A pixação é o que mesmo?!

Max Maciel
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A pixação é o que mesmo?!

Por Max Maciel

Nos últimos meses alguns debates sobre o tema pixação voltaram à cena devido à sandice do prefeito de São Paulo em apagar os graffitis da cidade numa não compreensão de como isso poderia deixar a cidade mais bonita. Quem gosta do cinza? Sim, tem gente que gosta do monocromático e o básico concreto. Sou do Distrito Federal, sei bem como o que impera é o branco ou cinza do concreto pelo centro da capital. Mas, é a cor? O que acontece com os que se debruçam em mandar mensagens críticas e interagir com a cidade por meio das cores e traços?  Ainda mais quando se reúnem vários artistas e formam um painel de cartela de cores com mensagens.

Aqui, o graffiti é feio, porém, basta sair do Brasil e se deparar com os famosos painéis onde muitos tiram selfies. Por que valorizamos tanto essa arte lá fora e negamos aqui?! Estou cheio de perguntas e nem sempre sei responder todas. O que sei e sinto é o que vivo. Na periferia, os graffitis sempre estão na paisagem do ambiente. Eles se misturam em letras, personagens e estéticas que cada artista traduz ao seu modo. O graffiti, assim como a pixação, não pede licença, ou autorização. Elas são uma expressão, um grito que poucos compreendem.

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De 2007 a 2010 realizamos uma pesquisa, coordenada por Miriam Abramovay com colaboração de Mary Castro, intitulada: Gangues, gênero e juventude: donas de rocha e sujeitos cabulosos. A premissa era estudar a participação feminina nas gangues no DF. Como elas se articulavam, suas posições na hierarquia e suas dinâmicas. Foram três anos de estudos e vivência com mais de 10 gangues no DF. Algumas com mais de 450 membros e cada uma com suas características. A primeira coisa que nos chama a atenção é como a gangue se organizava. Tinha seu líder geral e a líder da ala “F”, de feminina.

Essas gangues nada têm a ver com tráfico ou roubos. Estas não são as atividades principais das gangues no DF. O foco é pixar. E esta aí um detalhe: eles não pixam pra você, pra mim, eles picham entre eles, entre as gangues. Tem mais conceitos e espaço quem mais “bombardeia a cidade”, quem mais coloca seu nome em evidência. A fama é que chama a atenção de outros a ingressarem nas gangues. É engraçado, mas, depois chega a ser tenso quando você, ao estudar essas organizações, compreender que elas são um espaço de voz para muitos deles. Espaços que outras linhas institucionais negam. São nas gangues, como costumavam dizer, que se encontravam, se sentiam pertencentes à algo, tinham prestígio e reconhecimento social. Quais espaços dão a eles isso hoje?

"A pixação vira válvula de escape. Das reclamações, das críticas e do poder. Um membro de gangue 'famoso' tem status considerado, que você jamais saberá, a não ser se foi de uma"

A pixação vira válvula de escape. Das reclamações, das críticas e do poder. Um membro de gangue “famoso” tem status considerado, que você jamais saberá, a não ser se for de uma. Considerando o DF, eu arrisco dizer que, quem nasceu nos anos 1970, 1980 e 1990, ou fez parte ou foi considerado por uma gangue no DF. Essa vivência é muito intrínseca à juventude, sobretudo porque grande parte das gangues surge e cresce dentro das escolas. De um espaço institucional, onde nem sempre eles se sentem reconhecidos.

E esse lance: pixação não é graffiti e vice e versa. Isso é detalhe dentro desta construção urbana, pois, ambas fazem parte do diálogo sobre a cidade. A pixação não morrerá, muito menos o graffiti, pela simples taxação das latas ou a criação de empecilhos. O que precisamos é saber traduzi-las, valorizar a arte e, sobretudo, criar espaços que dêem a estes, VOZ, poder, prestígio e reconhecimento social.

Este é o desafio.


 

♦ Max Maciel, jovem periférico nascido e criado em Ceilândia, maior periferia do Distrito Federal, é ativista social, pedagogo de formação e especialista em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça pela Universidade de Brasília (UnB).

 

 

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