Enquanto 15 mulheres são assassinadas a cada dia no Brasil, apenas 7% dos municípios dispõem de Delegacias de Defesa da Mulher

Por Laís Modelli

“Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego, sou um dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês”, canta Raul Seixas no radinho de madeira na sala da escrivã-chefe da 4ª Delegacia da Defesa da Mulher (DDM) de São Paulo, Maria Aparecida de Lima Pestana, a Cida. São quase 11 horas da manhã de uma segunda-feira, o dia mais conturbado de uma DDM em qualquer canto do Brasil, já que o órgão não abre nos fins de semana. “Não temos funcionários para funcionar todos os dias. Falta funcionário aqui, mas isso falta em toda a polícia”, explica a delegada titular, Magali Celeghin Vaz.

Magali atende na 4ª DDM de segunda a sexta-feira, das 9 às 19 horas, com mais 13 funcionários distribuídos em apenas cinco salas: quatro cartórios, divididos em duas salas; duas salas para cada delegada (titular e assistente) e uma quinta sala para a escrivã-chefe. A delegacia, que ocupa um quarto de um andar do prédio do 28° Distrito Policial (DP), ainda abriga o plantão, um espaço com cadeiras antigas e televisão que deve acomodar 20 pessoas, no máximo. Não há banheiros para o público, somente para os funcionários, sendo que o feminino também funciona como arquivo de processos. “Nosso banheiro é um arquivo e nosso arquivo é um banheiro”, diz Cida. 

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Em meio à morosidade do Judiciário, recurso das prisões temporárias torna-se problema no sistema carcerário

Por Lilian Primi

Dos 550 mil presos no Brasil, cerca de 195 mil cumprem prisão provisória. Os dados, do Anuário 2013 do Fórum Nacional de Segurança Pública, mostram um crescimento de 12,6% deste tipo de pena entre 2012 e 2011, tendência que se mantém na última década. Para revertê-la, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, propôs no fi nal de janeiro um projeto de lei que deverá restringir as possibilidades de o juiz mandar alguém para a cadeia. Para Lewandowski, há uma “cultura do encarceramento” entre os juízes no Brasil. Hoje, quatro em cada dez presos estão detidos provisoriamente. “Estamos invertendo a lógica atual, em que o juiz decreta fundamentadamente a prisão preventiva e não raro, faz isso com base na gravidade abstrata do delito”, explica. Segundo o ministro, o juiz continua obrigado a fundamentar a prisão provisória, mas só depois de comprovar a inefi cácia, para cada delito cometido, de medidas cautelares como o monitoramento eletrônico, restrição de movimento e de contato e perda de direitos.

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Eliana Calmon escarafunchou as entranhas do poder que ainda hoje se mantém como praticamente intocável e nada transparente

Por Frédi Vasconcelos

A ministra aposentada do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), Eliana Calmon, sacudiu o Judiciário durante os 2 anos que ocupou a Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Com medidas duras contra os muros das togas e a caixa preta da Justiça brasileira, deu novo sentido ao órgão fiscalizador que ela espera, de agora em diante, continuar o trabalho de colocar limites na categoria que nunca antes foi alvo das leis que usam para julgar todos os demais.

Na entrevista, Eliana conta um pouco do que viu e descobriu na Corregedoria e mostra como funciona as entranhas de privilégios e cooptações que fazem das leis letras mortas. Também fala de política, incluindo os próprios planos de chegar ao Senado.

Caros Amigos – A senhora foi a primeira ministra do Superior Tribunal de Justiça. Por que as mulheres têm tanta dificuldade em ascender postos principalmente na Justiça?

Eliana Calmon – Na realidade, isso foi notado, quando em 1995, as mulheres estavam preparando a plataforma para um congresso internacional. Foi aí que a comunidade,aliás, que o movimento de mulheres despertou para essa situação no Judiciário; e o Judiciário, que tem acesso por concurso, tem na base um grande número de mulheres e para cima vai ficando mais raro. Na  ocasião, não havia nenhuma mulher em tribunais superiores. Isso levou o movimento de mulheres a se posicionar e até exigir do presidente atitudes com relação a isso. Daí, foi assinada uma carta de intenções em que ele (o presidente) se comprometia em tornar mulheres ministras. Isso no governo do Fernando Henrique. E aí, em 1999, eu cheguei nas listas, até porque sequer a lista era composta por nomes de mulheres. Eu fui a primeira mulher a integrar uma lista tríplice. Um ano depois, foi a ministra Ellen Grace para o Supremo Tribunal Federal. Podemos dizer que essa situação foi alavancada pelos movimentos feministas. A pergunta é, por que isso? O Poder Judiciário é um poder bastante tradicional, ele guarda muitas tradições já ultrapassadas e nessa questão das mulheres terem acesso aos cargos de mando, ele foi o último dos poderes a abrir suas portas pra isso. Eles faziam bastante restrições e, depois, respondiam até com algumas piadas dizendo que não havia banheiros pra mulheres, e realmente não tinha. Quando eu cheguei, eu achei que iria encontrar um ambiente bastante hostil; mas não, já encontrei o Tribunal bastante preparado para tratar as questões em pé de igualdade.

