Todos querem Bolsonaro: a utilidade de um fantoche radical

Raphael Fagundes
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Todos querem Bolsonaro: a utilidade de um fantoche radical

Por Raphael Silva Fagundes

A direita, que sempre esteve no poder, nunca viu uma oportunidade tão clara para retornar ao cargo de presidente da República por meio das eleições. Se Luis Inácio Lula da Silva se tornar inelegível, será difícil evitar a concretização desse projeto iniciado em 2014.

Esta direita, controlada por banqueiros e outros investidores, se esconde por trás do código “Centro”. Exatamente como Macron nas eleições francesas do ano passado. E com essa nomenclatura, aparece um Rodrigo Maia, um Henrique Meirelles e não duvido muito que Luciano Huck também a adote. Ninguém quer perder essa oportunidade. Já estou vendo a retórica de Índio da Costa, quando candidato a prefeitura do Rio de Janeiro em 2016, sendo balbuciada pelos golpistas sedentos pelo poder: “Nem de esquerda e nem de direita”. Aliás, o próprio Macron usou desse lugar comum em sua candidatura, afirmando que deu uma nova cara a política francesa.

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A política tem que ser pensada através das artimanhas, estratégias e inspirações que conduzem as tomadas de decisão. O nosso cenário foi forçado a se parecer ao cenário francês do ano passado. Caso Lula se torne inelegível, qualquer um anseia concorrer com um Bolsonaro, candidato da extrema direita, no segundo turno. Sem dúvida, o polêmico pré-candidato à presidência é o único que não é capaz de ganhar, contudo tem seu lugar no segundo turno reservado.

O golpe desenvolveu um ódio contra o PT. E o maior fomentador desse ódio foi a extrema direita, representada pelos seguidores do deputado federal e pelos militantes do MBL. As esquerdas, por sua vez, que acreditam que o Lula seja o único candidato capaz de recuperar o Brasil, retrucam o ódio ao deputado federal. Travou-se uma disputa entre quem expele a maior quantidade de espuma pela boca. Mas, depois de tudo, o ex-presidente está disparado na frente nas pesquisas de intenção de voto com cerca de 30%. Seria possível, depois de toda essa divergência e ódio criado mutuamente, que um eleitor de Lula votasse em Bolsonaro caso o primeiro fosse impedido de se candidatar?

O fim de um fantoche radical

Os 30% de intenção de voto ficará nas mãos do candidato que se opuser ao famigerado “mito”. É muito provável que quem chegar ao segundo turno, e vir a disputar com Bolsonaro, seja o vencedor da corrida ao cargo de presidente da República. Por isso vemos a direita agitada, apresentando uma série de pré-candidatos e Rodrigo Maia a ver “uma avenida aberta”.

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Na França, aconteceu que o candidato da esquerda, Jean-Luc Mélenchon, acabou por pedir que não votassem em Marie Le Pen no segundo turno.[1] Diversos jornais da esquerda disseram o mesmo, e muitos apoiaram de forma mais clara Macron, o candidato de centro. Falava-se sobre o risco do aprisionamento de judeus e do afogamento de migrantes, da perseguição policial de refugiados, até que votar em Le Pen é o mesmo que ser cúmplice da chegada de Hitler ao poder.[2] Sendo assim, por falta de opção, o interesse dos banqueiros foi novamente assegurado.

Não se pode negar a proximidade que há do discurso de Le Pen com o discurso nazista, assim como o fato de o discurso de Bolsonaro se aproximar ao dela. Inclusive, à época, Bolsonaro chegou a se manifestar à favor da candidata francesa. Sem dúvida, Macron é “menos ruim” que Le Pen. O problema é a sinuca de bico criada no campo político por aqueles que realmente controlam o poder. Prender Lula – o que de fato transformará as eleições em uma fraude – obrigará a imensa multidão que deposita nele confiança, a votar em um candidato de direita transvertido em “centro”, que sem dúvida vencerá as eleições.

Há agora um forte movimento da mídia para enfraquecer a imagem de Jair Bolsonaro. A sua função de algoz do petismo, da esquerda em geral, já deu.O mercado não quer mais ninguém brincando de mau.O fantoche radical, útil para denegrir a imagem do PT, em um primeiro momento, já não serve mais. A depreciação que se faz hoje de Bolsonaro, não é para tirar dele os seus eleitores (se isso acontecer, melhor ainda para o projeto “centrista”), e sim para convencer ainda mais os eleitores de Lula, caso este não venha como candidato, a não votarem, definitivamente, no (desculpem-me pela reprodução do ridículo) “Trump brasileiro”.

Também há outro cenário que pode surgir, caso Lula não seja condenado. Todos sabem, inclusive o próprio Lula, que se houver uma disputa com Bolsonaro, no segundo turno, a vitória é certa. Nesse caso, a direita se articulará para pôr na disputa um candidato “centrista” que, certamente,terá o apoio de Bolsonaro, como aconteceu no Rio de Janeiro, onde a vitória de Crivella teve apoio de Flávio Bolsonaro no segundo turno contra Marcelo Freixo.

 Não foi possível acabar com Lula como queriam, embora tenha havido um enfraquecimento da esquerda e do próprio PT, como vimos nas eleições regionais de2016. Sendo assim, a única solução será julgá-lo e incapacitá-lo de concorrer às eleições presidenciais. Se tudo seguir do jeito planejado pelos investidores, a manutenção do governo golpista estará assegurada com a vitória de algum candidato “centrista”.

Por outro lado, a esquerda também está apresentando os seus pré-candidatos, como Boulous, Manuela D'Avila, Ciro Gomes etc.. Isso será bom se Lula se manter na disputa, pois,caso chegue ao segundo turno com os 30% , irá manter a disputa no páreo com o apoio dos candidatos “derrotados”. Vamos esperar o desenrolar de 2018 para vermos onde tudo isso vai dar.


 

Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

 

[1]https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-na-franca/2017/noticia/lider-da-esquerda-radical-francesa-se-posiciona-contra-voto-em-le-pen.ghtml

[2]https://diplomatique.org.br/eleicoes-tiram-a-mascara-da-midia-francesa/

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