Aos lunáticos detratores da esquerda, vocês são uma farsa!

Raphael Fagundes
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Aos lunáticos detratores da esquerda, vocês são uma farsa!

Por Raphael Silva Fagundes

A história não se repete! Pelo menos é o que diz o acréscimo retórico de Marx à ideia hegeliana, no qual o filósofo comunista diz que um acontecimento vem à luz “pela primeira vez como tragédia,a segundacomo farsa”. A questão é que a farsa, para Marx, é uma artimanha das classes dominantes para impedir o movimento progressivo da história. Isso dá a impressão de que a história se repete, mas não é verdade.

Esse ponto pode ser apreendidoem seus escritos de quando ainda era jovem. Junto com Engels, Marx, ao falar dos diversos socialismos que existiam em seu tempo, afirmava que nenhum deles era realmente revolucionário. Ou eram “ecos do passado”, ou “uma razão inversa do desenvolvimento histórico”. Somente o comunismo faz girar a engrenagem da história, pois sua teoria é baseada no “movimento histórico que se desenrola sob nossos olhos”.[1] É o único que visa uma mudança radical, que aponta para o futuro.

A farsa é, também, um dos mecanismos utilizados pela burguesia para impedir a suplantação do modo de produção que sustenta a ideologia que justifica sua dominação. Isto é, a mudança histórica ocorre somente quando há uma alteração no modo de produção. O que nos leva a crer que se não houve uma ruptura com o capitalismo, que, por sua vez, já vigorava quandoMarx escreveu essas linhas, não houve uma mudança histórica.

Chega-se a conclusão de que há a possibilidade sim de retornos, de rodopios lunáticos em torno de um eixo (modo de produção), de um movimento circular, de idas e vindas, evidentemente, como farsas. O que jamais ocorrerá é uma volta ao feudalismo, ou ao modo de produção escravista. Esses foram sepultados pelo movimento da história. No entanto, elementos que assombraram a história do capitalismo, criados durante a vigência de tal sistema, estão por aí, esperando um momento para se manifestar. Enquanto não houver uma ruptura estaremos condenados a nos repetir.

A religião e os bons costumes

Embora o mundo tenha sido dessacralizado com a ascensão da burguesia, o cristianismo nunca foi um óbice para o capitalismo. Ao lermos Max Weber percebemos justamente o contrário. A moral do empreendedor fundamenta-se na ética protestante. Sendo assim, não seria nenhum absurdo (para falar de Brasil) o retorno ao culto religioso nas escolas, o que acontecerá após o STF liberar o ensino religioso confessional. E, também, não nos admiramos cultos celebrados em plena câmara dos vereadores.

Em 1900, o psicólogo americano G. Stanley Hall, louvava os ensinamento de “feitura de um homem” como uma defesa contra a “degeneração, cuja característica essencial é o enfraquecimento da vontade e a perda da honra”.[2] Hoje temos o que se convencionou chamar de “terapia de reversão sexual”, que esconde o mesmo princípio sob um novo argumento.

O discurso de apologia da moral e dos bons costumes,é de longa data, todos sabem, assim como a associação da esquerda e do comunismo com a degeneração dos valores tradicionais. Nos anos 1930, os integralistas acusavam a Aliança Nacional Libertadora (ANL) de “destruidora da família e apologista da prostituição”. E grupos moralistas que apoiaram a ditadura militar, como a Campanha da Mulher pela Democracia, diziam que o socialismo e o comunismo vieram para “subverter a moral, eliminar a religião e separar os pais dos filhos”.[3]

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Outro movimento que nos assombra atualmente, parido, também, pelo sistema capitalista, é o fundamentalismo. Criado nos EUA, no início do século XX, buscava enfatizar uma interpretação literal da Bíblia para a prática da vida. O retorno de ideiastradicionais não quer dizer que a história voltou, mas que a história não se alterou, já que, pela perspectiva marxista, é necessária a transformação do modo de produção capitalista para que a história possa progredir. Isto é, os opositores do socialismo são um entrave para o progresso.

Outra questão é o fato de antigos procedimentos serem resgatados. Procedimentos que se esboçavam muito bem na cartilha da Ação Integralista Brasileira de 1933:

“O Integralismo defende um programa amplamente educativo (...) criação de universidades inspiradas nos princípios de uma filosofia cristã; criação de cursos populares e de alta cultura; estímulo às pesquisas científicas, às belas artes e à literatura (...) respeitando sempre os limites impostos pelos imperativos de ordem moral, social e nacional...”[4]

E da maneira semelhante (tirando o nacionalismo) age o MBL nas suas polêmicas intervenções nas artes e em sua defesa visceral ao projeto “escola sem partido”.

