“Vai trabalhar vagabundo!”: a estupidez de um lugar comum

Raphael Fagundes
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“Vai trabalhar vagabundo!”: a estupidez de um lugar comum

Por Raphael Silva Fagundes

Se eu passasse grande parte da minha vida lendo, como um verdadeiro devorador de livros, mas sem nenhum retorno financeiro por tal atividade, apenas como um mero lazer, um hobby, haveria pessoas que torceriam o nariz e diriam, murmurando pelas sombras ou através de uma soez soberba, que é pura perda de tempo. Um delírio caprichoso de uma frivolidade luxuosa. Se eu me dedicasse a algum instrumento musical, montasse uma banda, mas sem receber nenhum dinheiro por isso, muitos olhariam para mim como um inútil.

 

Isso aconteceria principalmente se eu não dispusesse de um emprego capaz de me sustentar. Ou, até mesmo, quando se tem um emprego, mas alguém, “mais bem sucedido”, que adora vender seus conselhos, aparece para dizer o que é certo e o que é errado.

 

A questão é – e todos que inalam o ar desse tempo e que se arranham para encontrar um espaço nessa época sabem – que se essas atividades me trouxessem dinheiro, a história mudaria. Todos passariam a me ver como alguém que conseguiu conquistar o sonho através do esforço, o cara bem-sucedido, etc..

 

Não adianta ser um sábio se você não converte o seu conhecimento em dinheiro. Não adianta ser um músico exímio se você não transforma suas notas musicais em cédulas. Se um adolescente, malvisto pela sociedade e por seus próprios pais por jogar videogame boa parte de seu tempo, se tornasse um programador ou um consultor, ou até mesmo um gamer tester da Ubisoft ou da Eletronic Arts[1], o veriam de outra maneira. No ruim de tudo, um excêntrico, um heteróclito da pós-modernidade cibernética. Por que isso acontece?

 

De acordo com o sociólogo francês Bernard Friot, o capitalismo “identifica a produção apenas com as atividades realizadas dentro de um enquadramento de subordinação a um empregador proprietário do instrumento de trabalho, em vista da valoração de um capital”. Ou seja, o trabalho deve estar subordinado ao capital.

 

Portanto, “aqueles que determinam se tal ou tal atividade constituem ou não um trabalho detêm o poder sobre a produção”. Como aqueles que determinam se tal ou tal ação é uma violência detêm o poder de dizer que vivemos em paz. Desta forma, a “classe dirigente tira seu poder apenas do controle do trabalho”.[2]

 

Marshall Berman, analisando o Manifesto comunista, observa que o problema do capitalismo é o fato dele forçar “o autodesenvolvimento de todos, mas as pessoas só podem desenvolver-se de maneira restrita e distorcida”: “tudo o mais, em nós, tudo o mais que não é atraente para o mercado é reprimido de maneira drástica, ou se deteriora por falta de uso, ou nunca tem uma chance real de se manifestar”.[3]

 

Desta maneira, somos forçados a trabalhar para sustentar as nossas virtudes, pois quando não são capazes de serem sustentadas, tornam-se vícios. É escusado ter talento se este não gerar dinheiro. Um cientista que desenvolve uma pesquisa extraordinária, jamais será reconhecido ou ganhará o prêmio Nobel se seu empreendimento não gerar lucro. Assim, o desenvolvimento torna-se restrito e distorcido.

 

Uma ideologia do trabalho alienado

 

Essa é a origem de todo o trabalho alienado. Existem aqueles que chamam vulgarmente de “vagabundo” o indivíduo que não quer se entregar as múltiplas formas de trabalhos manuais que fazem parte das ruas e dos micro-espaços urbanos e rurais.E dizem isso em uma euforia que se equipara à alacridade bizarra de um genocida que se delicia com o pranto dos aldeões indefesos, condenados à morte.

 

Essa ideia do pobre fraudulento e trapaceiro que não quer trabalhar é medieval, diga-se de passagem. “Está desempregado? Então vá vender bala no trem, vá capinar, vá ser diarista, por que não?”. Quem nunca se esbarrou com esses lugares comuns dos intérpretes e conselheiros populares? Argumento típico da “nova” classe média que de novo não tem nada. Por que ninguém pensa na capacidade que o indivíduo tem para desenvolver suas habilidades, seus dons?Se entendermos o mundo como algo dado, e não como uma construção daqueles que detêm o poder, aceitaremos para sempre a ideia de que a realidade não permite escolhas...

 

Só haverá trabalho honesto quando este for livre

 

A palavra “vagabundo” não se refere àquele que não trabalha, mas àquele que não consegue se sustentar de forma “justa” (isto é, o que o modo de produção que ele pertence entende como justo). Na Idade Média, trabalhar era visto como algo negativo. O nobre, por exemplo, não devia trabalhar, todavia, o pobre (servo) que não trabalhasse, era visto como vagabundo. O pobre que usava da mentira, da fraude, do charlatanismo etc. para não trabalhar, era igualmente visto como vagabundo.[4]A noção de trabalho se transformou profundamente com a ascensão da burguesia, mas a mentalidade de que somente o pobre que não trabalha é vagabundo se manteve, tornando-se útil à ideologia do trabalho moldado pela própria burguesia, por meio da qual sustenta o seu ócio e sua riqueza.

