Lixo Extraordinário

Padre Beto
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Lixo Extraordinário 

Por Padre Beto

No Jardim Gramacho, maior aterro sanitário do mundo localizado na periferia de Duque de Caxias, Rio de Janeiro (RJ), o artista plástico Vik Muniz cria uma situação de transformação não somente do lixo, mas principalmente das pessoas que ali trabalham como catadores. No filme Lixo Extraordinário, de João Jardim, Karen Harley e Lucy Walker, assistimos a trajetória do lixo e das pessoas. O lixo, aos poucos, vai sendo transformado em arte e acaba nas prestigiadas casas de leilões internacionais. Ao mesmo tempo, os coletores de lixo vão modificando sua autoestima e se reencontrando como sujeitos capazes de modificar sua historia.

O mais impressionante é o sistema econômico que aparece como “pano de fundo” de toda a história. O nosso sistema econômico vai aparecendo claramente como o sistema do desperdício, não somente de produtos que facilmente são transformados em lixo, como também de pessoas que são condenadas à miséria. O sistema neoliberal nos faz acreditar que existem pessoas melhores que as outras simplesmente pela sua condição socioeconômica. E pelo afastamento e falta de contato, esta crença se reforça.

 

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No inicio do filme, Vik tenta esclarecer a um companheiro de trabalho americano que no Brasil, as pessoas acreditam serem superiores simplesmente por seu poder aquisitivo. Aos poucos, o documentário nos mostra outra realidade. Encontramos catadores de produtos recicláveis que trabalham diariamente no aterro e vivem em favelas, mas que possuem uma sensibilidade e sabedoria que deixam muitos universitários de classe média sem fala. São pessoas que lutam para sobreviver e resistem à prostituição e ao narcotráfico. Quando falamos em preconceito nos lembramos, imediatamente da discriminação racial ou sexual, mas nos esquecemos do preconceito essencial que existe em nossa mentalidade: a discriminação socioeconômica.

"O poder de compra nos faz acreditar que possuímos algo especial ou que somos mais inteligentes que outras pessoas. Quanto mais entramos na 'terapia do consumo' nos enxergamos o centro do mundo e das atenções, e aprendemos a ver as pessoas com menor poder de compra como insignificantes"

O poder de compra nos faz acreditar que possuímos algo especial ou que somos mais inteligentes que outras pessoas. Quanto mais entramos na “terapia do consumo” nos enxergamos o centro do mundo e das atenções, e aprendemos a ver as pessoas com menor poder de compra como insignificantes. O insignificante pode enfrentar problemas gravíssimos, como a falta de atendimento médico em casos de urgência, mas pouco nos incomodamos com isso, afinal, são pessoas menos importantes. O mesmo não acontece quando alguém com poder aquisitivo maior sofre um acidente, por exemplo. Todos ficam chocados e preocupados com o acontecimento, como se esta pessoa pertencesse a sua família. O poder de compra nos faz ver os outros de menor poder aquisitivo como anônimos sem personalidade, inteligência ou sentimentos. A discriminação social reforça uma estratificação existente na sociedade de tal modo que nos cegamos diante de uma realidade grotesca do capitalismo terceiro-mundista. Esta cegueira não somente prejudica a todos, mas também aos próprios detentores de certo poder econômico.

Aqueles que possuem um poder de compra maior acabam pagando dobrado pela saúde e educação, por exemplo, e não se incomodam mais com o sistema público de saúde ou os salários dos professores do ensino estadual. Afinal, a saúde e o ensino públicos, apesar de serem pagos por todos, já não pertencem mais ao universo de quem aumentou seu poder econômico. Sem dúvida alguma, a discriminação racial ou sexual é uma realidade que precisa ser combatida, mas este combate não pode servir de camuflagem para um embate maior, ou seja, o embate contra a exclusão social graças ao dinheiro. Afinal, a nossa sociedade é povoada simplesmente por seres humanos. 


 

  Padre Beto é escritor, cronista e filósofo. Formado em Direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em História pela Universidade do Sagrado Coração (USC) e em Teologia pela Ludwig-Maximillian, de Munique (Alemanha).

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