Um peixe chamado Wanda

Padre Beto
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Um peixe chamado Wanda

Por Padre Beto

A sexy pilantra americana Wanda e seu novo amor secreto, Otto, vão à Inglaterra para armar um roubo de uma valiosa coleção de diamantes. Aliás, diamantes são a verdadeira paixão de Wanda. O filme de Chalés Crichton, Um Peixe Chamado Wanda, é um excelente entretenimento sobre a necessidade de possuir. Wanda pode fazer de tudo para possuir seus diamantes, e será também alvo de alguns que lhe desejam tomar posse. Neste jogo de possuir, sejam objetos ou pessoas, artimanhas são elaboradas e máscaras são criadas. Tudo para satisfazer o desejo de obter a posse. É claro que existe uma diferença muito grande em tentar possuir objetos e tentar possuir pessoas. Mas o problema é que a tendência de possuir objetos leva inconscientemente a possuir pessoas.

Basta prestarmos atenção em nosso próprio vocabulário e constatar como utilizamos o pronome possessivo, tanto para objetos como para pessoas. Eu “tenho” um carro e com ele passeio com “minha” namorada. A posse nos dá a sensação de poder e de segurança. É claro que, a qualquer momento, pode acontecer algo que me leve a perder o carro, como também a namorada é uma pessoa e, como tal, tem decisões próprias. Isso significa que, a qualquer momento, ela pode decidir deixar de ter um relacionamento comigo. Possuir e perder, eis o grande desafio que a sociedade de consumo cria em nossa mentalidade. Associado ao desejo de possuir está presente em nossa mentalidade o imediatismo. Nos basta possuirmos pessoas e objetos agora.

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O futuro não está em nossos planos e muito menos o futuro coletivo. Na ânsia de possuir e possuir agora, utilizamos todas as artimanhas possíveis, sem pensarmos nas consequências.  Um bom exemplo é o jogo para possuir o que é público. O brasileiro ainda não possui claramente em sua mentalidade que o público é propriedade construída com o nosso dinheiro e todo o dinheiro dos cofres públicos é fruto da tributação que todos, e principalmente os mais pobres, devem pagar. Na tendência de ter a posse somos continuamente roubados por pessoas que desejam possuir agora. Isso, com certeza, gera uma roda viva. As pessoas não enxergam que o dinheiro público pertence a elas e, dessa forma, algumas delas que possuem acesso ao poder, acabam usufruindo muito mais do dinheiro de todos. Com menos proporção, o mesmo mecanismo acontece com as igrejas.

No discurso falso de que com donativos à igreja estarei ganhando as graças de Deus, muitas igrejas arrecadam o dinheiro de seus fieis sem prestar nenhuma conta de como este capital é utilizado. Novamente, e aqui de uma forma extremamente bizarra, o dinheiro público é utilizado por poucos. Em nosso país o jogo de possuir vai muito além da honestidade.  Todas estas relações de posse deformam a sociedade em um espaço de competição e uma competição desumana. A questão é perceber que não podemos possuir tudo e que temos que estabelecer limites em nossos desejos. Estes limites são estabelecidos a partir do momento que nos conscientizamos de que a felicidade não pode ser individual, mas sim coletiva.

"A felicidade coletiva é construída somente quando os indivíduos sabem seus limites e se relacionam com honestidade. Ter a felicidade coletiva em nossos horizontes é compreender que ninguém é de ninguém. Nenhuma pessoa pode tomar posse de outra, mas as pessoas constroem juntas um relacionamento"

A felicidade coletiva é construída somente quando os indivíduos sabem seus limites e se relacionam com honestidade. Ter a felicidade coletiva em nossos horizontes é compreender que ninguém é de ninguém. Nenhuma pessoa pode tomar posse de outra, mas as pessoas constroem juntas um relacionamento. Ter a felicidade coletiva em nossos horizontes é perceber que o dinheiro público é de todos e, portanto, deve ser empregado para o bem comum. Lutar pela felicidade coletiva é compreender que igrejas precisam de dinheiro somente para manter sua infraestrutura para que os cultos e as pastorais possam ser realizados e que toda igreja precisa prestar contas de seus gastos. Lutar pela felicidade coletiva é lutar para que a distribuição de renda seja melhor e todos possam usufruir deste mundo de forma digna e prazerosa. Enfim, acreditar na felicidade coletiva é compreender que ser feliz não se constitui em possuir, mas sim em se realizar como pessoa. Aliás, um direito que é de todos.


♦  Padre Beto é escritor, cronista e filósofo. Formado em direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em história pela Universidade do Sagrado Coração (USC) e em teologia pela Ludwig-Maximillian, de Munique (Alemanha).

 

 

 

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