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Famílias que vivem em comunidades, grupos de comunicação e artísticos, espaços para troca. O que vale é a solidariedade, não o lucro

Por Luciana Ackermann

A interação é criativa, a produção, em geral, coletiva, não há hierarquias, as trocas são constantes e as formas de organizaçãoe de funcionamento variam muito. Mundo afora, coletivos, cooperativas e associações multiplicam-se e se firmam como alternativa ao mundo capitalista. A ideia central não é, exatamente, negar o sistema, mas  traçar um caminho próprio a partir da união de pessoas com interesses comuns para realizar seus projetos. Não é o dinheiro que as move, tampouco há um modelo a ser seguido. São grupos heterogêneos com propostas e necessidades distintas. Descobrem, no dia a dia, como lidar com os desafios e entraves que surgem nesse caminho.

Para o filósofo Euclides André Mance, coordenador do Instituto de Filosofia da Libertação e diretor executivo do Solidarius Brasil, vivemos a transição da economia capitalista para uma economia pós-capitalista, os coletivos e cooperativas geram novas formas de produzir, intercambiar, financiar e consumir. Boa parte deles tem forte preocupação com as sustentabilidades econômica, ecológica e solidária. “É nesse campo que o conceito de bem-viver, com a garantia das liberdades públicas e privadas eticamente exercidas, ganha terreno, na crítica ao conceito de bem-estar capitalista, em que as coisas são mais importantes que as pessoas. Nessas novas práticas estão muitas das sementes de um novo modo de produção, como uma alternativa realmente democrática ao sistema”, afirma Mance.

Dentre essas experiências, uma das mais radicais é a Aldeia Coletivo de Famílias, que fica às margens do Rio das Contas, em Itacaré, no Sul da Bahia. Apresentam-se como um grupo de amigos e famílias que buscam viver juntos em harmonia com a natureza. Acreditam no compartilhamento de recursos, de conhecimentos e ideias e na relação com a terra onde vivem. Atualmente, são quatro famílias, 13 adultos e cinco crianças, uma delas nascida na própria aldeia, pois, entre as moradoras, há uma parteira. Nenhuma das crianças está em idade escolar, mas há uma variedade de atividades lúdicas e educativas.

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Com aprovação recorde à época da escolha do Brasil, críticas ao evento crescem cada vez mais. Remoções, altos custos, prazos estourados são problemas graves, mas há também muitos interesses e distorções nessa discussão

Por Thalita Pires, Jonatas Campos, Marcelo Montanini e Gabriela Allegrini

Os telões espalhados pelas capitais do País e as torcidas comemorando a escolha do Brasil para sede da Copa em outubro de 2007 contrastam-se com os cartazes cobrando educação padrão Fifa, saúde padrão Fifa nas manifestações recentes. É comum também o embate dos grupos Vai ter Copa com o movimento Não Vai ter Copa. Até por conta de toda essa polêmica, a aprovação ao evento vem declinando. Segundo o instituto Datafolha, em 2008, 79% da população apoiava o mundial no Brasil. Em fevereiro deste ano, a maioria ainda é favorável, com 52% de aprovação, mas num patamar bem menor. Boa parte desse decréscimo pode ser atribuída a remoções de populações mais pobres nos locais das sedes, como os exemplos que serão relatados nesta matéria, a estouro do orçamento dos estádios e das obras no entorno e de mobilidade, além dos privilégios à Fifa e seus parceiros. Mas há também muita torcida, de um lado e outro, pelo sucesso ou fracasso do evento, e a influência que isso terá no processo eleitoral deste ano. E milhões de pessoas na fila na espera de um ingresso.

Para esta matéria Caros Amigos mobilizou repórteres em diversas cidades e entrevistou pessoas de todas as regiões para fazer um retrato acurado do que vem ocorrendo nas sedes da Copa e contribuir para aprofundar o debate. Porque a discussão enviesada e com dados errados não ajuda em nada. Por exemplo, as palavras de ordem de educação e saúde de padrão Fifa não são mais que isso, palavras de ordem. É só comparar, por exemplo, os valores de cada coisa. Segundo a última matriz de responsabilidade, documento oficial que lista todos os recursos para a Copa, de estádios a obras de locomoção, a conta estava em R$ 25,6 bilhões nos sete anos desde o anúncio da escolha do Brasil. Nas três instâncias de governo, o Brasil investe mais de R$ 200 bilhões em educação e outros R$ 200 bilhões em saúde a cada ano. Para ter ideia, gastamos menos de 500 dólares per capita ano. Os Estados Unidos investem 3,7 mil dólares por pessoa. Para elevar a pelo menos mil dólares por pessoa/ano, o que precisamos fazer, teríamos de dobrar os gastos atuais. Coisa de mais de R$ 200 bilhões. Copa ou não Copa, nesse caso, representa pouco. O debate sobre o “legado da Copa” é discutível. Vendido pelos defensores dos grandes eventos como uma possibilidade de mudar o País, esse discurso caiu em desuso e nem poderia ser diferente. Quem muda um País é sua sociedade, seus cidadãos, não um megaevento, seja Copa, seja Olimpíada. E há críticas sérias. Os estádios eram para custar pouco mais de R$ 2 bilhões em valores atualizados das projeções de 2007. Hoje, os custos já estão na casa de R$ 8 bilhões e muitos terão pouca utilidade depois do evento. Outra crítica pesada é em relação ao papel da Fifa, uma empresa privada e milionária, ligada a diversos escândalos que vende pacotes fechados da Copa do Mundo. O País aceita todas as imposições ou fica sem o evento.

