Clube dos cinco

Padre Beto
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Clube dos cinco

Por Padre Beto

Em virtude de terem cometido pequenos delitos, cinco adolescentes são confinados no colégio em um sábado, tendo de escrever uma redação de mil palavras sobre o que eles pensam de si mesmos. Eles são pessoas bem diferentes. Apesar das diferenças, passam a se conhecer melhor e não somente se aceitar uns aos outros, mas a compreender que, muitas vezes, as regras padronizam os seres humanos e não respeitam a historia de vida de cada um.  No belíssimo filme de John Hughes “Clube dos Cinco” são apresentadas várias confissões de jovens que demonstram suas frustrações com os adultos e sua vontade de transformação. Mais do que isso, eles convivem em um espaço fechado e compreendem que estão na mesma situação. Se ampliarmos um pouco a mente veremos que todos estamos na mesma sociedade e, portanto, como os cinco jovens do filme, envolvidos nos mesmos problemas.

Ao vivermos em uma cidade convivemos com os prazeres e os problemas deste mesmo lugar. Imagine você viver em uma cidade que possui uma avenida central que, na época de chuvas, se torna um “rio” extremamente perigoso. Imaginemos uma cidade com pontos de ônibus sem proteção para a chuva ou para o sol. Nesta mesma cidade existe um rio poluído que exala há anos um cheiro terrível. No centro desta cidade encontramos uma avenida que já não possui asfalto e os pedestres precisam olhar para o chão para não tropeçarem ou sofrerem um acidente. Vamos imaginar uma cidade com poucos lugares de lazer para as famílias e nela somente existe uma calçada para se fazer caminhada à beira de um aeroclube que possui um espaço imenso e que só serve para uma pequena minoria que voa com seus planadores. Vamos imaginar uma cidade que cresceu e é incapaz de ter um sistema de saúde publico eficiente, computadorizado e que atenda com rapidez os casos de urgência. Também podemos imaginar uma cidade que possui, no centro urbano, um viaduto inacabado há anos e não consegue terminá-lo. Vamos imaginar uma cidade que há anos possui um aeroporto, mas que este não possui linhas aéreas como deveria, com preços acessíveis e que nos levem à capital do Estado em quarenta minutos. Ficamos, portanto, obrigados a pagar pedágios nas rodovias ou viajar de ônibus.

 

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Vamos também imaginar uma cidade que não oferece oportunidades para indústrias ocuparem o seu distrito industrial e coloca a desculpa na proteção do meio ambiente.  Vamos usar mais ainda a imaginação e pensar o impossível: uma cidade cortada por linhas férreas que não são utilizas para o transporte público. Imaginemos que, nesta cidade, o povo fique satisfeito simplesmente porque algumas ruas são asfaltadas com o seu próprio dinheiro. Vamos um pouco mais longe, uma cidade que possui um prefeito ambientalista que chega ao final de seu mandato sem nenhuma solução para o aterro sanitário da cidade. Enfim, vamos imaginar que vivêssemos em uma cidade com estas condições. Quem seriam os culpados da situação? Poderíamos colocar toda a culpa nos políticos que administram e legislam. Se agíssemos assim estaríamos como os adolescentes no inicio do filme Clube dos Cinco

Os adolescentes agem como se o diretor da escola fosse responsável por tudo, eles estão descontentes e aguardam uma atitude de piedade com relação ao diretor. Se colocássemos a culpa somente nos políticos e aguardássemos deles ações administrativas como caridade agiríamos como adolescentes. Mas, como somos cidadãos maduros, sabemos que pagamos por tudo o que é feito na cidade. Por isso, se vivêssemos em uma cidade como a descrita acima, teríamos com certeza atitudes maduras de protesto e exigência. Exigiríamos respostas rápidas para a saúde e projetos para o desenvolvimento para cidade. Afinal, conhecemos o poder de nossa união e o que podemos fazer com ela. Por este mesmo motivo é não vivemos em uma cidade como a descrita acima. Ainda bem, seria terrível.


 

♦  Padre Beto é escritor, cronista e filósofo. Formado em Direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em História pela Universidade do Sagrado Coração (USC) e em Teologia pela Ludwig-Maximillian, de Munique (Alemanha).

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