IDEIAS DE BOTEQUIM:

A redescoberta do Brasil, por um romancista

Por Renato Pompeu

Quem quer conhecer o Brasil deve ler o romance Jurupari, do violeiro Paulo Freire, editado pela Vai Ouvindo. Trata-se de um jovem artista que percorre todo o território nacional, a pé, de ônibus, de barco, caminhão, etc., viajando em particular pelos mitos e pela música de cada região.

Por outro lado, o lançamento de não ficção mais importante no País no ano passado certamente foi Mato, palhoça e pilão – O quilombo, da escravidão às comunidades remanescentes (1532-2004), do historiador gaúcho Roelmir Firbani, editado pela Expressão Popular. Tendo feito uma completa pesquisa a respeito de tudo que foi publicado, ao longo de séculos, sobre os quilombos brasileiros, o autor também viajou extensivamente por todo o País, visitando quilombos ainda existentes. Outro lançamento importante é Em torno de Marx, publicado pela Boitempo Editorial, de autoria do teórico carioca Leandro Konder, que discute se o marxismo ainda tem alguma coisa a dizer no século 21.

Interessante que o livro não debate, praticamente, a economia política desenvolvida por Marx, mas seu legado ético, cultural e político, com ênfase na discussão do pensamento dos teóricos da primeira metade do século 20 Antonio Gramsci, italiano; Walter Benjamin, alemão, e György Lukács, húngaro. Mas quem quer conhecer as primeiras críticas feitas ao lado autoritário da tradição marxista deve ler as do teórico e militante anarquista russo Bakunin, contemporâneo de Marx, feitas no calor da hora em Revolução e liberdade – Cartas de 1845 a 1875, publicado pela Hedra. Esta também lançou, do liberal inglês clássico Stuart Mill, do século 19, o ensaio Sobre a liberdade, a Bíblia dos liberais, no sentido político e existencial da palavra, não no sentido econômico.

 

Para ler o artigo completo e outras matérias confira edição de fevereiro da revista Caros Amigos, já nas bancas, ou clique aqui e compre a versão digital da Caros Amigos.

Volver ao desenvolvimentismo sem emprego

Por Gilberto Felisberto Vasconcellos

Sentado à mesa.

Com uma secretária ao lado, perfume tucano.

Andando, devagar. Salto alto. Traje daslumoda.

Um lepitop com anotações.

- Doutor Cristovalle, o senhor atende ao telefone?

- Não.

- Doutor, mas a chamada é do exterior...

- Marina, eu já lhe avisei tantas vezes... eu sou alérgico a telefone. Não quero nem dar nem receber telefonema.

- Doutor, nós temos um probleminha: o que dizer às duas americanas agentes do FMI que estão chegando aí aterrisando de jatinho a qualquer momento.

- Marina, essas duas pistoleiras não são americanas, são brasileiras aculturadas e lacaias dos EUA.

- Doutor Cristovalle pelo amor de Deus, não tem importância se elas são ou não americanas. O que importa é que elas são funcionárias do FMI e querem dinheiro.

- Sabe o que a acontece Marina? Essas duas peruas agentes do FMI ou do Banco de Boston ou do Banco Mundial são iguais sem tirar nem por à burguesia brasileira que não tem vergonha na cara, carece de brio nacional, subalterna, vassala das multinacionais e do capital estrangeiro, do imperialismo norte-americano. Minha classe, a burguesia, a classe a que eu pertenço, não é uma classe de verdade no sentido histórico. É duro, minha cara Marina, é difícil entender essas coisas porque você tem uma origem plebeia, tal qual essa classe média boçalizada que ri e chora todos os dias vendo telenovela tropicalista.

Ensaio sobre a cegueira

A traição dos social-democratas – em Israel – deixa triunfarem os nacional-socialistas.

Por Gershon Knispel

Participando em uma delegação de escritores enviados à Cisjordânia, logo depois da Segunda Intifada, em Jenin, em 2003, José Saramago acusou o governo de Israel de tomar atitudes semelhantes, contra os palestinos, às que os judeus tinham sofrido na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Shimon Peres, naquele tempo membro do governo, respondeu: “O Saramago do ‘Ensaio sobre a Cegueira’ é uma grande vítima da mesma cegueira”.

