A classe C precisa se libertar desse conflito moral

Raphael Fagundes
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A classe C precisa se libertar desse conflito moral

Por Raphael Silva Fagundes

A questão do Queermuseu, a aceitação da denúncia de Temer, o homem nu do MAM, as peripécias de Bolsonaro e do MBL, uma lista completa que induz a interpretação do mundo de uma maneira abstrata, desloca as classes operárias de sua condição arbitrária.

Marx e Engels dizem que a “burguesia vive em luta contínua; no início, contra a aristocracia; depois, contra as partes da própria burguesia cujos interesses entram em conflito com os progressos da indústria”.[1] Não é o que vem se desenrolando de forma mais clara depois do golpe? Grupos da burguesia em conflito para se manter no poder?

Mas a questão mais interessante destacada por Marx e Engels é: “Em todas essas lutas, [a burguesia] vê-se obrigada a apelar para o proletariado, a solicitar seu auxílio e arrastá-lo assim para o movimento político”.[2] E nesse movimento as classes dominantes fazem de tudo para convencer os trabalhadores, da classe E a C, de que este mundo foi criado para ele, e que é necessário a sua manutenção. Isto é, a manutenção da moral, da religião e de sua justiça.

As camadas médias da sociedade são as que mais contribuem para a manutenção dessa realidade, supostamente amigável a todos, mas que na verdade é incongruente para o trabalhador. Com medo de se proletarizarem, “combatem a burguesia para salvar da ruína sua própria existência como camadas médias”.[3] São reacionárias quando comemoram a prisão de um Joesley Batista ou a de Eduardo Cunha, porque acreditam que esses indivíduos estavam impedindo a realização das mesmas como classes capazes de consumir o que querem. Outros indivíduos virão e serão novamente acusados de corrupção, convocando mais uma vez a classe média a lutar por essa justiça.

Como funciona a ilusão

As condições para a libertação dos operários da sociedade que os oprime estão no fato de reconhecerem que a lógica que a sustenta não foi criada para a sua prosperidade. No mundo atual, a finalidade do trabalho não é gerar riqueza para o trabalhador, mas gerar capital. O trabalhador é forçado a trabalhar não para progredir as condições das coisas que tem acesso imediato, como hospitais, escolas, estradas, etc.. Ele é forçado a trabalhar para melhorar as condições de outro.

O trabalho do trabalhador é útil para pagar a escola particular (quando não na produção, como trabalhador efetivo, no consumo, pagando pelo serviço), não para melhorar a escola pública que fica próxima a sua casa. Serve, também, para pagar as grandes corporações de plano de saúde e hospitais caros, não para melhorar o hospital público da sua vizinhança. O trabalhador, na sociedade burguesa, não percebe que o seu enriquecimento está atrelado ao enriquecimento do burguês, não da sociedade, dos serviços que devem atendê-lo. Que seu trabalho é pago para que compre os produtos que produz, de modo que o patrão nada gasta, já que o salário pago retorna para ele mediante o consumo.

O trabalhador é obrigado a negar a sua realidade, cada vez mais denegrida, e desejar uma outra, isto é, a que não pertence a ele. E negando a vida material que o circunda, é convidado a encará-la com outros olhos. Desta maneira, surge a ideologia do “bem sucedido”, o indivíduo que possui carro novo, plano de saúde e casa própria.

Os trabalhadores que dependem dos serviços públicos, que são diariamente bombardeados por propagandas de plano de saúde, carros e celulares nos intervalos do jogo de futebol ou das novelas que assistem, são convidados a lutar por algo que aumenta a sua exploração. Deste modo, o hospital público é de baixa qualidade para que ele não se contente. No entanto, sem forças para problematizar aquela situação, peleja para arranjar um emprego que pague um plano de saúde, remédio, etc.. E isso serve para todos os setores do serviço público.

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Na sociedade burguesa, não se desenvolveu a ideia de se ter que trabalhar para que haja bons serviços públicos, mas para consumir. O serviço público é visto como o último recurso, e não como o primeiro. A riqueza é pensada de forma particular, jamais de forma coletiva. Essa lógica se sustenta na realidade norte-americana cada vez mais disseminada por aqui após o golpe de 2016.

