“Não tenho lado”: a conveniência é o pior de todos os posicionamentos

Jean de Menezes
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“Não tenho lado”: a conveniência é o pior de todos os posicionamentos

 Por Jean Paulo Pereira de Menezes

Tomar posicionamento… Todos os dias tomamos vários posicionamentos, seja para atravessar a rua, para escolher o que comer, para escolher o canal de TV, para se vestir, para estudar... E assim vai (...).

Tomar posicionamento tem relação direta com o ato de fazer escolhas. Tomar posicionamento e escolher caminham lado a lado por toda história humana. Na Pré-história, um homo ergaster (± 1,8 – 1,2 milhões de anos) ao se posicionar diante da fome, poderia fazer a escolha de caminhar pela savana em busca de comida, ou ficar abrigado em árvores para evitar ser predado. Observe caro leitor, posicionamento e escolhas, dependendo do posicionamento tomado as consequências poderiam ser as mais variáveis possíveis, desde conseguir se alimentar ou até morrer de fome, pendurado em uma copa de árvore.

Em procura constante por alimentos, o homem (nossos ancestrais) se posicionava diante da natureza fazendo determinadas escolhas, as quais compreendessem serem as melhores diante de suas necessidades. Trata-se de uma relação vital entre homem e natureza da qual a sustentação da vida depende diretamente dos posicionamentos e escolhas que faziam em tempos remotos, onde se transformava a natureza e a si também, como indivíduo e ser social, principalmente quando localizamos este nosso ancestral no neolítico (neste caso, muito depois do ergaster, ± 10 mil anos antes do presente).

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Do paleolítico (± 2,5 milhões de anos antes do presente) ao neolítico o homo toma posicionamentos e faz escolhas. Para isso era necessário estar vivo, e, para viver, os posicionamentos e escolhas eram (e ainda o são em 2017, convencionado pela mitologia cristã no ocidente) da maior importância.

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Todavia, hoje, em nosso tempo presente (insisto, 2017), milhares de homens e mulheres, fenomenicamente, buscam contrariar esta lógica (dialética) na história. Diferente dos nossos ancestrais hominídeos, e, mesmo do homo sapiens sapiens, agora em 2017, muitos garantem não terem lado algum! Afirmam não terem posicionamento diante da política, diante das relações sociais. É possível escutarmos: “não tenho lado algum” ou “ não sou nem desse lado ou daquele outro lado, sou neutro”.

Considerando que vivemos em uma sociedade de classes antagônicas (…), não apenas no sentido moral, mas antagônicas na própria forma de produção e reprodução da vida (material e espiritual); que a relação entre capital e trabalho é desigual e combinada; que a regência da vida é realizada pelo capital em detrimento do trabalho; afirmar não ter “lado algum” é afirmar estar ao lado do mais forte! Neste caso, ao lado do opressor e do explorador. Mesmo que não se tenha consciência direta sobre isso.

“Não tomar lado algum” é um posicionamento, uma escolha que coloca o ser em situação de conivência com o mais forte, com o explorador e opressor. É o posicionamento político mais reacionário diante da luta de classes. Não ter lado, afirmar não estar ao lado de ninguém é tomar um lado, é tomar partido diretamente: é o lado do conivente, o lado mais covarde e ativo daqueles que se posicionam “neutros” (nem sabão neutro é realmente neutro!), é abraçar o partido do mais forte.

"Neste dia 28 de abril, tivemos uma enorme greve geral no Brasil. Muitos se colocaram como 'sem lado algum', afirmaram não terem interesse em participar de greve nenhuma. Pois bem, este tipo de escolha é típico do posicionamento conivente, o exato lado daqueles que participam ativamente da política do dominador"  
   

Neste dia 28 de abril, tivemos uma enorme greve geral no Brasil. Muitos se colocaram como “sem lado algum”, afirmaram não terem interesse em participar de greve nenhuma. Pois bem, este tipo de escolha é típico do posicionamento conivente, o exato lado daqueles que participam ativamente da política do dominador. Esse posicionamento é nitidamente uma escolha, um lado bem claro da história do tempo presente: o lado da burguesia, do capital.

Diante do nosso tempo, de tentativa de implementação de acelerar a reestruturação produtiva do capital, do desmonte das leis trabalhistas (conquista de lutas, mesmo que nos marcos do regime), da previdência… Afirmar que não toma lado algum é o mesmo que imediatamente afirmar: estou do lado do mais forte!

Hoje, o irracionalismo provoca comportamentos que nem mesmo um homo ergaster concordaria. Ser conivente, tomando o posicionamento de, idiotamente, afirmar “não tenho lado algum”, considerando que o capital busca nos reconduzir ao século 18 é no mínimo idiota (no sentido grego de idiotes). É como se um de nossos ancestrais pré-históricos (no caso da “América”) dissesse diante de um tigre-dente-de-sabre que caminha rumo a estes primeiros homens: “eu não tenho lado algum… vou ficar aqui parado, não vou atacar ele e nem vou ajudar ele atacar vocês, sou neutro, não tenho lado”.

Nem é preciso continuar a explicação, não é mesmo?

A história tem um lugar, mais ou menos, reservado àqueles que se posicionam dizendo não se posicionarem. O pior lado é aquele que diz “não tenho lado algum”.


Jean Paulo Pereira de Menezes é docente no curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – Campus de Paranaíba

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