Pecado da carne

Padre Beto
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Pecado da carne

Por Padre Beto

Num bairro ultra-ortodoxo de Jerusalém vive Aaron Fleishman (Zohar Strauss), pai de quatro filhos e administrador do negócio da família, um açougue kosher, herdado depois da morte de seu pai. O mundo observador das regras de Aaron se transforma completamente com a chegada do jovem estudante Ezri (RanDanker). Ambos começam a passar tempo juntos e, por períodos cada vez maiores, levando Aaron a decidir se voltaria à morosidade anterior ou se entregar-se à relação com o rapaz. O instigante filme Pecado da Carne de Haim Tabakman trabalha com muita sensibilidade um relacionamento proibido pelas religiões e pelas culturas tradicionais: o relacionamento entre duas pessoas do mesmo gênero, no caso, entre dois homens.

Por incrível que pareça, a sexualidade sempre é vista, pelas religiões, como pecado ou no mínimo como algo imundo, baixo, sem valor. Não consigo encontrar o fundamento disso, já que Deus nos fez seres sexuados e nos afloramos como pessoas humanas através de nossa sexualidade. É claro que ao lermos a Bíblia, por exemplo, encontraremos normas morais que tratam erroneamente das relações sexuais humanas. Mas esta leitura da Bíblia não pode ser fundamentalista, ou seja, ao ler os textos sagrados cristãos temos que respeitar a mentalidade da época e, fatalmente, encontraremos concepções do homem da Antiguidade. Isso quer dizer que encontraremos, além da Palavra de Deus, concepções que são típicas de um homem que não conhecia genética, sexualidade, corpo humano e pouco do relacionamento entre pessoas. Portanto, eu não posso aceitar tudo que está na Bíblia como Palavra de Deus.

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A sexualidade é algo natural no ser humano, pois é a nossa forma de nos envolvermos com prazer através de nosso corpo. O ser humano não é anjo e Deus não deseja transformá-lo como tal. O ser humano é corpo! E através de seu corpo se relaciona com o mundo, o que é muito bonito e prazeroso. Falar de sexualidade inevitavelmente é falar de prazer, e este não tem absolutamente nada em oposição à espiritualidade, à relação com Deus. No nosso desenvolvimento como pessoas vamos nos descobrindo através do toque, descobrindo os prazeres que nosso corpo pode nos oferecer como também o prazer que o corpo do outro também nos oferece. Isso não tem nenhuma relação com o pecado.

"Sexualidade é algo simplesmente natural e deveria ser compreendida desta forma. Uma pessoa realizada sexualmente é uma pessoa preparada para viver uma verdadeira espiritualidade e uma ligação com Deus"

O pecado, ou seja, o afastamento de Deus, é um ato de desamor para comigo, como também para com o outro. Ora, o prazer não pode ser um ato de desamor e tudo que envolve a sexualidade, sendo de forma consentida e por pessoas conscientes do que fazem, não pode ser uma ofensa a Deus. Enfim, sexualidade é algo simplesmente natural e deveria ser compreendida desta forma. Uma pessoa realizada sexualmente é uma pessoa preparada para viver uma verdadeira espiritualidade e uma ligação com Deus. Uma pessoa que possui problemas com sua sexualidade terá uma espiritualidade neurótica e uma relação com Deus doentia. Por isso, as religiões deveriam ensinar as pessoas a ver a sexualidade como uma dimensão boa e agradável do ser humano e incentivá-las a se conhecer melhor sexualmente. O que significa incentivá-las ao relacionamento carinhoso consigo mesmas e com os outros, o que significa um ato de amor, no sentido bíblico da palavra, para com o próximo. Lembrando que toda forma de prazer sexual pode ser vivenciada pelo ser humano sem medo e sem culpa.

O único limite que existe no prazer sexual é o consentimento do outro. Deus nos fez homem e mulher, o que significa gênero humano. Porém, no que diz respeito à sexualidade, há diversas formas do homem se relacionar sexualmente e diversas formas da mulher se relacionar sexualmente. A sexualidade não está condicionada ao gênero. Não há pecado no toque, na sensualidade, no erótico, na dimensão lúdica do sexo. É uma pena o ser humano viver esta dimensão de forma limitada ou traumática, afinal, depois da morte, perderemos esta dimensão corporal e os prazeres que o corpo pode nos oferecer


♦  Padre Beto é escritor, cronista e filósofo. Formado em Direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em História pela Universidade do Sagrado Coração (USC) e em Teologia pela Ludwig-Maximillian, de Munique (Alemanha).

 

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