Tal raciocínio esdrúxulo pariu a baixa classe média, o trabalhador que recebe um pouco melhor, especializado, que não vive tão distante de comunidades, mas que as detesta, enfim, a classe C. Que tem acesso a faculdades particulares que brotam em cada esquina. Que, devido a crise, regride economicamente para a classe D e E, mas que ainda quer pensar como classe média.

Essa classe comprou toda a ideologia moral do trabalho como digno e fonte do enriquecimento. É também ela que sai às ruas levantando cartazes por melhorias na educação e na saúde. Isso ocorre porque para bancar seu estilo de vida cada vez mais caro, acaba sendo sedutora a ideia de não pagar por certos serviços. Continuar tendo carros e celulares, sem se preocupar com educação e saúde seria perfeito. Coitados, meras massa de manobra. Para que o sistema continue a funcionar, é bem melhor para a burguesia que essa classe média induza a luta pelos serviços públicos e não as classes que realmente precisam deles para viver.

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De volta ao Manifesto

Marx e Engels estavam certos ao dizerem que “os proletários nada têm de seu para salvaguardar”, que “suas relações com a mulher e os filhos nada têm de comum com as relações familiares burguesas”; que “as leis, a moral, a religião são para ele [o proletariado] meros preconceitos burgueses, por detrás dos quais se ocultam outros interesses burgueses”.[4] “A cultura, cuja perda o burguês tanto lastima, é para a imensa maioria apenas um adestramento para agir como máquina”, e não é isso que faz a grande indústria do cinema?[5]

E o que falar do direito estabelecido pela burguesia: “vosso direito é apenas a vontade da vossa classe erigida em lei”. Não é assim? O mero fato de o dinheiro ser a condição para se ter acesso à terra não é uma lei que favorece apenas o grupo que dele usufrui? E essa lógica jurídica pode se estender para a educação com o projeto “escola sem partido”, que, por sua vez, tem o objetivo de proibir o pensamento libertário.

Os dois pensadores comunistas destacam que nas relações burguesas “por liberdade compreende-se o livre comércio, a livre compra e venda”[6] e “as ideias de liberdade de consciência e da liberdade de religião foram apenas a expressão do domínio da livre concorrência no campo do saber”.[7] Por isso que quando o mercado se enfraquece, quando a livre concorrência sofre impactos, essas liberdades também enfraquecem. Não é o que vemos hoje?

Os operários se acostumaram com o fato de que as ideias “verdadeiras” são as ideias da classe dominante e, desta forma, são arrastados a agirem em prol delas. Nas escolas, nos bares e nas congregações evangélicas, os assuntos morais conduzem as discussões. Dizem que as redes sociais tiraram ditadores do poder. Lembro aqui da “primavera árabe”. Mas que ideias foram usadas para forjar a liberdade? As redes sociais, pelo menos até o momento que redijo estas linhas, fizeram circular as ideias que mais capital possuem no mercado de ideias. Esse mercado, que exerce uma violência simbólica, impede que as ideias realmente revolucionárias, ou seja, as ideias políticas (desprovidas de capital) que emancipam a classe operária, ganhe espaço. Um mecanismo de dominação não muito diferente do de outrora, porém mais sofisticado.

Desta forma, é preciso lembrar aos operários, principalmente os da classe C, os mais seduzidos pela moral burguesa, que o comunismo não é um sistema moral, mas econômico, no qual o lucro produzido pelo trabalho deve voltar para o trabalhador. O governo pode ser umbanda, gay, pentecostal, heterossexual, tanto faz, o importante é que o lucro produzido pelo trabalho deve retornar ao trabalhador. Não devemos cair nas ilusões burguesas que pretendem nos desviar dessa lógica concreta, que põe fim ao seu sistema de dominação.

Referências

[1] MARX, K. e ENGELS, F. O Manifesto do partido comunista. São Paulo: Martin Claret, 2006. p. 54.

[2] MARX, K. e ENGELS, F. op. cit., p. 54.

[3] Id, p. 55

[4] Id. p. 56.

[5]http://diplomatique.org.br/hollywood-e-a-liberdade-norte-americana/

[6] IMARX, K. e ENGELS, F. op. cit., p. 61.

[7] Id. p. 65.


 

 Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

 

 

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