Hannah e suas irmãs

Padre Beto
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Hannah e suas irmãs

Por Padre Beto

Quantas pessoas não se veem neste dilema em algum momento de sua vida: escolher entre a independência ou a segurança de sua família. Esta é a questão proposta pelo filme de Woody Allen “Hannah e Suas Irmãs”. Hannah é uma dedicada esposa, mãe carinhosa e atriz de sucesso. Além de uma leal defensora de suas duas confusas irmãs Lee e Holy, ela é também a espinha dorsal de uma família que parece se ressentir de sua estabilidade quase tanto quanto dependem da mesma. Sabe aquele sentimento dúbio de admiração e inveja, de dependência e segurança? Assim é a família de Hannah em relação a ela. Mas quando o mundo perfeito de Hannah é silenciosamente sabotado pela rivalidade fraterna, ela começa a ver que está tão perdida quanto todos os outros, e para poder se encontrar, ela terá fazer a bendita escolha entre a independência e a relação neurótica com a família. Uma escolha que, para muitos, se torna muito difícil, pois se confunde facilmente distanciamento com falta de amor ou interesse.

O nosso modelo familiar é marcado por uma pressão sentimental muito forte que, muitas vezes, não é expressada em palavras, mas sempre está presente. Muitos pais depositam em seus filhos expectativas que não são ditas, mas transmitidas através de cobranças e atitudes. Muitos filhos exigem de seus pais uma demonstração de amor que não corresponde ao amor sentido e expresso por seus pais. Os irmãos crescem juntos e, muitas vezes, disputam o amor dos pais se tornando concorrentes por toda a vida. Muitos irmãos vivem em uma concorrência velada e mesmo que queiram se libertar continuam se vendo como referência uns dos outros.  Enfim, a família é um núcleo de pessoas ligadas não somente pelo sangue. Os laços afetivos estão presentes e são uma “faca de dois gumes”: podem significar aconchego e proteção, ao mesmo tempo que escravidão e dependência.

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Justamente por isso, a família deveria ser um espaço de lucidez, no qual o sentido da vida fosse amplamente discutido por todos. Os pais precisam compreender que, apesar de terem filhos, estes não são “seus”, mas pessoas verdadeiramente únicas. Isso significa que, apesar da educação que receberão, seu futuro deverá depender deles mesmos. Nenhum pai ou mãe tem o direito de determinar o futuro de seus filhos. Tudo pode ser discutido, mas nenhuma cobrança em relação às opções particulares deveria ser feita. Os pais deveriam criar seus filhos com o objetivo de um dia não precisarem mais deles. Afinal, a felicidade maior de um pai ou mãe é saber que seu filho pode caminhar tranquilamente com “suas próprias pernas”, pode refletir e tomar suas decisões.

Da mesma forma, os filhos precisam compreender que seus pais não deveriam viver única e exclusivamente por eles. Os filhos podem exigir de seus pais o mínimo necessário para seu desenvolvimento como pessoa, mas a partir de um momento de suas vidas são eles, filhos, que devem assumir as responsabilidades sobre a vida. Quanto aos irmãos, estes devem evoluir para a amizade. Mais do que um irmão, nós deveríamos ter um amigo. Para tudo isso é necessária a consciência do diálogo no grupo família. Nela dever-se-ia conversar sobre tudo e nada deveria ser um tabu. Quando afirmo que a família deve ser um núcleo de diálogo, estou querendo dizer que todos devem aprender com todos. Os pais possuem mais experiência de vida, os filhos trazem as informações novas e inovadoras que os pais precisam aprender. Enfim, mais do que família, o núcleo familiar deveria se compreender como um grupo de seres humanos que possuem interesse pela vida de cada um.


 

♦  Padre Beto é escritor, cronista e filósofo. Formado em Direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em História pela Universidade do Sagrado Coração (USC) e em Teologia pela Ludwig-Maximillian, de Munique (Alemanha).

 

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