Efeito Lampions League

Irlan Simões
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Efeito Lampions League

Por Irlan Simões

Em sua quinta edição, o balanço da nova Copa do Nordeste tem sido positivo pelo impacto nos clubes que disputam as divisões inferiores.

Em 2017 estamos assistindo à quinta edição daquela que pode ser chamada de “nova Copa do Nordeste”. O torneio, que foi disputado ininterruptamente entre 1997 e 2003, foi suspenso pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e só conseguiu se reestabelecer – por conta de obrigações judiciais – em 2013 (em outra ocasião detalharei melhor essa questão).

De lá para cá foram quatro diferentes campeões, e uma quinta edição com muitas surpresas e discussões para seu aprimoramento. Uma coisa é possível dizer: a Copa do Nordeste altera muita coisa no curso habitual do futebol brasileiro em sua desigual estrutura.

Tanto na sua primeira fase histórica, quanto nessa atual, os efeitos precisam ser mensurados a partir da capacidade da competição em resgatar a força de clubes de grande torcida. Em 2002 tivemos quatro clubes da região na Série A, que contavam com uma cota televisiva inicial que chegaria perto dos R$ 2 milhões em valores atualizados.

Mas nessa nova fase me refiro às agremiações sem a menor capacidade de montar bons times para sair das camadas mais baixas do futebol nacional.

Peso financeiro

Em termos financeiros, a nova Lampions só tem dado grandes resultados para aqueles clubes nordestinos que disputam as Séries D e C, contribuindo pouco ou não satisfatoriamente aos clubes das Séries A e B.

Para clubes como Vitória, Bahia e Sport (Série A), mesmo o prêmio absoluto do campeão - hoje em torno de R$ 2,850 milhões - representa menos de 5% do orçamento anual. Afinal, são clubes que recebem R$ 35 milhões apenas de cotas televisivas para a disputa da Série A.

Mas para clubes que vão disputar as Séries C e D o peso é totalmente diferente. Esses torneios são carentes de bons contratos televisivos e não representam grandes receitas para esses clubes. Em que pese a ótima audiência de suas fases finais nos últimos anos, em especial na TV Brasil e nos canais Esporte Interativo, e a existência de clubes de grande torcida que proporcionam ótimos públicos.

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Com a Copa do Nordeste, os clubes acabam arrecadando valores muito superiores do que os seus adversários do Sul e do Sudeste. Ou, ao menos, reequilibram as disparidades do que a Rede Globo/Premiere paga aos campeonatos estaduais de lá e de cá.

Peguemos o exemplo do centenário e tradicionalíssimo Sergipe. O clube colorado é postulante à classificação para as quartas de final da Lampions League. Caso isso aconteça, receberá R$ 450 mil de prêmio, que somados ao valor recebido na primeira fase (R$ 600 mil) já superaria a marca de R$ 1 milhão.

Caso somemos os patrocínios e as bilheterias que não existiriam se o clube disputasse apenas o estadual (que quase não dá dinheiro), o Sergipe já arrecadaria um valor aproximado de seis meses de sua atual folha salarial. Isso com apenas 8 partidas disputadas.

Isso significa iniciar a Série D com um elenco montado e com capacidade de reforço ao longo da competição. Significa poder investir em atletas que podem render receitas futuras em negociações. Significa não fechar mais um ano no vermelho e iniciar uma temporada passando o chapéu entre seus conselheiros mais ricos.

A Liga do Nordeste

Dentro do escalão quarto e quinto escalão dos clubes da região, isto é, daqueles que estão flutuando entre as Séries D e C e eventualmente disputando uma vaga na Série B; a Copa do Nordeste é um fato de peso considerável. É possível dizer que auxiliou o acesso para a Série C do Belo em 2013; do Confiança em 2014; do River em 2015 e do CSA e do Moto Club em 2016.

O problema maior está no fato de a Série C possuir um formato que tem servido de gargalo. Composta de dois grupos com 10 clubes, divide seus participantes por proximidade geográfica. Com isso, o Grupo A tende a ser formado por “nordestinos e mais alguns” e o Grupo B formado por “sul e sudeste”.  Nas últimas quatro edições o Grupo A contou com nada menos que 8 clubes nordestinos.

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Uma vez que nesse grupo de dez, dois clubes são rebaixados e quatro se classificam para as quartas-de-final, esse modelo tem proporcionado uma espécie de entrave ao crescimento do número de nordestinos nas divisões superiores (atualmente 16 na A, B e C). Isso porque “obriga” o rebaixamento de ao menos um dos 8 participantes.

No caso do acesso à Série B, o que tem acontecido é muito mais fruto de incompetência e falta de sorte, não necessariamente de desequilíbrio competitivo. Em 2016, por exemplo, os resultados das quartas-de-final (cruzamento entre os melhores do Grupo A com os melhores do Grupo B) foram quase catastróficos.

O sempre favorito Fortaleza foi eliminado dentro de casa pelo Juventude e vai jogar sua oitava Série C seguida. O Belo se classificava até sofrer um gol nos últimos minutos para o famigerado clube-empresa do Boa Esporte. O ASA tinha a vantagem de 4 gols contra o Guarani e conseguiu ser goleado por 6 a 0 no jogo de volta. Dos quatro classificados o único bem sucedido foi o ABC, que passou pelo Botafogo-SP e reforçou a Liga do Nordeste na Série B.