Será? As lideranças desse governo sabiam perfeitamente o rumo que esse abismo atingiria. Na nossa revista, em dezembro de 2006, eu já previa o roteiro que no fim prova quem na verdade era cego. Nesse artigo, “Antevendo o que vai nascer”, mencionei: “Nomeando seu novo ministro para Assuntos Estratégicos Avigdor Lieberman, dando assim legitimidade a esse pregador da expulsão dos árabes de Israel e da Cisjordânia, tramam uma nova artimanha de sobrevivência, a mudança de forma do governo”.

Isso foi possível com o apoio incondicional do Partido Trabalhista, chefiado por Ehud Barak, o perpétuo ministro da Defesa, assim dando legitimação à continuação, em novo cargo, de Lieberman, como ministro das Relações Exteriores, envolvido recentemente em escândalos que abalavam toda a mídia israelense, no dia da minha mais recente chegada, no fim do ano.

 

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Em defesa de Cuba, em defesa do socialismo

O Partido Comunista Cubano realiza seu sexto congresso, de 17 a 19 de abril, para discutir o futuro da Ilha.

Por Lúcia Rodrigues

Minhas andanças pela ilha dos barbudos que encantaram o mundo com suas ideias que subverteram a ordem capitalista e derrubaram do poder o tirano Fulgêncio Batista, preposto dos Estados Unidos, em 1 de janeiro de 1959, me dão conta de que os objetivos da magnífica Revolução Cubana correm risco.

Cuba enfrenta, neste início de década, certamente sua pior prova de fogo desde o triunfo da revolução. Nestas mais de cinco décadas, a Ilha resistiu bravamente a incontáveis ataques do mundo capitalista e em particular dos Estados Unidos.

A primeira das muitas agressões sofridas aconteceu, em 17 de abril de 1961, quando a CIA, a central de inteligência estadunidense, articulou e financiou mercenários cubanos que viviam em Miami, para invadir o país pela Playa Girón, na Baía dos Porcos, localizada no lado sul do mar do Caribe. A valentia dos revolucionários de Sierra Maestra impediu a invasão do imperialismo ianque.

A acachapante derrota imposta pelos jovens revolucionários deixou o Império ainda mais furioso. Em 3 de fevereiro de 1962, veio a contundente resposta: o governo do presidente John Kennedy decretou o bloqueio econômico à Ilha, que persiste até os dias de hoje.

Apesar de contestado até mesmo pelas Nações Unidas, a prática nefasta de isolamento econômico continuou a ser levada a cabo pelo presidente Barack Obama. O norte-americano não moveu um dedo para reverter a punição imposta a quem ousou não se curvar diante do poderio capitalista.

As lições dadas ao centro nervoso do capitalismo soam como um verdadeiro tapa na cara do Império. No mês de janeiro, a Ilha registrou a primeira vacina do mundo contra o câncer de pulmão. Os pesquisadores envolvidos na descoberta trabalharam aproximadamente 15 anos nesse projeto.

 

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Mil graus na terra da garoa

Por Sérgio Vaz

São Paulo é uma cidade no cio. Por isso, transa com todo mundo e em todos os lugares. É bonita porque é feia, e como toda feia que se preza, beija mais gostoso. Que os Vinicius me perdoem, mas feiura é fundamental.

Do alto do prédio ou na superfície da alvenaria, a cidade dói nos olhos dos inocentes que transitam nas calçadas. De onde eu a vejo, minhas retinas são seletas e, de como eu a vejo, as esquinas são espertas.

A cidade de São Paulo, que está no mapa, não é toda daquele tamanho, muita gente já tirou um pedaço, que faz muita falta na mesa do jantar, ou depositou em conta corrente, que nada contra a corrente, de quem ama esse lugar.

Essa maçã mordida que a massa não come, constrói o luxo que alimenta o lixo escondido debaixo do tapete. Essa cidade não é minha e não devia ser de ninguém, mas ela existe, e todo ano faz aniversário.

São Paulo pra mim é pagode com feijoada nos botecos que brotam nas ladeiras. É samba da vela, elétrico nos trilhos de Santo Amaro até o samba da hora atrás da batina da Igreja da Estrada do M’Boi Mirim. É ser Rap Soul funk ou metal de primeira. E segura o Peão que corre a cavalo na pista dos bares de Interlagos onde a Primavera começa toda sexta.

É cantar de galo nas Rinha dos Mcs no Grajaú onde o Criolo Doido não tem nada de louco. É sarau da Cooperifa no quilombo do Jardim Guarujá, onde a poesia nasce das ruas sem asfalto, em plena quarta-feira... e todos os outros saraus onde a literatura do morro arranha os céus da cidade. Ô povo lindo, ô povo inteligente!

