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GIRO 1 – 2 de junho - 15h01

Por Lui Machado e Ismael Machado
Fotos: Avener Prado

Levar cinema a lugares aonde o cinema nunca chegou. Essa era a intenção inicial de Jurandir Costa e Fernanda Kopanakis quando decidiram ampliar o leque do Cineamazônia, um festival de cinema ambiental criado em 2003 na capital rondoniense de Porto Velho. O festival entrou no calendário cultural brasileiro. Mas, vindos de uma tradição de engajamento político e cultural, Fernanda e Jurandir ansiavam por algo a mais. Uma dessas coisas era conhecer as profundezas de uma panamazônia que sempre esteve perto, mas parecia sempre mais distante do que parecia. (confira galeria ao fim do texto)

"O que parecia ser uma atividade cultural inovadora se transformou também em um encontro com as diversidades e complexidades amazônicas. Lugar de gente que luta em meio a adversidades e que vivencia transformações intensas numa região onde tudo é mais do que se pensa"

Assim surgiu o Cineamazônia Itinerante. Uma mostra que desde 2008 já percorreu todas as capitais amazônicas, comunidades peruanas, bolivianas, colombianas, países africanos e Portugal. Foram tantos caminhos já percorridos que atualmente se pleiteia registro no Guiness, como o festival de cinema que mais quilômetros venceu nas estradas e rios desse mundo.

Diversidades

O que parecia ser uma atividade cultural inovadora se transformou também em um encontro com as diversidades e complexidades amazônicas. Lugar de gente que luta em meio a adversidades e que vivencia transformações intensas numa região onde tudo é mais do que se pensa.

É o que mostra a história de Raimunda Gomes Cavalcante, nascida em Seringal de Porto Carlos e que hoje é uma das moradoras mais respeitadas em Iñapari, pequena comunidade peruana que faz fronteira com o Acre. Raimunda mora na zona rural de Iñapari, já no Peru, e para chegar até ela é preciso tomar um triciclo cujo nome varia de acordo com o interlocutor. Pode ser tuco-tuco, chuço-chuco, ou chuc-chuc. Com boa vontade, tuk tuk.

O nome, na verdade, importa pouco. Para encontrar Raimunda Cavalcante é preciso abandonar estrada de asfalto, seguir por um caminho de terra batida, de cor avermelhada, com mato crescendo ao redor das casas de madeira, sendo olhado com curiosidade e desconfiança pelas crianças que moram por ali.

Solidariedade

Raimunda mora em uma casa de madeira velha e sem pintura. O quintal acolhe duas árvores grandes e outras menores, Cine-mapa-Inaparicobrindo quase todo o terreno, junto a um galinheiro e uma casinha, aparentando ser o banheiro. Todos de madeira.

É uma casa que abrigou 16 haitianos, refugiados depois da tragédia do terremoto de 2010. Raimunda os abrigou quando outra tragédia, a grande cheia do Rio Acre, em 2015, trouxe pânico a populações inteiras da tríplice fronteira. Ela até hoje os chama de filhos.

Raimunda foge à lógica típica de quem acredita que a Avenida Paulista é o único farol a iluminar o destino das pessoas. Raimunda ‘venceu na vida’. Não tem uma casa enorme e luxuosa; mas ajudou a construir com a própria força do trabalho as casas em que morou. Nunca viajou a Europa e Estados Unidos, mas sempre conseguiu sobreviver por onde passou, não importasse a dificuldade.

Calos nas mãos

Nunca conseguiu pagar estudo de ponta para os filhos serem médicos ou engenheiros, mas conseguiu fazer com que não passassem fome e os viu serem alfabetizados e darem a ela netos e bisnetos. Ela é, até hoje, analfabeta, mas se orgulha dos calos que cultivou na mão durante todos esses anos.

Uma mulher como Raimunda Cavalcante diz muito sobre a Amazônia. A que escapa aos imaginários estereotipados.  Um exemplo é a paisagem que se descortina sobre Nova Califórnia, distrito de Porto Velho. Nesse pedaço da Amazônia, a floresta perde para o pasto e é mais fácil ver boi do que árvore.

A quase inexistente rua de asfalto é tomada por uma densa camada de barro e poeira vermelha enquanto o mato cresce sem cerimônia nas beiradas das ruas, escondendo os finos córregos de esgoto não tratado que passa pela entrada das casas. Posto médico tem, mas não funciona todo dia e a escola reúne o mínimo do mínimo para as aulas.

Conflitos

De abundante mesmo, Nova Califórnia possui histórias de conflitos de pequenos agricultores e madeireiras. Antônio Eurico Soares presenciou muitos deles. Mais conhecido como Biro-Biro, em homenagem ao ex-jogador do Corinthians,  Eurico tem 51 anos. Desses, 26 foram passados em Nova Califórnia. Vindo do Ceará em busca de terra, ouviu falar que em Rondônia havia muita terra boa sem dono.

