Tempestade (Geostorm) e o culto reacionário do progresso

Raphael Fagundes
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Tempestade (Geostorm) e o culto reacionário do progresso

Por Raphael Silva Fagundes

Um homem de turbante olha pela janela de um prédio suntuoso em Dubai enquanto uma onda engole a cidade no meio do deserto. O rico empreendedor foi salvo antes que a inundação chegasse até ele, mas as perdas humanas foram gigantescas. O problema de Hollywood é nos trazer temas interessantes e abordá-los de maneira a conservar as relações sociais que sustentam a sua indústria.

Seria surpreendente se nessa cena do filme Tempestade: planeta em fúria (Geostorm), estralado por Gerard Butler, se explorasse o que James O’Connor ainda em 1988 disse: “A maioria dos problemas dos ambientes naturais e sociais são ainda mais urgentes para os pobres, incluídos os trabalhadores ocupados, que para os empregados de ‘colarinho branco’ e os ricos. Em outras palavras, os temas relativos às condições de produção são temas de classe, embora esses sejam mais que questões de classe”.[1]

A degradação do meio ambiente foi abordada pela indústria do entretenimento norte-americana não como uma condição para a acumulação de capital, mas como um fenômeno. Digo isso inclusive para o “meio ambiente construído”, explicitado por David Harvey. É como destaca Elmar Altvater, a natureza é degradada porque ela não consegue reproduzir-se na mesma velocidade do capital, “a desigualdade do regime de tempos em uma dada sociedade é uma das principais razões da destruição ecológica”.[2]

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O colecionador de lembranças sórdidas

A classe C precisa se libertar desse conflito moral

Aos lunáticos detratores da esquerda, vocês são uma farsa!

Quando Marx e Engels falam que os capitalistas assemelham-se a feiticeiros, pois evocam forças infernais as quais não podem controlar, eles se referem às crises do mercado que existem como uma doença crônica do capitalismo, mas também podemos relacionar isso à questão ambiental. Os impactos ambientais provenientes da exploração desencadeiam forças naturais incontroláveis, que podem devastar a humanidade, contudo, no filme, entende-se que se todos nos unirmos pela manutenção desse mundo, tudo dará certo.

Em outra camada do longa, propõe-se que a culpa da reação implacável da natureza não é do capital, mas da ganância de um único homem que quer poder, enfim, tornar-se presidente dos EUA. No entanto, o filme procura deixar claro que um homem desse tipo jamais poderá ser o chefe da maior democracia do mundo.

É impressionante que, na trama, após o problema das variações climáticas ter sido resolvido, as pessoas não mudam os seus hábitos. Isto é, todos se uniram para resolver um problema provocado pelo estilo de vida que levavam, mas sem alterá-lo. Como isso é possível?

Trata-se do que Jean-François Lyotard descreveu sobre a pós-modernidade. Pensar é resolver uma questão prática, que é o mesmo que dizer: ciência é resolver uma questão prática.[3] A tecnologia é novamente invocada para reparar os danos da sociedade, jamais para transformá-la. É o culto reacionário do progresso, pois tem como objetivo manter tudo no mesmo lugar, através de uma ilusão de movimento.

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"O pai solteiro que salva o mundo (que por sinal odeia política) tevea sua presença questionada na nave internacional por ser americano. Mas falar mal dos Estados Unidos significa ser um traidor. O correto é se unir a causa liderada por eles, assim um mexicano faz questão de mostrar que foi ele que salvou os americanos perdidos no espaço"

O pai solteiro que salva o mundo (que por sinal odeia política) teve a sua presença questionada na nave internacional por ser americano. Mas falar mal dos Estados Unidos significa ser um traidor. O correto é se unir a causa liderada por eles, assim um mexicano faz questão de mostrar que foi ele que salvou os americanos perdidos no espaço.

A própria nacionalidade dúbia dos protagonistas é interessante, pois a ideia é pôr fim aos conflitos de nações e classes, suprimi-los em prol de uma luta contra o que a sociedade industrial produziu de danoso. É a Terceira Via, ideologia presente em todos os filmes americanos que tratam sobre tragédias em escala global. Uma ideologia cuja prova de que é uma farsa pode ser encontrada na realidade. Quando as cidades chinesas ficam insuportáveis devido à poluição do ar, muitos precisam ir para o campo em busca de ar puro. No entanto, “este contexto fez aparecer claramente a separação de classes: antes que a névoa não chegasse a fechar os aeroportos, somente aqueles que possuíam os meios de comprar um bilhete de avião puderam deixar as cidades”.[4]

É possível interpretar que olhar desesperado do homem de turbante quisesse dizer: “Olha só o que eu fiz, preciso mudar minha procedência”. É uma maneira de Hollywood salvar as classes mais poluidoras do mundo. Um socialismo burguês hollywoodiano que passa a ideia de que um dia as classes dominantes irão se compadecer com as agonias populares.

Marx e Engels dizem que esse socialismo conservador é mera “figura de retórica” que “deseja remediar os males sociais para garantir a existência da sociedade burguesa”, “querem as condições de vida da sociedade moderna sem as lutas e os perigos que delas necessariamente decorrem”. Uma ilusão bem articulada que procura “fazer a classe operária perder o gosto por todo movimento revolucionário”. É essa lógica ridícula que vemos com frequência nas telas de cinema e nas interpretações interesseiras da esquerda ambientalista de Hollywood.

Referências

[1] Apud. ALTVATER, Elmar. Existe um marxismo ecológico? In: BORON, Atilio; AMADEO, Javier; GONZÁLEZ, Sabrina (orgs.). A teoria marxista hoje: problemas e perspectivas. Trad. Simone R. da Silva e Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

[2]Id. p, 344.

[3] LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009. p. XV.

 Raphael Silva Fagundes é doutorando em História Política da UERJ e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

 

 

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