Com isso, em 2017 teremos novamente 8 clubes nordestinos no gargalo da Série C. Isso se dará porque os rebaixados River e América-RN foram cobertos pelo acesso de CSA e Moto Club, que se somarão a Sampaio Correa (rebaixado da Série B), Fortaleza, Belo, ASA, Confiança e Salgueiro (mais Remo e Cuiabá).

Na Série B o número flutua bastante por conta da subida e descida dos participantes da Série A. Nas últimas 10 ocasiões os nordestinos no topo do futebol nacional se resumiram a participações mais frequentes de Vitória (7), Sport (7) e Bahia (5), considerando os de participação mais recente. Os outros clubes que bateram na elite foram Náutico (4), Ceará (2) e Santa Cruz com sua participação em 2016.

Nesse quesito, exatamente por causa desse sobe e desce, vale mais sublinhar que nas séries A e B os nordestinos vão para a terceira temporada em um número de oito participantes. Menor do que os dez de 2014 e os nove de 2011/12/13. Isso se dá, como expliquei antes, por conta do gargalo do acesso na Série C, e principalmente pelos fracassos do Fortaleza, afinal é um clube que no mínimo deveria disputar a B pelo tamanho da torcida.

O valor para os maiores

É possível dizer que no Nordeste o trio Bahia, Vitória e Sport se destaca como uma elite, até por conta das questões políticas históricas que inseriram esses três numa faixa mediana das divisões das cotas televisivas a nível nacional (durante e depois da existência do Clube dos 13).

Atrás deles poderíamos listar Náutico e Ceará como clubes que sempre disputam o acesso à Série A; que se somam a outros dois e por conta da grandeza: Santa Cruz, que parece ter se reerguido depois de parar na Série D e o Fortaleza, clube que coleciona fracassos na tentativa de voltar à Série B, mas não perdeu sua torcida.

Como é evidente, são os clubes de Salvador, Recife e Fortaleza, maiores e mais populosas cidades do Nordeste, que acabam concentrando maior força. Metropolização, população e força econômica são ingredientes básicos para clubes fortes.

Na confusa conjuntura política e econômica local também podemos inserir o alagoano CRB e os potiguares ABC e América (apesar da queda à Série D). São clubes que costumam disputar a Série B, ainda que com poucas disputas pelas primeiras colocações. Nos anos recentes o alagoano CSA resgatou a sua força e o Confiança tem se mantido na Série C. Clubes menores que frequentaram a Série B, como ASA, Salgueiro e Icasa, parecem ter perdido força de vez.

Em suma, voltando a tratar dos clubes mais fortes da atualidade, que podemos resumir a seis – Bahia, Vitória, Sport, Santa, Náutico e Ceará – os valores da Copa do Nordeste acabam tendo impacto pequeno nos seus orçamentos anuais. Ao menos ao que o atual formato implica.

Na fase de 1997-2003, a cota televisiva inicial Copa do Nordeste (ou seja, a mera disputa da primeira fase) representava um peso de quase 20% do orçamento anual das equipes. Hoje esse valor tem peso muito inferior e não acompanhou a valorização das competições com o aumento do acesso ao futebol televisionado. Guardarei maiores detalhes sobre esse tema para outra publicação.

Para os seis mais fortes, desse modo, a Copa do Nordeste acaba tendo um efeito secundário: a possibilidade de reverter os déficits “obrigatórios” dos estaduais, em um torneio que proporciona saúde financeira ao mesmo tempo em que oferece jogos mais competitivos para o teste do elenco.

"Houve um tempo em que os clubes do Nordeste eram obrigados a esperar o campeonato paulista terminar para poder começar a montar os seus elencos, com os refugos dos times de lá, para os torneios nacionais. A Lampions reverteu essa tendência, e os clubes claramente já passam a montar os seus elencos desde cedo"

 

Houve um tempo em que os clubes do Nordeste eram obrigados a esperar o campeonato paulista terminar para poder começar a montar os seus elencos, com os refugos dos times de lá, para os torneios nacionais. A Lampions reverteu essa tendência, e os clubes claramente já passam a montar os seus elencos desde cedo.

Há muito a ser feito para melhorar o torneio e torná-lo ainda mais efetivo nesse objetivo de fortalecer os clubes nordestinos na seara nacional. Até aqui, o que ficou claro, é que os clubes grandes da região podem proporcionar para o fortalecimento dos clubes menores na medida em que viabilizam um torneio mais valioso, aceitando a divisão justa das cotas televisivas entre todos.

Também se aproveitam da competitividade da Lampions para reforçar e testar seus elencos, enquanto permitem maior arrecadação para os times que disputarão Séries C e D, que entram nessas competições com maiores condições de sucesso, fazendo girar toda uma cadeia de ganhos positivos para a Liga do Nordeste.

Na próxima ocasião prometo discutir todas as questões que envolvem a Copa do Nordeste: o golpe da CBF em 2003; o resgate num acordo com os sanguessugas das federações estaduais; a necessidade de uma segunda divisão; o desmembramento da escolha dos participantes do estaduais, tornando-os uma divisão inferior do Nordestão; a questão das cotas televisivas e os prognósticos para o futuro do campeonato regional mais importante do Brasil.


 

♦ Irlan Simões é jornalista e pesquisador do futebol

Houve um tempo em que os clubes do Nordeste eram obrigados a esperar o campeonato paulista terminar para poder começar a montar os seus elencos, com os refugos dos times de lá, para os torneios nacionais. A Lampions reverteu essa tendência, e os clubes claramente já passam a montar os seus elencos desde cedo.

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