Chamas da Revolução

Conteúdo Especial
Typography

 

Estopim das greves de 1917, a luta das soviéticas possibilitou conquistas históricas para as mulheres trabalhadoras e experiências que nunca mais se repetiram

Por Lu Sudré
Caros Amigos

“Para a Grande revolução de Outubro, quem foram elas? Indivíduos? Não, uma massa, dezenas, centenas de milhares de heroínas anônimas que caminharam lado a lado com operários e camponeses em nome da bandeira vermelha, com o lema dos sovietes, através das ruínas do odioso passado religioso e tsarista em direção a um novo futuro”, registrou a revolucionária Aleksandra Kollontai, em seu escrito As combatentes do dia do Grande Outubro, de 1927.

A fome, a miséria e as extremamente precárias condições de trabalho, potencializaram a organização das operárias e camponesas, que se tornaram força motriz das primeiras greves e marchas que culminaram nas Revoluções de Fevereiro e Outubro.

Por “Pão e paz”, no Dia Internacional das Mulheres de 1917 — 8 de março no calendário ocidental e 23 de fevereiro no calendário russo — mulheres tecelãs e mulheres familiares de soldados do exército saíram às ruas de Petrogrado (São Petersburgo) e, de fábrica em fábrica, convocaram o operariado russo contra o czarismo e pelo fim da participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial. A revolta se estendeu por vários dias, ganhando cada vez mais um caráter de greve geral e de luta política, que eliminou a autocracia russa e possibilitou a chegada dos bolcheviques ao poder.

Leia mais:

Edição Especial - Revolução Russa (1917 - 2017)

Livro aborda o feminismo revolucionário da Rússia soviética

Revolução Russa: assim tudo começou

A importância das mulheres para a Revolução também foi registrada na obra A história da Revolução Russa (1930), na qual León Trotsky relata que até mesmo os bolcheviques foram pegos de surpresa pela insurgência do mulherio russo. Na véspera do dia 23 de fevereiro, os círculos sociais-democratas pretendiam organizar eventos tradicionais como reuniões, discursos e manifestos para comemorar o Dia da Mulher, mas as mulheres da indústria têxtil “ultrapassaram a resistência de suas próprias organizações revolucionárias” e desafiaram as análises de que ainda não era o momento para iniciar uma grande mobilização. Mas, ao tratar-se de uma greve de massas, não havia outra opção para as lideranças políticas a não ser aderir à greve.

“Ninguém supunha que o dia 23 de fevereiro marcaria o início de um assalto decisivo contra o absolutismo. Nem uma só organização chamou greves naquele dia. Apesar disso, na manhã seguinte, as operárias têxteis em várias fábricas saíram em greve e enviaram delegadas aos metalúrgicos, pedindo apoio. Os bolcheviques concordaram. Então foi fato: as mulheres trabalhadoras foram a faísca da revolução. (...) O Dia da Mulher foi bem-sucedido, cheio de entusiasmo e sem vítimas. Anoitecera e nada revelava ainda o que esse dia trazia em suas entranhas”, escreveu o revolucionário bolchevique e dirigente do Exército Vermelho.

Ao passo que nomes como os de Vladimir Lênin, León Trotsky e Josef Stálin são imediatamente associados à Revolução Russa, personagens importantes como a já citada Aleksandra Kollontai, única mulher eleita para o Comitê Central em 1917, Nadezhda Krupskaya, Inessa Armand, Anna Kalmánovitch, Maria Pokróvskaia, Olga Chapír e Elena Kuvchínskaia, entre outras, não são lembradas.

Em entrevista publicada na edição especial de Caros Amigos sobre o centenário da Revolução Russa, a historiadora estadunidense Wendy Goldman, autora do livro Mulher, Estado e Revolução, falou sobre os avanços históricos conquistados pelas feministas soviéticas e ressaltou a importância do protagonismo feminino na Revolução. 

"A experiência passada das mulheres trabalhadoras e camponesas nos deixaram lições e, talvez, com essas lições, possamos fazer melhor no futuro", afirmou Goldman. Saiba mais sobre a edição temática, que está nas bancas e loja virtual, aqui

Confira trechos exclusivos.

Caros Amigos: Como a Revolução Russa mudou a vida da mulher soviética?

Wendy Goldman: A Revolução Russa em outubro de 1917 trouxe mudanças enormes para a vida das mulheres e dos homens. Um dos primeiros atos do novo governo soviético foi criar o casamento civil e estabelecer o direito ao divórcio, sem nenhum motivo necessário. Até 1917, o Direito da Família era controlado por autoridades religiosas: ortodoxos russos, judeus e muçulmanos. Para a grande maioria das pessoas, isso significava que a Igreja Ortodoxa Russa controlava o casamento, o divórcio, a custódia da criança e as relações entre marido e mulher.

