Você não conhece Jack

Padre Beto
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Você não conhece Jack

Por Padre Beto

Jack Kevorkian sempre defendeu que o ser humano tem o direito de morrer com dignidade, escolhendo a forma como deseja encerrar a vida diante de doenças terminais. Apoiado pelo amigo Neal Nicol e por sua irmã Margo Janus, ele passa a prestar o que poderíamos chamar de uma consultoria de morte.

Desta forma, Jack ajudou em mais de uma centena de suicídios assistidos, o que lhe rendeu o apelido de Dr. Morte. Em seu trabalho, ele ganha o apoio de Janet Good,a presidente do HemlockSociety e a ira dos promotores locais, que abrem um processo contra Jack.

O responsável por defendê-lo na corte é Geoffrey Fieger,que precisa lidar não apenas com o processo em si, mas também com a cobertura da mídia ao julgamento.

O filme de Barry Levinson “Você Não Conhece Jack” é extremamente provocante em vários aspectos. Um deles é o próprio personagem principal que não é exposto como alguém sem emoções ou como um mostro, mas um verdadeiro ser humano que se solidariza com as pessoas em sofrimento.

Outro aspecto provocante do filme é a questão que o filme deixa em aberto: temos ou não temos o direito sobre nossa própria morte?

Eu, particularmente, sou testemunha de várias situações nas quais pacientes, em hospitais ou em casa, agonizam e sofrem amargamente em fase terminal, sem nenhuma perspectiva de recuperação.

Estas situações nos deixam sempre com a pergunta básica: o que é mais humano: deixar a pessoa sofrendo quando os medicamentos não fazem mais o efeito desejado ou antecipar a sua morte para que a terrível dor não a torture?

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O Dr. Morte, Jack Kevorkian, tomou uma posição clara, ou seja, como as pessoas possuem o direito de viver bem, elas também possuem o direito de ter uma boa morte.

É claro que a questão se esbarra na visão religiosa. Para muitos a vida deve estar nas mãos de Deus e somente Ele pode tirá-la. Mesmo assim, temos que nos questionar se o próprio Deus não nos deu a possibilidade de evitar o sofrimento com o conhecimento cientifico que temos.

Este conhecimento cientifico pode prolongar o sofrimento, o que é uma alternativa desumana, mas também pode possibilitar que a pessoa tenha um término de existência pacifico e tranquilo. Não seria esta a vontade de um Deus todo amoroso?

Não quero entrar na lógica do merecimento, ou seja, naquela lógica que afirma que a pessoa sofre para pagar alguma coisa. Esta lógica me parece desumana demais para o Deus que acreditamos. Como também não me satisfaço com o discurso de que o sofrimento purifica a pessoa.

É claro que aprendemos com o sofrimento, com os momentos difíceis da vida, mas isso possui uma validade quando teremos condições de continuar a viver. Aqui sim, o sofrimento pode nos humanizar e nos ajudar a sermos mais gente.

Também não aceito que o sofrimento de uma pessoa em fase terminal serve para o aprendizado de seus parentes e amigos. Deixar com que uma pessoa seja torturada pela dor diariamente para que os outros aprendam alguma coisa sobre a vida me parece injusto demais.

Eu acredito que deveríamos deixar de ter medo de discutir seriamente sobre a vida e sobre a morte. Pois é muito fácil para quem não sofre arrumar uma justificativa para o sofrimento. Outro consolo que poderíamos arrumar para o sofrimento inevitável é a paixão e morte de Jesus Cristo.

Mas não consigo fazer tal associação, pois afinal, Jesus Cristo assumiu a seu próprio sofrimento para se manter coerente frente aos poderes religiosos e políticos da época. Portanto, seu sofrimento possuía uma razão de ser. Ele, apesar de não desejar sofrer, manteve-se forte frente ao poder vigente e demonstrou que aquele que luta por justiça e humanidade não pode fugir.

Este contexto de morte não possui nenhuma relação com aqueles que estão em uma situação de sofrimento devido a uma doença. A questão, portanto, continua aberta. Que cada um assista ao filme e tire suas próprias conclusões. O importante é não fugir da discussão e da reflexão.

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