"Quando cheguei tinha apenas quinze casas. Eram ocupações feitas sem nenhum tipo de condição", conta. Foram dez anos vivendo na terra até perceber que muitos dos que migraram com ele para Rondônia voltaram por não terem condições de se manter nas terras. Biro Biro ajudou então a fortalecer o Projeto Reca, (Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado) uma associação que ajuda a buscar recursos para viabilizar a fixação das famílias da região, através da preservação da floresta nativa e o cultivo em pequenas áreas.

O Reca é uma daquelas iniciativas que se buscam na Amazônia para suprir lacunas diversas. Começou com um grupo de agricultores oriundos de várias partes do Brasil, assentados em uma demarcação do Incra, no antigo seringal Santa Clara. As demarcações do Incra eram completamente diferentes dos tradicionais assentamentos que hoje são realizados pelo Brasil. As terras eram simplesmente demarcadas e entregues as famílias, que não recebiam mais nenhum tipo de apoio e ainda por cima eram pressionadas a derrubar a floresta. Sempre com a malária logo ali, na curva do vento. Nos primeiros tempos, pupunha, cupuaçu e castanha foram o foco dos agricultores ligados ao Reca.

Pistolagem e ameaças

"Havia muita pistolagem. Minha mãe chorava e pedia para eu não sair de casa trabalhar. Se saía, era só para ir até o mercado e voltar"

O sucesso do projeto atraiu atenção indesejada. "Aqui era muito perigoso. Algumas pessoas se incomodavam com o trabalho que eu fazia. Queriam derrubar a floresta e queriam os pequenos produtores e seringueiros longe. Eles expulsavam na marra ou obrigavam eles a vender a terra por preço irrisório", afirma Biro-Biro.

Segundo ele, o clima do distrito que já era tenso por causa do processo de litígio entre Acre e Rondônia, ficou ainda pior quando o projeto surgiu. "Havia muita pistolagem. Minha mãe chorava e pedia para eu não sair de casa trabalhar. Se saía, era só para ir até o mercado e voltar. Eu recebia muitas ameaças de todo lado e o tempo todo porque eu brigava pelo direito dos pequenos", lembra.

Biro Biro aponta um dos grandes responsáveis pelos conflitos. O Incra. "Eles criam o problema e saem do local sem resolver. Não decidem nada e deixam ao deus dará. Como aqui o que valia era a lei do 'quem pode mais chora menos', os grandes fazendeiros levavam sempre vantagem. Até hoje fazendas por aqui com 50 mil hectares e boa parte sem documento", aponta.

Biro-Biro sobreviveu às ameaças. Não há como negar que em rincões afastados da Amazônia, sobreviver é uma arte.

Retrato da história

Walderi Maia é um desses sobreviventes. Ele mora em Extrema, distrito de Porto Velho. Aos 79 anos, é um retrato do que foi e do que é aquela região de Porto Velho. Ele anda lentamente para a entrada do barraco de madeira. A casa de apenas dois cômodos também é usada como um pequeno comércio, onde Walderi vende roupas, bolas, cigarros e camisas de times de futebol falsificadas. Os produtos estão por toda a parte, inclusive na cama em que ele dorme todos os dias.

Sentado numa cadeira de balanço, Walderi conta, numa mistura de entusiasmo e dor, a época de como chegou com os pais e os irmãos em Porto Velho para trabalhar em um seringal vindo do Ceará. "Aqui não tinha nada. Era mato para todos os lados e o sol não chegava no chão. Fomos abrindo isso aqui na mão", diz.

Fugindo da realidade dura do sertão, a família foi atraída pela velha promessa das terras férteis e trabalho abundante quando Walderi tinha dezesseis anos. Em vez disso encontraram mais pobreza e hostilidade, dos patrões e da própria mata. Das várias famílias que pegaram o mesmo caminho que o deles, menos da metade chegou ao destino final, Rio Branco, capital acreana. O trajeto era feito de barco pelo rio. Muitos desistiram e muitos morreram de doenças típicas da Amazônia, principalmente a malária.

Seringais

Ao chegar a Rio Branco, a família rumou para Extrema, lugar que possuía muitas seringueiras. A borracha era o principal sustento de muitas das pessoas que vão para aquela área. Na época, quatro ou cinco famílias dominavam toda a região. As situações eram precárias e desumanas. As colocações, lotes que cada seringueiro tinha para trabalhar, eram definidas pelos patrões no meio da mata sem nenhuma estrutura por perto. A "casa" em que os seringueiros dormiam era apenas um local descampado de assoalho beneficiado e teto de palha. Não havia paredes, o que, no meio da floresta amazônica naquela época, tornava os novos seringueiros alvos fáceis para onças, queixadas e cobras.