A lei religiosa era muito patriarcal: uma mulher não podia obter educação, abrir um negócio, mudar sua residência ou viajar sem o consentimento de seu marido ou pai. O divórcio era quase impossível de obter, mesmo que um marido fosse abusivo ou um bêbado. Se uma mulher havia deixado seu marido, ela perdia todos os direitos sobre seus filhos. As mulheres foram obrigadas a "obedecer" seus maridos em todos os assuntos.

"O Código da Família de 1918 acabou com séculos de controle patriarcal. Estabeleceu o casamento civil e o direito ao divórcio, deu às mulheres direitos iguais aos homens"

O Código da Família de 1918 acabou com séculos de controle patriarcal. Estabeleceu o casamento civil e o direito ao divórcio, deu às mulheres direitos iguais aos homens. Também aboliu a idéia de "ilegitimidade" para as crianças. Todas as crianças tinham direito ao apoio parental, mesmo se nascessem dentro ou fora de um casamento civil registrado. Elas eram iguais e tinham direito os mesmos direitos.

As novas leis também permitiram às mulheres o direito de serem totalmente independentes. Foi a legislação familiar mais radical do mundo em termos de reconhecimento dos direitos das mulheres. Em 1920, a União Soviética também se tornou o primeiro país do mundo a legalizar o aborto. A partir de então, as mulheres poderiam receber abortos livres e legais nos hospitais, realizados por médicos em condições higiênicas.

PUBLICIDADE

Como se deu a criação do Código da Nova Família na Rússia em 1926?

Em 1926, os juristas redigiram um novo Código de Família que incorporou muitas das leis de 1918. O novo Código era, de certa forma, mais radical que o seu antecessor, mas também tentava proteger as mulheres contra as dificuldades criadas pela legislação anterior e as difíceis circunstâncias materiais da vida soviética. A década de 1920 era um período de alto desemprego, e muitas mulheres não conseguiam encontrar trabalho nas cidades. Se elas se divorciavam de seus maridos, tinham grandes dificuldades em se sustentar e sustentar suas famílias.

O novo Código tornou o divórcio mais fácil de se obter, mas também reconheceu o como casamento de fato "o morar junto”, considerado como o equivalente jurídico do casamento civil registrado. Esse reconhecimento tornou mais fácil para as mulheres obterem pensão alimentícia e suporte para a criação de seus filhos, sejam dos homens com quem viviam ou apenas que eram pais das crianças. O novo Código também tentou proteger as mulheres que não recebiam salários, ao reconhecer que essas mulheres faziam uma importante contribuição para o lar.  Outro ponto é que todos os bens adquiridos no decorrer do casamento tornaram-se propriedade conjunta para serem divididos igualmente em caso de divórcio. A propriedade seria dividida igualmente, mesmo que fosse comprada com o salário do homem.

Qual era a principal política da família soviética?

O maior objetivo do direito da família soviético após a revolução foi promover a "união livre". Os bolcheviques acreditavam que homens e mulheres deveriam poder entrar ou sair de relacionamentos com base no amor e no respeito mútuo. As pessoas não devem ser coagidas ou amarradas a um casamento sem amor,a Igreja e o Estado não devem interferir com a livre união de seres humanos. No entanto, eles entenderam que para que tal visão fosse bem-sucedida, homens e mulheres precisariam ter acesso ao pleno emprego e ao salário independente.

As mulheres precisariam se tornar financeiramente independentes dos homens, entrariam na esfera pública e participariam da sociedade numa base total e igual. Elas não estariam mais acorrentadas à cozinha e ao cuidado da família. O Estado criaria creches e escolas para crianças, bem como lavanderias públicas e refeitórios. O trabalho doméstico, anteriormente realizado por mulheres gratuitamente, seria transferido para a economia maior, realizado por trabalhadores remunerados por bons salários. As mulheres seriam livres de ser mães e, ao mesmo tempo, realizar-se plenamente como seres humanos no mundo maior.

Discussões sobre monogamia e divórcio realmente levaram a uma emancipação sexual das mulheres russas?

Após a revolução, houve muitas discussões emocionantes sobre como as pessoas poderiam viver de maneiras novas e mais favoráveis, especialmente nas cidades e entre os jovens. O principal problema com a emancipação sexual foi a falta de boa contracepção e as dificuldades para educar crianças. Sem controle de natalidade que permite que uma mulher controle sua fertilidade e escolha quando ter uma criança, a emancipação sexual é impossível.

"A libertação sexual sem boa contracepção, sem a socialização integral da assistência à criança através de creches, bons salários e pleno emprego para mulheres, é a libertação apenas para homens."

A Revolução Russa foi pioneira em muitas ideias emocionantes, mas a sociedade na época não tinha uma base material suficiente para realizar essas ideias. Muitas mulheres foram abandonadas por homens que tiravam vantagens das fáceis leis de divórcio e não pagavam a pensão alimentícia de seus filhos.

Devido ao alto desemprego da década de 1920 e a falta de recursos do Estado, muitas mulheres ficaram desempregadas, na pobreza e com as crianças para criar. O Estado não tinha recursos para criar creches para as mães que trabalhavam. A libertação sexual sem boa contracepção, sem a socialização integral da assistência à criança através de creches, bons salários e pleno emprego para mulheres, é a libertação apenas para homens.

