Vida de solteiro(a): o consumidor ideal

Raphael Fagundes
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Vida de solteiro(a): o consumidor ideal

Por Raphael Silva Fagundes

O medo da morte sempre foi uma questão para a humanidade. Fez o ser humano ter cultura, definitivamente. Sendo assim, ele criou entidades capazes de lhe assegurar a vida, a eternidade. Fazer parte de uma nação ou de uma família “são soluções coletivas para os tormentos da mortalidade individual”, pois tratam de “uma entidade anterior à minha vida e que sobreviverá a mim, por mais que eu viva; é essa contribuição que confere um papel imortal à vida mortal”[1], escreveu o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

No entanto, essas “soluções coletivas” esbarram-se com o tipo de liberdade que cultuamos hoje. Antes, a liberdade – no sentido iluminista – seria algo conquistado por meio do conhecimento, da educação assegurada pelo Estado. Hoje, ela significa não se estar submetido a nenhuma autoridade política. E a partir daí, essa interpretação se alastra para as diversas dimensões da autoridade e do poder. A rebeldia punk passou a fazer parte de cada um de nós.

Essa concepção de liberdade abriu espaço para a glorificação do poder econômico. O mercado se impõe soberanamente isento de poder. Ele se coloca como o lugar onde tudo se consegue. Não há o controle da política e o que se conquista é proveniente do esforço individual.[2] O poder econômico torna-se, assim, atraente, sedutor... O esforço individual, trabalhar, ter, comprar, etc., passaram a ser as “soluções individuais” para o problema da mortalidade. Conduz a pulsão de morte, isto é, o excesso de vida.

Assim, a figura central dessa modernidade é o solteiro(a). O gastar sem compromisso. “A mobilidade profissional e a tendência à vida de solteiro já foram cimentadas. As moradias tornam-se cada vez menores. Elas passam a ser talhadas à medida da mobilidade familiar individual. Continua completamente excluída do planejamento de apartamentos, casa e conjuntos habitacionais a possibilidade de que famílias possam querer morar e mudar-se juntas”, constata o sociólogo Ulrich Beck.[3]

O indivíduo que cultua a sua liberdade sexual, a vida de solteiro, acredita que está prezando por sua liberdade, mas, na verdade, foi empurrado para essa situação por diversos fatores sociológicos dos quais o mercado se aproveita e amplia sua fortuna.

O solteiro(a) é o mais importante consumidor, pois se dedica muito mais ao trabalho porque seus gastos são canalizados para sustentar o prazer individual, narcisista. Junta dinheiro para viajar e morar de aluguel em apartamentos minúsculos dos centros urbanos. O trabalho alienado não pertence mais exclusivamente ao operário que trabalha para sustentar a sua família.

“O sonho só se torna possível quando se é solteiro(a)”.Isso poderia ser um slogan.Mas será que realmente os frutos do seu trabalho não são canalizados para algo externo a ele, obrigatório, como sustentar um filho por exemplo? Essa ideia não passa de uma ilusão de liberdade que se apresenta como prazer. O poder simbólico funciona desse jeito, faz você agir exatamente como ele quer que você aja sem que você tenha ideia de que está sendo controlado.

O solteiro(a) não pode ser mais comparado a Odradek, o objeto de madeira que se aparenta com um carretel no conto “As tribulações de um pai de família” de Kafka. Roberto Schwarz interpreta Odradek como um contraponto ao pai de família, pois o objeto de vida autônoma não possui compromisso, tem a sua finalidade em si mesmo, vive em qualquer lugar, não precisa trabalhar para sustentar ninguém, enfim, “a construção lógica e estrita da negação da vida burguesa”. Odradek é um pedaço de madeira livre que se tornou uma tentação para o pai de família.

Não, o solteiro(a) não é mais uma anomalia da ordem burguesa, nem mesmo uma negação, pelo contrário, ele se tornou fundamental, um consumidor em potencial que, em muitos casos, gasta bem mais que uma família nuclear.

O prazer manipulado

Ser solteiro(a) é a melhor forma para se desfrutar o prazer da vida!Não há como negar. Mas tudo se parece um pouco com aquele traidor do filme Matrix. Ele preferiu o prazer da ilusão virtual a Verdade.

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A política da jouissance, ou seja, a biopolítica pautada no estímulo do gozo, é fascinada pelo “estresse”. Evitar “situações estressantes, como ‘lidar’ com elas” é a grande questão. Assim, o prazer passa a ser um “instrumento de manipulação e sedução”.[4] E, sendo solteiro(a), “evita-se” uma série de coisas.

Essa política do jouissance alicia, controla e regula o prazer. As pessoas não querem ter filhos porque atrapalham o sono, querem gastar em noitadas e não dar satisfação a ninguém. O mercado diz: faça isso, mas não esqueça o seu cartão de crédito! Um prazer imperativo. Ele controla o prazer e como se deve gozar, e ainda fornece os mecanismos necessários para o funcionamento da satisfação. O prazer permitido transforma-se na jouissance obrigatória. A vida de casado se desgasta – embora ainda tenha suas utilidades para o mercado – e vai cedendo o seu lugar para a sensual vida de solteiro(a).

Ao ser forçado a gozar excessivamente, explorar todas as formas de jouissance possíveis, somos obrigados a nos submeter ao controle. O Vazio é a estrutura de todo esse prazer. Somos bombardeados sem parar pelas provocações do gozo comercializado que “nos empurra exatamente para uma jouissance ‘associal’, autista-masturbatória”.[5] A busca pelo prazer da geração rebelde de 1968 passou a ser lucrativa para o mercado dos dias de hoje. Acaba que, no fim das contas, tudo é político, e o que não parece ser o é por excelência.


Raphael Silva Fagundes é doutorando em História Política da UERJ e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.


[1] BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política. Trad. Mauro Gama e Cláudia M. Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p. 45.

[2] Id. p. 78.

[3] BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: Editora 34, 2011, p.187.

[4] ZIZEK, Slavoj. A Visão em Paralaxe. Trad: Maria Beatriz Medina. São Paulo: Boitempo, 2008. p. 409.

[5] Id. p. 410.

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