O colecionador de lembranças sórdidas

Raphael Fagundes
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O colecionador de lembranças sórdidas

Por Raphael Silva Fagundes

Considerações iniciais

Primeiramente, queria dizer que não falar da ascensão de Bolsonaro é não falar de autoritarismo, de ódio, de intolerância religiosa, de racismo, de machismo, homofobiaetc.. (não que o deputado seja tudo isso, mas o seu discurso acaba pordespertar o interesse de alguns grupos que reivindicam tais questões). É repetir os erros da esquerda que se emudeceu perante a ascensão fascista no passado. E,ademais, para aqueles que acham que o deputado faz tudo o que faz apenas para chamar a atenção, quero lembrar que o vilipêndio não é a melhor maneira para lidar com um adolescente rebelde, mas o diálogo.

O novo xodó da burguesia

Uma coisa eu tenho que confessar: Bolsonaro é o maior político do nosso tempo. Ele consegue fazer um trabalhador defender o fim dos seus próprios direitos. “O trabalhador vai ter de escolher menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego”. Um jogo de linguagem que limita as opções de forma aparentemente plausível, claramente ao lado do patrão.

O presidenciável faz exatamente o que os políticos de outrora fizeram: diz-se patriota; que vai pôr fim a corrupção; que tem fé em Deus; que vai fazer exatamente o que os outros políticos não tiveram coragem de fazer; que é renegado pela mídia etc.. Sua astúcia é impressionante, porém simples, porquese apoia em ideias antigas em um mundo onde os políticos buscam se renovar.

O povo brasileiro estava com saudades de um político tradicional destes. Quem não se lembra do moralista Jânio Quadros e da sua vassoura? Do nacionalismo de Médici (“Ame ou deixe-o”)? Além disso, Bolsonaro é um militar. Quer algo mais tradicional que um militar no poder? Muitos se sentem confortáveis em um território familiar, mesmo que seja hostil. É nisso que se fundamenta o medo da mudança.

Sua eloquência é a tradicional retórica que casa os interesses do ouvinte aos do orador, fazendo com que a massa o defenda por identificação e não por compreensão. Deste modo, o orador não engana ninguém, somente induz a pensar de uma determinada forma.Inventa-se uma autenticidade simplesmente por ser comum. E com o apoio da memória coletiva, que muito mais esquece que lembra (quando lembra é atravésdos valores do grupo que pertence), não apresenta nada de novo, apenas o retorno.

Acabou por se tornar o novo xodó da burguesia, pois consegue fazer justamente o que ela quer. Pois ao lado dos militares exalta os patrões de modo a fazer com que o operário esqueça de sua própria condição. Nenhuma fala de Bolsonaro é sobre a melhoria das condições de trabalho, pelo contrário. Doria, Alckmin, ou seja lá quem for, não conseguem ter a lábia que Bolsonaro tem. Não conseguem convencer mais os trabalhadores a se submeterem às ordens do mercado que o famigerado “mito”.

Mais que qualquer candidato de outrora exalta os EUA sem medo, a ponto de se comparar ao presidente Trump, a bater continência a bandeira norte-americana. Nós sabemos da atuação dos EUA na história política brasileira, sobretudo na sua interferência direta no golpe de 1964. Contudo, devemos compreender que a estratégia de se copiar o passado não é uma falta de criatividade, pelo contrário.

Bolsonaro resgata o que há de pior na memória política do brasileiro. Ditadura militar, culto à tortura, defesa do latifúndio, culto ao EUA, dissolução dos direitos trabalhistas, cultivo ao ódio e a violência, moralismo demagógico, etc.. Não existe nada em sua figura que não represente o passado, até a hipocrisia de se dizer patriota sendo entreguista, como diversos membros que apoiaram o golpe de 1964.

Um político desse nível deve ser compreendido como alguém astuto, e não pode ser tratado com desprezo. Sua habilidade está no fato de nada inventar, apenas em ativar o que está adormecido mnemonicamente.É colorindo lembranças sórdidas mediante bravatas tolasreverenciadas por uma cultura imbecilizada que ele vai ganhando espaço.

A memória política

Esse tipo de memória se apoia na memória social e se forma a partir de experiências vividas por determinados grupos sociais, não possuindo um registro textual. Ela reproduz representações e revela aspectos da mentalidade dos indivíduos. Phillipe Joutard demonstra que a característica da memória coletiva é ser transferida por meio oral e popular, enquanto que a memória histórica se movimenta no mundo social de forma escrita e erudita.[1] Ela vive em paralelo ao saber dos livros,geralmente sem um representante, justamente pelo fato de estar espalhada.