Então, mesmo com um novo código e leis que promoviam a igualdade de gênero, os homens ainda pertetuaram o machismo? A discriminação em espaços políticos persistiu?

O direito nunca pode legislar completamente sobre a vida. Ele pode ajudar a criar as condições de emancipação, mas as atitudes são sempre mais difíceis de mudar. Mesmo os homens revolucionários nem sempre entenderam a importância da libertação das mulheres. Os homens seguiram reproduzindo a discriminação em muitos espaços: na política, no local de trabalho e na família.

Eles, em certa medida, se beneficiaram do trabalho das mulheres, especialmente no lar. Não queriam assumir as responsabilidades do trabalho doméstico, e o Estado não socializou este trabalho completamente por meio de creches, lavanderias e salas de jantar públicas. No trabalho, muitos homens sentiram-se ameaçados quando as mulheres assumiam empregos qualificados e mais remunerados. Eles eram resistentes à contratação de mulheres, e não as trataram como “camaradas”. Mesmo sob o socialismo, as mulheres tiveram que lutar por seus direitos.

O que o Stalinismo significou para as mulheres?

Sob Stalin, o estado soviético realizou apenas parte da visão revolucionária inicial. Em 1930, com a adoção do primeiro plano quinquenal e a industrialização planejada do país, o desemprego desapareceu. Milhões de mulheres foram trabalhar, e muitas entraram em empregos habilidosos e altamente remunerados nas fábricas. Elas obtiveram educação e entraram nas profissões também. O Estado criou refeitórios públicos, creches e lavanderias, assumindo o ônus do trabalho doméstico e transferindo-o para a esfera pública onde foi desempenhado por trabalhadores remunerados.

Ao mesmo tempo, sob Stalin, o país recuou da visão revolucionária inicial. Em 1936, Estado tornou o aborto ilegal. As mulheres continuaram a realizar abortos, mas foram forçadas a irem para locais clandestinos com condições insalubres e profissionais não qualificados. O Estado também dificultou a obtenção do divórcio e, finalmente, e rejeitou a ideia revolucionária anterior de que, sob o socialismo, a família acabaria por "murchar". Em vez disso, começou a promover a idéia de "uma família socialista forte".

"As russas soviéticas, então, assumiram o 'duplo fardo' conhecido pelas mulheres em todos os lugares do mundo: elas trabalhavam, cuidavam das crianças e da casa"

As mulheres estavam muito irritadas com a proibição do aborto, mas muitos homens apoiaram a ideia de responsabilidade masculina e de uma “família forte”. Os homens aproveitaram a liberdade sexual da Revolução, e as mulheres sofreram por conta da irresponsabilidade masculina que se recusava a apoiar a criação de suas crianças. É interessante que, sob Stalin, o Estado recuou da visão revolucionária, ao mesmo tempo em que as mulheres entraram na força de trabalho em grande numero e ganharam independência financeira com seus seus próprios salários.

A principal ênfase do Estado neste momento era a produção, não a reestruturação da vida social. As russas soviéticas, então, assumiram o "duplo fardo" (dupla jornada) conhecido pelas mulheres em todos os lugares do mundo: elas trabalhavam, cuidavam das crianças e da casa.

O que podemos aprender com a experiência das mulheres trabalhadoras e camponesas da Revolução Eussa?

Podemos aprender sobre um programa revolucionário que visava promover a plena igualdade das mulheres: a união livre, o direito ao divórcio, o fim do estigma da ilegitimidade dos filhos, o direito a um emprego pleno e igual, aos bons salários que podem sustentar a família, o direito para escolher quando ter um filho e para interromper uma gravidez se uma mulher não quiser ter filhos.

A atuação das mulheres garantiu o direito à plena igualdade, incluindo o direito igual de escolher seu parceiro, receber educação, poder criar seus filhos e proporcionar oportunidades completas para eles. Direitos que são essenciais. Também podemos aprender quais partes deste programa foram bem-sucedidas, quais partes falharam e por quê. A experiência passada das mulheres trabalhadoras e camponesas nos deixaram lições e, talvez, com essas lições, possamos fazer melhor no futuro.

 

Artigos Relacionados

Obra de autor moçambicano é metáfora do enfrentamento à colonização portuguesa Obra de autor moçambicano é metáfora do enfrentamento à colonização portuguesa
ENTREVISTA Marco da literatura moçambicana, o volume de contos Nós matamos o cão...
Che por Aleida Guevara | EXCLUSIVO  Che por Aleida Guevara | EXCLUSIVO
ESPECIAL Neste 9 de outubro, Caros Amigos publica artigo exclusivo de filha de Che Guevara,...
Lobby: Das sombras para a luz Lobby: Das sombras para a luz
CONTEÚDO ESPECIAL Reportagem publicada na edição temática Corrupção, aborda como a regulamenta...

Leia mais

Correio Caros Amigos

 
powered by moosend
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade