O neogolpismo na América do novo século

Yuri Martins Fontes
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O neogolpismo na América do novo século

Por Yuri Martins Fontes

Para melhor compreensão do que levou países como Brasil, Argentina e Venezuela às situações lamentáveis em que se encontram, rememoremos aqui alguns dos principais acontecimentos da história recente latino-americana.

Esse sobrevoo – breve visão de conjunto de nossa situação geopolítica no novo século – passa pela questão da “ingenuidade” com que governos social-reformistas estabeleceram alianças subalternas com o inimigo (caso das duas maiores nações da América do Sul), bem como pela tática de “guerra branda” que vem sendo utilizada pelo imperialismo para desestabilizar social e economicamente aquelas nações que se recusaram a concretizar tais alianças, especialmente a firme resistência do chavismo venezuelano.

Guerras brandas: da construção dos discursos aos golpes

Em 1983, cerca de duas décadas após o início do que se consolidaria como a atual crise estrutural do sistema, as potências capitalistas começam a ter sucesso em sua imposição mundial do neoliberalismo.

Com este propósito, é criada no governo de Ronald Reagan a “Fundação Nacional para a Democracia” (“National Endowment for Democracy”), destinada a promover o que os EUA vendem como “democracia”. O NED chega assim para se somar ao corpo de instituições conservadoras ligadas aos partidos Democrata e Republicano, além de fundações e “think tanks” (“indústrias ideológicas”), como a “Freedom House” e a “Open Society Institute” – organizações destinadas a financiar a formação ideológica e técnica de ações golpistas da direita.

Segundo a reportagem investigativa “Esfera de influência”, de Lee Fang (Intercept Brasil), sobre a reunião deste ano de 2017 do Latin America Liberty Forum – encontro internacional de ativistas reacionários, patrocinado pela ONG Atlas Network –, o evento se desenvolveu em um clima de bastante otimismo. Para o líder argentino-estadunidense Alejandro Chafuen, o investimento em formação de grupos conservadores está começando a “render frutos” – o que foi facilitado pela “crise (econômica)”. Com a instabilidade econômica mundial, surgiu uma “demanda por mudanças” – diz o capo que desde 1991 dirige a organização patrocinada pelo NED e pelo próprio Departamento de Estado dos EUA. Diante deste cenário, Chafuen afirma que aproveitou a oportunidade para atacar governos reformistas da região, pois seu grupo já dispunha de “pessoas treinadas para pressionar por certas políticas”, o que ele resume como sendo: “soluções privadas” para “problemas públicos. Dentre os líderes ligados à Atlas que ganharam poder e visibilidade nos últimos tempos, estão ministros do novo governo neoliberal argentino e líderes do Movimento Brasil Livre (MBL), que ajudaram a promover o golpe de estado brasileiro de 2016.

De acordo com a declaração também entusiasmada de Hélio Beltrão, ex-especulador financeiro que hoje dirige o ultraliberal “Instituto Von Mises”, se há 10 anos havia no Brasil apenas 3 “think tanks” (por exemplo o Instituto Millenium), hoje, com o apoio da Atlas, estes organismos são cerca de 30. É “como futebol”, afirma: a “defesa é a academia”, o meio campo “o pessoal da cultura”, e o ataque são “os políticos”.

Além desta ONG, destaca-se também o protagonismo retrógrado dos bilionários irmãos Koch – mediante seu extremo-direitista “Charles Koch Institute”, defensor do armamentismo e antiambientalista.

No Brasil, como exemplo recente do baixo nível dessas ações – que operam “de grão em grão” –, veja-se o caso dos jovens arrebanhados, presentes à manifestação do MBL e da TFP (Tradição, Família e Propriedade) contra a filósofa Judith Butler, que berravam à porta do SESC: “queimem a bruxa”.

Venezuela e o golpe frustrado de 2002

Na Venezuela, em 1999, Hugo Chávez é eleito presidente, e tem início o projeto da “Revolução Bolivariana”. Trata-se de um dos primeiros golpes que a enorme hegemonia estadunidense dos anos 1990 sofreu. A resposta não tarda. No ano seguinte, a opinião pública do país passa a ser bombardeada por notícias sensacionalistas e fictícias, veiculadas nos maiores jornais corporativos locais: “Talibãs na Assembleia Nacional”; “Outubro negro”; “Terroristas no governo”. Enquanto isso, na televisão ouvem-se chamados (nada “pacíficos”) para que a população “derrube o presidente”.

Era o ato de abertura do golpe em processo que se iniciava. Seu objetivo nesse momento era o de “alertar” a imprensa estrangeira do “horror” vivido pela “sociedade civil” venezuelana – que recém elegera Chávez, mas, supostamente, já se levantava contra seu projeto governamental. Para a construção da imagem de uma “multidão pacífica” enfrentando desarmada uma “sanguinária ditadura”, conforme os bons manuais das instituições e fundações acima mencionadas, não poderia faltar o elemento desestabilizador dos franco-atiradores, que desde longe alvejaram vários de seus próprios manifestantes, além de defensores do governo.