Maurice Halbwachs observa que quando há uma crise nas instituições sociais e políticas, a melhor forma de ajudá-las é se aproveitar das tradições.[2] E com a crise atual das instituições detentoras da verdade (jurídicas e culturais), um político que se apodera de uma tradição, de um gigantesco repertório de lembranças entranhadas na memória coletiva das pessoas, não pode ser encarado com desdém.

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É a partir dessa memória que se desabrochauma cultura política popular na qual se reivindica uma autoridade, um vocabulário e uma forma de pensar particular. Se conversarmos com um seguidor de Bolsonaro, este dirá que se você não concorda com o que ele diz, você oué petista ou defensor de vagabundo (quando não as duas coisas). É um vocabulário de uma cultura política enquadrada dentro de valores e normas capazes de invocar determinadas representações de nossa sociedade.[3]

A memória política confronta a realidade jurídica, cultural e política que, por sua vez, pretende silenciar a memória social, produzindo versões do passado em que o cidadão comum não se representa. Desta maneira, indivíduos ou grupos agem estrategicamente trazendo sua memória política para a esfera pública. Contudo, sua finalidade não é a compreensão ou o entendimento, mas o confronto e a rivalidade, ou a influência e a sujeição.[4]

Assim se reconstrói elementos rejeitados pela história oficial (aquela onde uma parcela considerada de indivíduos não se enxerga). A ditadura militar pode ser vista como positiva na memória de grupos que não participaram de movimentos políticos da época, que não tiveram parentes perseguidos etc.. Por que não trazer isto para a discussão política provocando uma atração destes grupos que, por sua vez, são a maioria da população?No entanto, temos que levar em conta que a memória lembra a partir do presente, seleciona fatos através de um ponto de vista, de um interesse. Portanto, ela é por natureza falsificadora.

Essa memória se constitui facilmente pelo discurso. Nosso cérebro é composto por uma maquinaria lógica interna que nos permite fazer uma leitura das coisas construindo um sentido via uma sequência. Cada sujeito possui uma condição interna essencial. No entanto, essa sequência lógica recebe impactos dos “funcionamentos laterais [ideologias, crenças, etc.] que acrescentam interpretações as informações construídas”. Para o analista de discurso Michel Pêcheux, a “condição essencial da produção e interpretação de uma sequência [...] reside de fato na existência de um corpo sócio-histórico de traços discursivos”. Ou seja, a língua permite uma “inscrição de traços linguageiros discursivos, que forma uma memória sócio-histórica”.[5]

Diversos políticos do passado prometeram defender a família e governar em nome dos bons costumes, e muitos grupos formaram seu pensamento político a partir dessas questões. São traços linguageiros que edificam vocabulários e formas específicas de conceber o mundo. Um político que resgata esse discurso, em meio a outras lideranças que não o fazem, sabe que está lançando mão deuma estratégia perspicazpara atrairas pessoas que têm na composição de sua memória política tais elementos.

Considerações finais

Muitos preferem rejeitar a ascensão de Bolsonaro. O desdenho não ajuda a compreender o fenômeno. As esquerdas precisam intervir dialeticamente nessa memória política, jamais menosprezá-la.Desdenhar é fechar os olhos para os aspectos que chamam a atenção de diversos grupos populares. É fazer vista grossa a memória coletiva rejeitada muitas vezes pelo discurso acadêmico visto como o correto, o original. Esse desdém gera ódio, como diz Aristóteles: “são irascíveis e prontos em encolerizarem-se principalmente contra os que tratam com desdém o estado presente em que se encontram”.[6] E são os impulsos que o ódio gera o que faz crescer as fileiras da extrema-direita.

Raphael Silva Fagundes é doutorando em História Política da UERJ e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.


[1] JOUTARD, Philippe. Memoire colletive. BURGUIÈRE, Alain (org.). Dictionnaire des Sciences historiques. Paris: PUF, 1986, p. 448.

[2]HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. Tradução de Beatriz Sidou.  2ª ed. São Paulo: Ed. Centauro, 2013.

[3]BERSTEIN, Serge. A cultura política. RIOUX, J.P.; SIRINELLI, J.F. (Dir.). Para uma História cultural. Lisboa: Editorial Estampa, 1998, p. 353.

[4] LIFSCHITZ, Javier Alejandro. Os agenciamentos da memória política na América Latina. RBSC, v. 29, n. 85, junho, pp. 145-225, 2014. p. 149.

[5] PÊCHEUX, Michel. Leitura e memória: projeto de pesquisa. ____________. Análise de discurso. Campinas, SP: Pontes, 2011. p.146.

[6] ARISTÓTELES, Arte retórica e arte poética. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s/d., p. 119.

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