 

O que vemos hoje, é o indivíduo, obrigado a vender bala no trem ou no sinal, sendo banido de desenvolver suas habilidades no mercado de trabalho. Porque suas habilidades não devem ter um fim nele, mas externo, isto é, para o enriquecimento do mundo burguês. Karl Marx pensava em um tipo de sociedade em que os seres humanos pudessem desenvolver livremente suas energias físicas e mentais. Em A ideologia alemã, afirmava, ao lado de Engels, que o objetivo do comunismo é “o desenvolvimento de toda capacidade dos indivíduos enquanto tais”. Coisa que o capitalismo não permite, já que as capacidades humanas só contam quando transformadas em mercadorias.

 

Na sociedade comunista, o trabalhador deve pensar no trabalho, não como um meio pelo qual consegue prover o sustento, mas como uma força que gera consequências em sua comunidade. Ele será por natureza ecologista, pois se interessará por todo o processo de produção;será por natureza feminista, porque a mulher, assim como o homem, poderá trabalhar no que quiser porque será livre. Não haverá uma diferença de saláriodevido ao fator gênero, porque o ser é o que faz.

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É preciso mudar a mentalidade. Precisamos compreender o outro pelo o que faz e não por quanto ganha. Além de valorizarmos o ser, a sua identidade, devemos estimular o fazer, porque o ser humano se realiza na práxis. Mas a sociedade capitalista não permite que eu me realize no que faço, porque  escravo do salário sou.

 

Trabalhando no que realmente gosta, o produto do trabalho será, inevitavelmente, algo belo, de modo algum deformado, distorcido. O trabalhador se autodesenvolveria e o seu desenvolvimento individual seria o desenvolvimento de todos. Porque é “somente em comunidade com os demais que cada indivíduo consegue os meios para cultivar seus próprios dons em todas as direções; só em comunidade, portanto, é possível a liberdade pessoal”.

 

É assim que o trabalho e o autodesenvolvimento do indivíduo “poderá prosseguir livre e espontaneamente; em vez do pesadelo em que foi transformado pela sociedade burguesa”, podendo assim, “tornar-se fonte de alegria e beleza para todos”.[5]

 

Perspectivas

 

O sociólogo Zygmunt Bauman defendia a renda mínima porque somente com o fim do medo de não conseguir garantir a própria existência, seria possível restabelecer a Ágora, isto é, o interesse pelo debate público. Enquanto as pessoas tiverem que fazer de tudo para sobreviver (há, inclusive, indivíduos que passam por situações humilhantes no ambiente de trabalho), ainda haverá tal dificuldade. A mente atribulada pela necessidade de garantir o alimento, a preocupação com as contas, etc. ocupam todo o espaço de um cérebro capaz de reflexões múltiplas. A cidadania só seria de fato conquistada quando todos tivessem o básico assegurado, o que daria às pessoas a liberdade de pensar e o tempo livre para debater e questionar.[6]

 

Acredito que a renda mínima não deveria ser em dinheiro, mas em acessibilidade. O retorno ao trabalhador do que foi transformado em lucro pelo empresário deve ser feito através do acesso a hospitais públicos e escolas, saneamento básico, alimentação e moradia. Se todos tivessem apenas isso, a possibilidade de desenvolver seus dons, sem ter que se submeter a um trabalho que os atravanca, seria bem maior.

 

A que níveis tecnológicos e humanísticos chegaríamos se todos trabalhassem no que sempre sonharam?Naquilo que realmente possuem aptidão para realizar? Em atividades que despertassem no trabalhador prazer antes mesmo de receber o salário? Não sendo apenas máquinas que trabalham em troca de pão? Isso só seria possível se não houvesse ameaça ao projeto socialista, bloqueios ou invasões. É possível que a palavra trabalho fosse substituída por outra, já que sua origem está relacionada ao termo latino tripalium, instrumento de tortura, um tipo de ferramenta “feita de três paus aguçados algumas vezes ainda munidos de pontas de ferro, nas quais agricultores bateriam o trigo, as espigas de milho, o linho, para rasgá-los e esfiapá-los”.[7]


 

Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.


[1]http://br.ign.com/brasil/2197/news/ea-abre-vaga-para-brasileiros-que-desejam-testar-jogos

 

[2] FRIOT, Bernard. Chaga de lutas defensivas. Le monde diplomatique Brasil, ano 11, n. 125, pp. 28-29, dez de 2017. p. 28.

 

[3] BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: aventura da modernidade. São Paulo: Cia das letras, 1986, p. 110.

[4] GEREMEK, B. Os filhos de Caim: vagabundos e miseráveis na literatura européia 1400-1700. São Paulo: Cia das Letras, 1995, p. 54.

 

[5]BERMAN, Marshall. op. cit. p. 111.

 

[6] BAUMAN, Zygmunt Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar, 1999. p. 185.

 

[7] ALBORNOZ, S. O que é trabalho? São Paulo: Ed. Brasiliense, 1994. p. 10.

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