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Estava montada a arapuca, a justificativa para que, em abril de 2002, um grupo de militares sequestrasse Chávez, e alegando que ele “renunciara”, entregasse o poder de volta aos oligarcas, na figura de Pedro Carmona. Dentre os líderes da tentativa de golpe estava o general Efraín Vázquez, formado na Escola das Américas – a perigosa academia militar estadunidense. Mas o que estes estrategas e mercenários não contavam era com a não passividade popular! O Palácio de Miraflores é cercado, após algumas horas da crise política ser deflagrada, por uma multidão leal ao presidente, e em menos de dois dias ele retoma o poder.

Contudo, como nota Maurice Lemoine (Diplô, 2014), se o acontecimento do golpe é o registro maior que soa na história, desde a eleição de Chávez, a ofensiva reacionária nunca cessou: greve patronal em dezembro de 2001; sabotagem e paralisação por meses da imensa empresa petroleira PDVSA, em fins de 2002, abalando seriamente a dependente economia nacional; ainda este ano, um grupelho de militares entrincheirados na autodenominada “zona liberada” da Praça Altamira (bairro nobre de Caracas) convoca o povo à insubordinação. Depois do intento frustrado de golpe, em 2004, ocorrem as primeiras ações de guerrilha urbana, com barricadas bloqueando as avenidas da aterrorizada capital, enquanto o governo colombiano neofascista de Álvaro Uribe (agora aliado dos EUA, mas que uma década antes foi perseguido como narcotraficante) promove a incursão de uma centena de seus paramilitares no país vizinho.

Haiti e a invasão franco-estadunidense de 2004

Em fevereiro de 2004, o presidente eleito do Haiti, Jean-Bertrand Aristide, é raptado por um comando de forças especiais dos EUA apoiado pela França. À imprensa internacional é comunicado que Aristide tomara a decisão de renunciar.

É certo que não foi propriamente uma “decisão”, mas sob a mira de fuzis M-16 – como denuncia o analista político internacional Thierry Meyssan (de Voltaire Net) –, e na presença “casual” do embaixador dos EUA e da França, Aristide acaba assinando a carta de renúncia preparada pelos golpistas, na qual se argumenta que o gesto se dava para “se evitar um banho de sangue”. O presidente é então deportado para a África Central, onde agentes franceses o detém.

Nesse mesmo ano, o promotor do golpe George Bush enviou à ilha seus marines, declarando com deslavada hipocrisia que o fazia para “que o Haiti tenha um futuro de esperanças”.

A falta de interesse das potências ocidentais na resolução do problema do Haiti se mostra em toda sua sujeira quando nos recordamos que, logo de sua independência, a então influente França impôs a sua ex-colônia, como penalidade pela audácia revolucionária deste povo, uma dívida impagável – a título de “reparações” a proprietários de escravos –, tornando a nova nação refém de seus bancos. Mais tarde, em meados do século XX, o país de Bush foi o padrinho da ditadura sanguinária e corrupta de François Duvalier, que arrasaria a já pouca estrutura nacional haitiana.

O presidente Lula, em um dos erros mais crassos de seu governo, apoiaria esse golpe. Na ânsia por projetar o Brasil internacionalmente, o lulismo portanto se postaria subalternamente diante dos interesses imperialistas franco-estadunidenses no Caribe. A “recompensa” do Império não tardaria, como Lula pôde bem observar nos recentes ataques que vem sofrendo das alas francamente neoliberais e fascistas – desfecho que aliás é tradição nas alianças entre raposas e galinhas.

Derrota da ALCA e agravamento do golpismo – fins de 2005

No mês de novembro, há 12 anos, as ruas do balneário uruguaio de Mar del Plata estavam tomadas por manifestantes, em um acontecimento que marcaria a história dos Estados Unidos: pela primeira vez na história, a América Latina se unia em peso contra os desígnios da superpotência; a hegemônica supremacia pós-Guerra Fria dos EUA sobre o mundo já não voltaria a ser o que era (lembremos que a derrota da ALCA é sucedida pela formação dos BRICS).

Absorvida a derrota, os Estados Unidos se voltariam com mais atenção à América Latina.

Desde então o golpismo se aprofunda, diversifica métodos e amplia objetos. Os golpes, manipulados ou assessorados pelas superpotências, a partir de agora passam a visar não apenas a audácia de governos mais “radiciais” como a Venezuela bolivariana (com a força de sua sustentação militar e dos petrodólares), mas também miram os governos reformistas mais brandos e adequadamente inofensivos ao capital: casos do Brasil e Argentina  (exemplos que serão analisados na coluna do mês que vem). 


 

♦ Yuri Martins Fontes é doutor em  História Contemporânea (USP/CNRS), com formação em Filosofia e Engenharia; exerce atividades como pesquisador e jornalista, além de coordenar os projetos de educação popular do Núcleo Práxis-USP.

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