 

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Esfera pública x esfera mercantil

Por Emir Sader

Tornou-se ainda mais importante no neoliberalismo a diferenciação entre o setor chamado de privado e o setor público. Aquele, na verdade, tem que ser chamado de setor mercantil, porque busca tornar tudo mercadoria, busca impor as relações de mercado sobre o conjunto das relações sociais. O setor público, por sua vez, se estrutura em torno da universalização dos direitos, das políticas sociais, da atenção aos interesses da cidadania. Enquanto que a esfera mercantil se articula em torno da extensão das relações de mercado, em que tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra, em que a referência fundamental não é o direito de todos, mas a competição no mercado, não é o cidadão, mas o consumidor.

Quando a única estratégia de construção de hegemonia alternativa passa pela disputa em torno da transformação radicalmente democrática das estruturas estatais existentes, para rearticulá-las em torno da esfera pública – de que os processos constituintes e a refundação dos Estados na Bolívia e no Equador são exemplos avançados -, o fortalecimento da esfera pública se torna um tema essencial.

A luta contra o neoliberalismo impõe a recuperação do papel do Estado, não como complemento do mercado ou como apoio aos processos de acumulação privada, mas como promotor e garantia dos direitos de todos. Como articulador dos interesses populares e agente do programa antineoliberal, um programa popular e democrático.

 

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“Revolução árabe” anuncia novas tragédias

A grande incógnita é saber qual força política vai liderar o processo de mudanças, se grupos nacionalistas ou islâmicos.

Por José Arbex Jr.

A revolução árabe” começou a ser deflagrada em 17 de dezembro, por um singular mas trágico incidente: Mohammed Bouazizi, 25 anos, vendedor ambulante de hortaliças, ao ter as suas mercadorias apreendidas pela polícia (cena, aliás, bastante comum em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais brasileiras), foi levado ao desespero e imolou-se em fogo, na localidade de Sidi Buzid (perto de Túnis). O auto sacrifício incendiou o país: manifestações de revolta na capital, cidades e vilarejos derrubaram o ditador Zine Ben Ali (no poder desde novembro de 1987), expulso finalmente da Tunísia em 14 de janeiro. Foi o sinal para que grandiosas manifestações eclodissem sem aviso na Argélia, na Jordânia, no Iêmen e, sobretudo, no Egito. Centenas de milhares de jovens, trabalhadores e trabalhadoras, donas de casa, intelectuais, artistas e pequenos comerciantes saíram às ruas contra odiosas ditaduras e monarquias. Em 1 de fevereiro, no Cairo, Alexandria e outras cidades, pelo menos 1 milhão exigiram a renúncia imediata de Ho ni Mubarak, há três décadas um servo fiel das determinações da Casa Branca. O espectro da revolta sacode o Oriente Médio e o norte da África e cria imensas indagações sobre os novos cenários geopolítico, econômico e financeiro do mundo contemporâneo.

À primeira vista, o grandioso tsunami árabe é inexplicável. Assume a aparência de um evento fortuito, que tenderá a desaparecer com a mesma rapidez com que eclodiu. Nada poderia ser mais equivocado. Se o sacrifício de um jovem ambulante é capaz de incendiar uma região inteira do planeta, isso se deve a determinações profundas, inconscientes, muitas vezes invisíveis, mas que se combinam de forma explosiva e imprevisível em determinados momentos históricos. Ninguém controla ou domestica a história, diria grande revolucionária polonesa Rosa Luxemburgo, cujas análises sobre a Revolução Russa oferecem a chave para entender o que acontece hoje no Oriente Médio. Quem diria, até o final de novembro de 2001, que, em menos de quinze dias, uma multidão enfurecida, incluindo senhoras de classe média, muito bem vestidas, saquearia supermercados e bancos em Buenos Aires, e expulsaria os inquilinos eleitos da Casa Rosada? Ou quem afirmaria, em outubro de 1989, que em 9 de novembro cairia o Muro de Berlim? Os manifestantes  rabes, principalmente os jovens, não reclamam apenas reformas econômicas. Manifestam uma revolta incontrolável contra regimes que, durante décadas, oprimiram, torturaram, perseguiram, assassinaram os seus opositores, além de terem devotado uma submissão canina a um sistema imperialista que construiu um imenso edifício de preconceito, ódio e segregação ao mundo árabe e islâmico.

 

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