Esquerda e direita: entre duas caixas vazias

Raphael Fagundes
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Esquerda e direita: entre duas caixas vazias

Por Raphael Silva Fagundes

"Nada tão parecido com um saquarema como um luzia no poder

Provérbio imperial

Falar de esquerda e direita no Brasil de hoje é resgatar a velha dicotomia entre saquaremas e luzias que coloriu o Império. Uma disputa política estabelecida muito mais na fachada que no interior do edifício do poder. Uma ilusão promovida pelas forças que atuam na política que anseiam a manutenção da ordem tradicional.

São todos liberais

O ex-presidente Lula, de forma tímida, diz que, caso eleito, não anulará as reformas realizadas pelo governo atual [1]. Sobe ao palanque com Renan Calheiros em meio à sua caravana pelo Nordeste. O PCdoB faz reuniões com Rodrigo Maia, onde este chama o partido de “amigo” por ter conseguido dele apoio para a sua candidatura a presidência da câmara. Como presidente interino, diz que quer promover um “novo centro” com o partido que carrega o nome de comunista.

O PSol, por seu turno, posiciona-se contrário a Venezuela, enquanto o seu representante mais popular, Jean Wyllys, declara ser “desonesto e irresponsável” chamar o Estado de Israel de genocida por seus ataques ao povo palestino. O partido, também, adota a estratégia de enriquecer suas fileiras defendendo lutas que interessam aos jovens da classe média. Com exceção do PCB, e de outros partidos menores da esquerda marxista, que partido representa os trabalhadores? É uma contradição endêmica do capitalismo atual: sua maior classe ter o menor número de representantes. Portanto, devo perguntar, não há mais luta de classes?

Se “o significado de uma palavra é o seu uso na linguagem”, como demonstra o filósofo conservador Ludwig Wittgenstein, por que esses partidos insistem em dizer que são comunistas e socialistas? Talvez Lenin possa nos ajudar nessa questão, pois como os mencheviques e os social-revolucionários da Rússia, esses partidos “persistiram na traição coligando-se com a burguesia de seu país”, “uma deserção para o campo da burguesia, contra o proletariado”, que “nada mais é que oportunismo, defecção e traição da pior espécie”. Contudo, o esquerdismo nas terras tropicais não é mais uma doença infantil do comunismo, mas apenas uma retórica vazia que se apresenta como uma alternativa para manter as relações tradicionais de produção.

Foi Sartre quem disse que esquerda e direita são duas caixas vazias. Não podemos negar a importância desta observação. No entanto, aqui no Brasil, parece que a história quis persistir em uma das velhas máximas do século XIX que pode ser resgatada e atualizada para o nosso contexto. Nada mais de direita que ter um esquerdista no poder. Sim! Com o argumento progressista, a esquerda deixou de pensar nas lutas de classes e se dedica agora a acordos escusos para voltar ao poder ou, no máximo,a argumentos voltados para as liberdades individuais.

Proteger a Constituição!

Precisamos destacar que no século XIX, o liberalismo estava atrelado ao ideal de Constituição. Está claro nas palavras de Evaristo Ferreira da Veiga, jornalista e ativista político da época: “Tornar prática a Constituição que existe sobre o papel deve ser o esforço dos liberais”.[2] Hoje, as esquerdas encastelaram-se ao redor da defesa da Constituição, dos direitos conquistados que estão se esvaindo pela ação do capital.

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Deste modo, o discurso de transformação passa a ser da direita.O discurso antes conservador que dizia que uma mudança seria um tiro que sairia pela culatra; que seria futilidade uma proposta de mudança sem alterar as estruturas; eque as conquistas e realizações mais antigas, alcançadas a duras penas, seriam ameaçadas pela nova reforma, agora pertence ao arsenal retórico da esquerda.

A direita, armada pelo discurso da modernização, propõe a venda de empresas e das reservas naturais constitucionalmente protegidas. Alteram as leis trabalhistas para atender o capital e “salvar o país” trazendo investimentos. É papel da direita alterar a Constituição? Creio que não. Mas se a esquerda tomar o poder novamente, ela irá manter as alterações, pelo menos é o que disse o seu principal representante, o carismático e perseguido Luiz Inácio Lula da Silva.

Vale lembrar que até o formato que o golpe de 2016 adquiriu lembra o golpe político-parlamentar que colocou D. Pedro II no poder.Para quem acredita em reencarnação é fartura. Mas é lógico que a história não se repete, no entanto serve como ponto de referência para reflexões e para observar alteridades. Ajuda a entender que a variação entre PT e PSDB no poder, não altera os mecanismos de exploração das forças produtivas, embora seja possível identificar algumas tendências de cada um destes partidos quando estão no controle do executivo. Nenhuma ilusão seria uma ilusão se não conseguisse se parecer com o objeto que pretende dissimular. Assim ficamos satisfeitos em escolher o “mal menor”.

Os Luzias, partido que representava os liberais no Império, quando oposição, adotavam uma retórica radical, mas quando no poder se acabrunhavam. Em algumas situações, os conservadores adotavam medidas que poderíamos considerar liberais, como a abolição do tráfico de escravos em 1850 por Eusébio de Queiroz, um dos membros da trindade saquarema.

No Brasil de hoje a política de privatizações é marca do PSDB, mas não impediu o PT de privatizar algumas empresas. Uma política que não poderia se estender porque o PSDB perderia a razão de existir. O rodízio do poder sairia danificado. Rodrigo Maia buscou apoio entre as esquerdas para poder subir ao cargo de presidente da câmara dos deputados e hoje é peça chave nas reformas do governo Temer. As esquerdas precisam cooptar a direita para voltar ao poder, além de conseguir apoio dos empresários. Desta maneira, liga-se o motor que permite o funcionamento do velho carrossel político. Mudam-se as moscas, mas as fezes continuam as mesmas.

Referências

[1]http://www.valor.com.br/politica/5028066/lula-afirma-que-temer-e-aecio-provam-do-proprio-veneno

[2] Apud. História dos Conceitos políticos. P. 148.


♦ Raphael Silva Fagundes é doutorando em História Política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

 

 

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