Não demorou para Walderi compreender seu papel naquele lugar. "Era escravidão. A gente trabalhava o dia inteiro, de antes de amanhecer só parando cinco minutos para almoçar. E muitas vezes só o que tinha para comer o dia inteiro era macaxeira com café", lembra.

Tudo que tinha pra comer era vendido pelo patrão e pago com o trabalho através de uma tabela feita também pelo patrão. As ferramentas usadas eram vendidas aos seringueiros, o que gerava uma dívida inicial enorme. Um quilo de borracha custava o equivalente a cinco centavos de hoje. Já um pedaço de banha de porco para cozinhar era vendido pelo equivalente a dois reais atuais. Nesse esquema, muitos trabalharam anos e morreram sem conseguir pagar a dívida que era herdada pelos filhos.

Mesmo os que conseguiam economizar para sair de lá, não tinham muita sorte. "Quem conseguia ir lá pedir as contas para ir embora, o patrão pagava na hora, mas mandava o pistoleiro matar o trabalhador no caminho para pegar dinheiro de volta. Vi muito amigo meu morrendo dessa forma", conta Walderi.

A violência, aliás, era presente em todo os lugares, com disputas por colocações entre os próprios seringueiros para conseguirem produzir mais.

Sem Mulheres

"Aqui só tinha homem, praticamente não tinha mulher. Quem era casado trancava a mulher em casa porque não queria que ela fugisse nem fosse roubada por outros pretendentes. Os homens brigavam e se matavam por mulher. Para não ter esse tipo de problema os patrões mesmos matavam ou expulsavam as esposas"

Ser mulher nesse contexto era especialmente perigoso. "Aqui só tinha homem, praticamente não tinha mulher. Quem era casado trancava a mulher em casa porque não queria que ela fugisse nem fosse roubada por outros pretendentes. Os homens brigavam e se matavam por mulher. Para não ter esse tipo de problema os patrões mesmos matavam ou expulsavam as esposas", diz.

Sem mulheres, os forrós e bailes eram dançados entre homens e o relacionamento homossexual, ainda que tabu, acontecia com frequência assim como os estupros a outros homens. Com o pai morrendo, a mãe voltou para o Ceará e os dezessete irmãos de Walderi se espalharam por municípios de Porto Velho. Ele é o único que ainda está em Extrema. "Só cheguei aqui com a ajuda de Deus. Senão não tinha chegado".

Rondônia foi o estado brasileiro que mais vivenciou o fluxo migratório na década de 70, graças aos programas de assentamento rural do governo militar.

"Óbvio que quando essas pessoas chegaram aqui perceberam que não era nada do que lhe foram prometido. Nessa época, o fluxo populacional foi muito grande e sem nenhum tipo de estrutura ou planejamento. O Incra dizia: 'olha, onde você puder chegar a terra é sua. Só que a questão da terra no Brasil sempre foi ligada ao poder econômico, então quem tinha mais poder financeiro subjugava quem não tinha", diz Fernanda Kopanakis, coordenadora do Cineamazônia, mas também advogada e doutora em Planejamento Urbano e Regional. Fernanda já foi secretária de habitação em Porto Velho, no início da administração petista de Roberto Sobrinho e estuda as questões de terra no estado.

Mineradoras e latifúndios

Segundo ela, essa questão se tornou ainda pior quando chegaram as grandes empresas mineiradoras e as grandes fazendas de agropecuária e depois a soja. "É um conflito de capital. Tem muitos conflitos aqui que são de trabalhadores rurais com indígenas, índios com seringueiros, seringueiros com garimpeiros e isso forma um ciclo vicioso. Não é a toa que existem esses conflitos", afirma.

O resultado costuma ser mais e mais violência.

Morre-se fácil em Vista Alegre de Abunã, outro distrito de Porto Velho. Por todos os lados da cidade, à boca pequena, corre a notícia de que oito pessoas morreram assassinadas nas primeiras semanas de maio. Naturalmente, nenhum deles foi ou será investigado. Primeiro porque não há polícia civil na região. O policiamento é feito por apenas quatro soldados da Polícia Militar, que se limitam a chamar o IML e contabilizar as mortes.

Um deles, um sargento que trabalha apenas meio período e não quis se identificar, corrige a informação. Na verdade foram dez mortes nas últimas três semanas. Trinta e três, somando de dezembro até maio. Número altíssimo, se for considerado que a população, segundo o IBGE é de aproximadamente 5 mil habitantes.

