O Rock in Rio e os protestos políticos

Raphael Fagundes
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O Rock in Rio e os protestos políticos

Por Raphael Silva Fagundes

As notícias que saem na imprensa sobre o Rock in Rio mencionavam, antes mesmo da sua realização, que evento deveria injetar na economia da cidade cerca 1,2 bilhões.[1] A rádio CBN não deixa de mencionar esse detalhe, afirmando que o festival contribui para os cofres da cidade.

Uma matéria na Veja mostra outros números: “No primeiro fim de semana da sétima edição do Rock in Rio, os cariocas tinham bons motivos para varrer para longe o baixo-astral que tomou a cidade nos últimos meses. Entre sexta (15) e domingo (17), a ocupação média dos hotéis, segundo o escritório local da Associação Brasileira de Hotéis (Abih-RJ), bateu em 75%, com áreas como Leblon e Ipanema cravando 85% — a média dos fins de semana tem rondado esquálidos 30%. O faturamento nos bares e restaurantes aumentou 15%, conforme os dados do Sindicato dos Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio)”.[2] O texto mostra que o Rock in Rio era a “primeira chance de respirar com um evento de grande porte”. Mas tudo foi por água abaixo com a violência na Rocinha.

O investimento empresarial mostra-se como a solução para a crise da cidade, enquanto que os políticos são execrados por diversos artistas no festival, assim como pelos espectadores. A Folha de S. Paulo, O Globo, empolgaram-se em mencionar o protesto de Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial, ao dedicar a música “Que país é esse” ao presidente Temer.[3] A radialista da CBN diz que esse protesto, junto com os do Jota Quest e do Skank, são importantes para o momento político que passamos.

Nós sempre caímos nos erros desenvolvidos pelos intelectuais ao longo da história brasileira. Erros muito bem compreendidos e criticados pelo sociólogo Jessé Sousa. A ideia do patrimonialismo e do populismo é o grande alvo de nossas críticas. Essa perspectiva liberal conservadora culpa incessantemente o Estado, enquanto que o mercado aparece com a solução para todos os momentos de crise.

Pierre Bourdieu, partindo da fórmula de Berkeley, na qual ser é ser percebido, destaca que é de extrema importância exibicionista, para a carreira de alguém, se aproveitar da idéia de que “ser é ser percebido na televisão, isto é, definitivamente, ser percebidopelos jornalistas, ser, como se diz, bem-visto pelos jornalistas”.[4] As mensagens dos artistas no Rock in Rio foram de grande agrado dos jornalistas, arrancando destes elogios, inflando, por fim, o ego narcisista. A tela da televisão, e hoje podemos incluir as redes sociais, funciona como uma espécie de espelho de Narciso.

É através do espetáculo que a instância midiática produz sua definição do real. Um evento do porte do Rock in Rio, que possui uma história, que resgata elementos memoriáveis de muitos indivíduos que a ele vão, produz por si só um efeito patêmico. Sendo assim, visando tocar o afeto do espectador, neutralizando em parte, nele, a atividade racional de análise[5], o “fora Temer” é invocado e elogiado pelos meios de comunicação.

A questão econômica é valorizada pelos veículos que controlam a informação porque eles são os grandes financiadores do evento, e cada vez mais, os colocam fora da imagem política do país que buscam denegrir. Por um instante, esquecemos que são os grandes investidores que movimentam a política do país. Em meio a calor da multidão, dos acordes das guitarras e do grito de uma rebeldia conduzida, nos aliamos aos que lideraram o golpe de 2016 que colocou o presidente Michel Temer no poder. À mídia que construiu a imagem da esposa do presidente não eleito criando ares machistas de beleza e de que o novo estava no poder.

Patrick Charaudeau, nos mostra as estratégias adotadas pelo discurso jornalístico: o objetivo informativo, o que traz uma novidade que o receptor ignoraria; o objetivo persuasivo, que cria uma crença baseada em argumentos não contraditórios; e o objetivo sedutor, que pretende o controle do outro, agradando-o, fazendo-o sentir prazer. Tanto na informação sobre as repercussões econômicas do evento realizado na cidade carioca, quanto as informações de suas manifestações políticas, esses três objetivos são alcançados.

Por um lado mostra-se que o evento ajudaria o Estado a driblar a crise anunciando os lucros. Depois menciona um raciocínio lógico de que se não fosse a Rocinha tudo funcionaria a mil maravilhas, culpando o Estado por falta de investimento etc,. Essa questão, por sua vez, é sedutora por si só, além de apontar um caminho para salvar a cidade: o investimento empresarial.

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Por outro lado, informa as manifestações políticas em um evento cultural, aproveitando-se de uma lógica que para todos é comum, a corrupção como problema do Brasil. O orador fala o que o publico quer ouvir, uma característica comum do processo persuasivo. Além de tudo é sedutor porque é agradável. Quem nos auxilia a compreender esse aspecto argumentativo é Dominique Maingueneau: “O fato de que um texto seja destinado a ser cantado, lido em voz alta, acompanhado por instrumentos musicais de determinado tipo, que circule de determinada maneira e em certos espaços..., tudo isto incide radicalmente sobre seu modo de existência semiótica”.[6]

Desta maneira, o Rock in Rio e as notícias que circularam sobre o evento, foram usados como um veículo de disseminação de uma perspectiva política, de uma forma de observar a crise política contribuindo para fomentar uma forma de crítica e solução. O econômico, administrado pelos detentores das grandes fortunas, é reclamado como solução dos nossos problemas políticos. Essa é uma forma comum de excluir as classes trabalhadoras do processo político, sendo este o único possivelmente acessível a elas, já que as grandes riquezas estão concentradas em outras mãos. Não se pensa nunca em distribuir a riqueza, mas em produzir mais, a qualquer custo (naturais e sociais), persuadindo assim toda a população a lutar pelo investimento no comércio, na indústria, com o discurso de que todos viveríamos, desta maneira, na terra da felicidade.


[2]https://vejario.abril.com.br/cidades/cidade-dividida-entre-a-alegria-do-rock-in-rio-e-tiros-na-rocinha/

[4] BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. p. 16.

[5] Aspecto observado por: CHARAUDEAU, Patrick. “A patemização na televisão como estratégia de autenticidade”. In: MACHADO, Ida Lucia e MENDES, Emília. (orgs.). As Emoções no Discurso. Vol. 2. Trad: Emília Mendes. Campinas: Mercado das Letras, 2010. p. 54.

[6] MAINGUENEAU, Dominique. Novas Tendências em Análise do Discurso. 3 ed. Trad: Freda Indursky. Campinas: Pontes, 1997. p. 36.


 

Raphael Silva Fagundes é Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí

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