organização da classe trabalhadora brasileira em Conselhos/Comitês de luta de trabalhadores, insisto, permamentemente, pois assim poderemos construir uma saída que não seja refrém das eleições dos ricos, nem de promessas de uma elite burocrática que até hoje só mostrou fazer imundices!"

Mas para isso é necessário fortalecer os comites de luta, ainda mais, por todo País. O sucesso do dia 28 não se encerra neste dia propriamente. A greve geral deve ser construida permanentemente e para isso é necessário a organização da classe trabalhadora brasileira em Conselhos/Comitês de luta de trabalhadores, insisto, permamentemente, pois assim poderemos construir uma saída que não seja refrém das eleições dos ricos, nem de promessas de uma elite burocrática que até hoje só mostrou fazer imundices!

É preciso se unir aos comitês já existentes e criá-los onde ainda não existem!

A Greve Geral é da maior importância para construirmos a saída da crise pelas mãos e os pés da classe que trabalha, não à soleira, o capacho e os agrados da casa grande!
A “senzala” deve ser implodida e junto dela a casa grande!

Ela deve dar vida aos Comitês de luta, de resistência… de várias greves gerais, até que não exista um só patrão tramendo, assim como tremeram os Imperios na Rússia e no Brasil.

Assim construiremos um partido centralizado democraticamente, que verdadeiramente será a representação da classe dos trabalhadores. Para isso Seriam os Soviets uma forma obsoleta de organização?
A obsolecência dos conselhos de trabalhadores interessa apenas aos que detêm o capital, ao reformista acomodado em uma classe média intelectualizada, ao burocrata pelego e ao capacho do patrão.
Não há um só exemplo histórico que demonstre que a conciliação de classes fosse capaz de quebrar grilhões! Não nos enganemos, apenas os trabalhadores são capazes de se libertarem. Qualquer receita mirabolante não passa de um exilir, de engodo. O que apresentei aqui foram alguns apontamentos, a título de lições (que não são leis eternas), que não podemos ignorar.
Continuemos a construção!

Todos à greve geral neste 28 de abril!

Referências

TROTSKY, León. Lições de Outubro. Editora Sundermann, São Paulo, 2007.

LENIN, Vladimir. Relatório Sobre a Revolução de 1905. Primeira edição do Pravda em 22 de janeiro de 1925. Disponível em: www.marxist.org/portugues/lenin/1917/01/22.htm. Acesso em 20/04/2017.


 

 Jean Paulo Pereira de Menezes é docente no curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – Campus de Paranaíba

 

 

Artigos Relacionados

"E se nada der certo?"
OPINIÃO "Não se trata de uma brincadeira, mas de um posicionamento da classe dominante, ou ainda,...
Qual o problema chamar de Qual o problema chamar de "Diretas já" e não mais "greve geral"?
OPINIÃO "Chamar 'Diretas já' com as mesmas regras é o mesmo que caminhar pelo matadouro rumo ao a...
É preciso reafirmar a esquerda revolucionária É preciso reafirmar a esquerda revolucionária
ANÁLISE Em artigo, Jean do Menezes critica o academicismo de esquerda e versa sobre a necessidade...

Leia mais
×