Os motivos são variados. Motivos fúteis como o caso de um amigo que, embriagado, matou o outro porque este último não o avisara da traição da esposa, por exemplo, constituem a maioria. Entretanto um dos principais motivos de mortes na região envolve a questão de disputas por terras.

Pistoleiros

Até mesmo o perfil do pistoleiro mudou. "Não são mais aqueles homens mais antigos que vinham de outros estados com revólver na cintura. Agora quando querem um serviço de matador eles buscam jovens de 17, 18 anos, às vezes envolvido com drogas", afirma o sargento, dando como exemplo o caso de dois garotos de dezoito anos de Ariquemes, que mataram duas pessoas em uma chácara na área rural de Vista Alegre de Abunã. Pegos, eles confessaram que receberam dois mil reais pelo serviço.

Foi em Vista Alegre de Abunã que Dinho, militante do Movimento Sem Terra morreu. O assassino de Dinho foi preso e depois solto para responder o processo em liberdade. Foi assassinado dias depois de ser libertado. Típico caso de queima de arquivo. Até hoje não descobriram quem foi o mandante do assassinado, mas suspeita-se de um madeireiro conhecido da região.

Os conflitos são maiores na fronteira com o Amazonas, no sul da cidade de Lábrea. Por lá os assentamentos de  pequenos agricultores são comuns assim como os casos de assassinatos. Por um tempo, Rondônia e Amazonas possuíam um convênio para que a Polícia Militar rondoniense pudesse atuar e ajudar a trazer os corpos para Vista Alegre do Abunã. Com o fim do convênio, a PM de Rondônia não contabiliza mais as mortes que ocorrem por lá.

Aspirante a político

José Rabelo da Silva, conhecido como Jacaré, é a caricatura de um aspirante a político. Pedreiro, ele conseguiu chegar, de forma não bem explicada, ao cargo de "administrador do Sul de Lábrea" e cuida dos interesses de 30 comunidades ao sul do município manauara. É ele o responsável por dar agilidade às certidões de óbito e nascimento, além de outros documentos na região.
 
Falando sempre na terceira pessoa do singular, ele mostra no smartphone um vídeo de uma pessoa morta a facadas na região. A família do rapaz esperava a remoção do corpo pelo IML há alguns dias. Já em decomposição e sem boa parte do braço que teria sido comido por cachorros e urubus, o cadáver era coberto por um tapume de madeira. A faca usada para o assassinato ainda estava próxima do corpo e, segundo Jacaré, "no mesminho lugar". No vídeo, ele apela às autoridades que voltem com o convênio entre os estados para a atuação da PM de Porto Velho e Lábrea no local.

Madeireiros

Jacaré não esconde a proximidade que possui com alguns madeireiros da região. "O pessoal vê de uma forma ruim, mas eu digo que como podem chamar de vagabundo um cara que acorda 5 horas da manhã para trabalhar, dar sustento para a família? Quem abriu essa mata aí não foi governo não. Foram eles quem construíram estradas, que fizeram a cidade crescer. Agora vem dizer que não pode derrubar árvore, que não pode trabalhar? Que é isso?", defende.

Apesar disso, diz não se meter com terra. "Meu negócio aqui é levar energia e comunicação. Carrego a prefeitura de Lábrea nas costas. É um abandono total do governo de Amazonas", diz.

No quintal da casa, em uma espécie de depósito ou garagem toda feita de madeira, Jacaré mostra um caixão escorado na parede, com todos os adornos e adereços desmontados. Ele disse que mandou trazer de Porto Velho. Segundo ele, muitos dos que morrem a família não tem dinheiro para pagar um caixão. "Todo mês eu trago de Porto Velho e dou para essas famílias. Para não ter que ir lá e trazer, eu já deixo um aqui", explica.

Ainda no sofá, Jacaré fala com toda pompa. "Eu falo mesmo o que penso, sou um livro aberto. Eu não tenho medo de morrer", disse o homem que tem um caixão no quintal de casa.

“Quando eu olho para trás vejo que o Cineamazônia tem nos feito acompanhar essas histórias amazônicas. Temos registrado em fotos e vídeos relatos e transformações de cidades, de pessoas. Isso é mais do que esperávamos quando inciamos essa itinerância de cinema”, avalia Jurandir Costa.

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Sessão em Nova Califórnia, distrito de Porto Velho (RO) Vista de Extrema, distrito de Porto Velho
   
Cine-Iñapari Cine-vista alegre abunã
Iñapari e o "tuk tuk", onde mora Raimunda Vista Alegre do Abunã, distrito de Porto Velho (RO)
   
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Caminhão de puxar toras em Vista Alegre do Abunã Walderi: sobrevivente e retrato vivo das histórias da região
   
Cine-jacaré  
Jacaré: "aspirante" a político  

 

 

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