Entre Lulas, Moros e Bolsonaros: a mídia e a manipulação do pensamento político

Raphael Fagundes
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Entre Lulas, Moros e Bolsonaros: a mídia e a manipulação do pensamento político

Por Raphael Silva Fagundes

É impressionante como a mídia forja uma maneira conveniente de ver o mundo político. Os episódios que marcaram as manifestações políticas populares da semana passada resumem-se ao protagonismo de duas mulheres. A primeira, filiada ao PT de Santa Catarina desde 2002 [1], na quarta-feira, filma o senador Romero Jucá e o acusa de defensor de canalhas e de promover o “grande acordo nacional” que tirou a presidente Dilma Rousseff, agenciou as reformas, o congelamento dos gastos públicos etc.. A segunda, na quinta-feira, ativista do movimento pró-impeachment, Nas Ruas, recebeu voz de prisão do deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) por acusá-lo de “estar roubando”.

A cadeia de fatos é elucidativa. Em um dia uma ação do lado petista, no outro uma dos antipetistas. No fim, os dois se coadunam na Lava Jato, pois Jucá é acusado de “estancar a sangria” das investigações, enquanto Pimenta é aquele que tem medo de Moro. A segunda manifestação parece ter sido uma resposta a primeira, como quem pensa: “Precisamos mostrar que também estamos em serviço”. E tudo isso salta das redes sociais para os sites dos jornais de maior circulação do Brasil.

É simplesmente ridículo. A mídia sustenta esse conflito porque sabe que ele é superficial e porque promove uma confusão em dois conceitos básicos da política: estabilidade e mudança. Até a Revolução Francesa, a ideia de “mudança” no sentido do livro V da Política aristotélica, ou seja, da passagem de uma forma de governo para outra, era considerada um mal. No entanto, na era das Revoluções esse conceito passou a adquirir um valor positivo, e se começa, a partir de então, a “ver na mudança o início de uma nova era”.[2] A estabilidade passou a ser negativa e a mudança a nova moda política.

Assim, o principal argumento utilizado pelos grupos que se voltaram contra a Dilma foi o da mudança. As notícias de que Temer iria promover mudanças eram fortes no início, mas, em seguida, após seu estabelecimento no poder, a palavra “reforma”começou a entrar em vigor. No entanto, ambas adquirem um mesmo sentido na mentalidade política do cidadão comum.

Na verdade, ninguém propõe uma mudança efetiva. E a mídia, ligada aos interesses dos grandes investidores, inventa, por meio de um inebriante espetáculo, um “aprofundamento do antagonismo entre os que querem e os que não querem a mudança”. Os petistas se defendem afirmando que a verdadeira mudança era os progressos realizados nos últimos doze anos, já os não-petistas (que abrange o grupo do PSDB e a extrema direita) acreditam que a mudança ou são as reformas, ou o fim da corrupção.

Os dois pólos defendem a manutenção do mercado como gestor da economia, o que nos comprova que o que vivenciamos não passa de uma briga entre neoliberais. Não há nenhuma proposta de mudança, pelo menos em relação a política econômica implantada no Brasil desde o governo de FHC. No entanto, como diz o saudoso Paulo Freire, educador que refletiu sobre a mudança, “na medida em que este organismo [esse conflito entre mudança e estabilidade] cresce, se instaura um clima de ‘irracionalidade’, que gera novos mitos auxiliares para a manutenção do status quo”.[3] E assim vivemos entre Lulas, Moros e Bolsonaros.

Pensar como classe

Só há uma maneira de nos libertar dessa dimensão que a mídia nos jogou: deixarmos de pensar como povo e passarmos a pensar como classe. O modelo democrático ocidental, inspirado nos EUA e na França, criou “uma cidadania passiva, uma coleção de cidadãos – ‘o povo’ – concebido como um massa de indivíduos atomizados [...] e isolados com uma identidade política divorciada de suas condições sociais, especialmente no que se refere a seu pertencimento de classe”, destaca a cientista política Ellen M. Wood.[4]

Desta maneira, as classes dominantes se misturam aos membros das classes desprivilegiadas colocando os seus interesses como carro chefe da mudança. Ingenuamente nos empenhamos na mudança das partes sem nem mesmo questionar a totalidade. As classes dominantes apresentam os seus artistas e jornalistas para nos dizer sobre racismo, sexismo e liberdade religiosa propondo, assim, uma harmonia entre as “raças”, gêneros e religiões porque sabem que a luta de classes não é uma busca por harmonia, mas pela queda violenta da classe exploradora. Há um temor da burguesia (que se vê como classe) em assistir a transformação das massas em classe para si. Por isso manipulam a educação e calam os movimentos sociais classistas.

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As classes dominantes impõem uma visão de mundo para que as classes oprimidas não façam uma reflexão autônoma de sua realidade objetiva. Para que não percebam que a amargura de suas vidas nada tem que ver com os interesses dominantes. Que suas necessidades estão para além de PT, Moro ou da liberação do porte de armas para o cidadão de bem. Que o racismo sofrido pela diarista que pega um ônibus lotado para ir trabalhar em nada se assemelha com o racismo sofrido por uma pop star. As classes dominantes preferem ter Lula ou Bolsonaro como inimigos a ver os trabalhadores organizados enquanto classe.

Já disse Noam Chomsky: “Há muitas divisões na sociedade atual - religiosa, de todo tipo. Mas a divisão fundamental é a divisão de classes, e uma das razões para a raiva que vemos hoje no mundo se dá porque nenhuma instituição e nenhum partido político está realmente representando os interesses da classe que representa grande parte da força de trabalho”.[5]

Far-se-á de tudo para desviar a nossa atenção desse fato, enquanto isso novas crises virão, centenas de explicações para elas serão forjadas, mas nenhuma irá atingir o cerne da questão: a necessidade da verdadeira mudança que é a suplantação do sistema.

Referências

[1] http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,autora-do-video-afirma-que-juca-tentou-desmoraliza-la-a-chamando-de-petista,70002103276

[2]BOBBIO, Norberto. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007. p. 65.

[3] FREIRE, Paulo. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 54.

[4]WOOD, Ellen M. Estado, democracia e globalização. In: BORON, Atilio; AMADEO, Javier; GONZÁLEZ, Sabrina (orgs.). A teoria marxista hoje: problemas e perspectivas. Trad. Simone R. da Silva e Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007, p. 389.

[5]http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39901537


 

♦ Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

 

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