Os Césares de plástico

O historiador Eric Hobsbawm diz que os políticos liberais do limiar do século XX criavam diversos estratagemas para impedir que as esquerdas vencessem as eleições.Para tal, liberavam o voto somente quando percebiam que podiam controlá-lo.[5]

Hoje não é muito diferente. A manutenção do PT no poder só serviu enquanto este podia ser controlado, quando não foi mais possível, tirou-o do executivo para adotar as medidas que as classes dominantes acham interessantes para salvar suas fortunas em meio à  crise.

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Outro aspecto são as notícias nos jornais que falam do anseio da população que deseja uma intervenção militar. No site da Exame saiu que um a cada três brasileiros defendem a intervenção.[6] Já no R7 que 43% dos brasileiros querem a volta do regime militar.[7]Promove-se um apoio da sociedade civil. Daí ganham espaço o discurso de generais e de políticos que se dizem autoritários, só para atender as demandas de tais notícias capciosas.

 São Césares de plástico que querem emular os de chumbo que chegaram ao poder em 1964. Em sua dissertação de mestrado sobre as marchas da família, Aline Alves Presot destaca: “A crença de que a intervenção militar nas instituições democráticas expressava um desejo da sociedade civil, que compõe um dos principais alicerces desse imaginário, serviu por alguns anos como justificativa do autoritarismo em voga”.[8]

É lógico que cada movimento, ação e discurso tem sua característica momentânea, principalmente se pensarmos na questão tecnológica. Hoje um discurso é preparado para ser simples, pobre e estúpido com o objetivo de se tornar viral nas redes sociais. A nossa cultura está muito mais focada na fotografia, em vídeos e, ridiculamente,em memes. A imagem se submete a ditadura de palavras hilárias, porém, frequentemente burras.

Além disso, existia a URSS, motivo de um temor real do comunismo. Com a queda do mundo soviético o medo do comunismo tornou-se irreal, mas ainda circula. É o verdadeiro exemplo de farsa. De um retorno forçado que sustenta o clichê anticomunista usual: “Tem razão; depois da tragédia do totalitarismo do século XX, todo esse papo de volta ao comunismo só pode ser farsa”. Quem diria que as sábias frases de Marx se tornariam um dia uma asneira na boca dos seus detratores mais lunáticos?

Marionetes de uma farsa

Muitos não percebem que agem como merasmarionetes de uma farsa, guiados pelos interesses do capital, vítimas de uma violência que não enxergam porque é simbólica. Usam da moral para nos desviar do verdadeiro conflito: a luta de classes. Isso é um golpe perfeito para atravancar o progresso, isto é, o socialismo.

Marx escreve esse fenômeno assim: “A tradição de todas as gerações mortas oprimem como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada”.[9]

Não estou dizendo que estávamos às portas de uma revolução antes da ascensão conservadora atual, e muito menos que os governos anteriores não atravancavam a ascensão do proletariado em sua plenitude, mas sim que a radicalização da direita acaba por radicalizar a farsa, parindo lunáticos que carregam tochas, que proíbem filmes e pinturas, que atacam terreiros de candomblé em nome de valores antigos.

Referências

[1] MARX, K. e ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2006. p. 60.

[2] GAY, Peter. O cultivo do ódio. São Paulo: Cia das Letras, 1995. p. 105.

[3] ROSA, Rita de Cássia Vianna. A “Pira da Fé: mulheres, memórias e ação política em Juiz de Fora, anos 1960. SOIHET, Rachel et. AL. Mitos, projetos e práticas políticas: memória e historiografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 314

[4] SALGADO, Plínio. O que é o Integralismo. In: Obras Completas, V. IX, 1955, p.119. [1ª edição 1933]

[5] HOBSBAWM, Eric. A era dos impérios 1875-1914. 10 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998. p. 128.

[8] PRESOT, Alice. As marchas da família, com Deus pela liberdade e o golpe de 1964. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro, UFRJ, 2004. p. 83.

[9] MARX, K. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Martin Claret, 2007.p. 19


 

 

♦  Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

 

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