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Rapper Crônica Mendes faz retrato do movimento na periferia e fala de rolezinho e do funk e rap ostentação

Crônica Mendes é rapper e compositor. Após compor o time do cantor GOG, lançar dois discos com o grupo A Família e atingir sucesso nacional, Crônica Mendes lança sua carreira solo com o disco Até onde o Coração Pode Chegar e amadurece sua bagagem política nesta nova fase. Em meio aos rolezinhos, partidos políticos, manifestações, rap contestador e funk ostentação, confira o bate papo feito na redação.

Caros Amigos – A gente gostaria de começar a entrevista ouvindo um pouco da sua história de vida. Sua trajetória, onde nasceu, como começou a fazer música...

Crônica Mendes – Eu nasci na Bahia, em Irecê, e vim para o interior de São Paulo aos seis meses. Fiquei em Hortolândia (SP) até os 27 anos e estou morando em São Paulo (capital) há cinco. Toda a minha formação vem do interior de São Paulo. Minha família é metade baiana, metade paranaense. Minha base vem dali, cresci musicalmente ali ouvindo as músicas que minha mãe escutava no rádio, lavando roupa, fazendo as coisas de casa. Tomei aquilo pra mim, me identifiquei com aquele ritmo, das ideias da música nordestina, do brega. E mais tarde veio o rap, ainda na era do entretenimento. Os caras faziam um rap mais irônico, brincavam com o contexto social. E nos anos 1990, me encontrei com o rap de protesto, se podemos dizer assim, com o Sistema Negro, Racionais MCs e tudo o mais.

E como foi sua entrada na carreira de rapper?

Na verdade comecei a fazer rap na sala de aula aos doze anos. Fazia poesias, escrevia sobre as datas mais históricas e as professoras passavam textos e queriam saber o que a gente tinha entendido daquilo. Eu nunca aceitei o que era colocado na lousa e deixava esta interrogação nos textos que eu produzia. Por ser tímido, foi a forma mais fácil que encontrei para me comunicar melhor. Eu musicava as minhas poesias e fazia isso usando muito o ritmo brega, especialmente Amado Batista. Tem uma música dele chamada Favela e me identifiquei muito porque contava a história de um moleque abandonado pelo pai, que veio com a família pra grande São Paulo. De 1989 para 90, comecei a me identificar mais com o rap, Racionais MCs, Ndee Naldinho, Câmbio Negro, PMC. Até mesmo porque o que eles cantavam era um pouco mais além do que o filho abandonado pelo pai e eu ouvia alguns trechos dos meus textos ali. Até então eu não sabia, mas era rap que eu fazia. Mas no mundo profissional é muito mais difícil, mãe nenhuma diz “filho não precisa trabalhar...”. A mcobrança dentro de casa é grande. Em um determinado momento tive que escolher entre a zona de conforto, com um trabalho estável, pelo rap. Quando o GOG se mudou para Hortolândia, eu tinha um grupo na quebrada, mas foi compondo o time dele que me tornei profissional.

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Caymmi

Por Eliete Negreiros

“O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito”. Ah! As canções praieiras de Dorival Caymmi. Ele e seu violão. Quando a gente escuta é como se a paisagem marinha baiana invadisse a casa. Sua canção tem a força da natureza, se torna presente, envolve, arrebata. Que mistério é esse? Como é possível uma canção ter o poder de evocar tão plenamente aquilo de que fala? Se se pensa que a alma de um povo é um conjunto de coisas com as quais ele se identifica, não se pode falar da alma brasileira sem lembrar de alguma canção de Caymmi. Disse o poeta Carlos Drummond de Andrade: “O que está na voz de Caymmi a gente guarda como faz com as coisas de estimação. E ao ouvi-la em casa, na rua, no ar, é sempre a emoção de um bom encontro. Incorporou-se ao patrimônio de arte e coração do Brasil. Ninguém o apaga ou destrói”.

Caymmi nasceu em Salvador, em 1914. Faria 100 anos. Criado num ambiente musical, onde a mãe, Aurelina Cândida, Sinhá, gostava de cantar acalantos e modinhas, o pai, Durval Henrique, Ioiô, funcionário público, gostava de tocar violão e bandolim, uma tia, o piano, o menino Dorival ia às festinhas da vizinhança onde sempre havia cantoria. Mas não era só.

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