Em áudio, Serraglio, ministro da Justiça, chama líder de esquema de "grande chefe"

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Entre os alvos da operação, além de fiscais, estão executivos das gigantes JBS (de marcas como Friboi, Swift e Seara) e BRF (marcas como Sadia e Perdigão)

Da Carta Capital

Ministro da Justiça de Michel Temer desde a semana passada, Osmar Serraglio (PMDB) figura no inquérito da Polícia Federal que embasou a Operação Carne Fraca, autorizada pela 14ª Vara Federal de Curitiba e deflagrada para desbaratar um esquema de corrupção e fraude envolvendo fiscais agropecuários federais e empresários do agronegócio. Em um diálogo, Serraglio chama de "grande chefe" o comandante do esquema.

O homem apontado como líder da organização criminosa é Daniel Gonçalves Filho, que foi superintendente regional do Ministério da Agricultura entre julho de 2007 e fevereiro de 2014 e entre junho de 2015 e abril de 2016. Segundo os investigadores, Gonçalves Filho comandava ao menos oito fiscais e outros subordinados que facilitavam a produção de alimentos adulterados por parte de frigoríficos e emitiam certificados sanitários sem realizar a fiscalização de fato.

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A atuação de Gonçalves Filho "no sentido de evitar qualquer problema com a fiscalização" fica clara, diz a PF, em sua relação com o Frigorífico Larissa Ltda., sediado em Iporã, interior do Paraná. Gravação interceptada pela PF mostra o então deputado federal Osmar Serraglio, eleito pelo PMDB do Paraná, avisando o fiscal a respeito de uma inspeção do Ministério da Agricultura.

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Osmar Serraglio: Grande chefe, tudo bom?

Gonçalves Filho: Tudo bom

Osmar Serraglio: Viu? Tá tendo um problema lá em Iporã, cê tá sabendo?

Gonçalves Filho: Não.
 
Osmar Serraglio: O cara lá, que... o cara que tá fiscalizando lá... apavorou o Paulo lá, disse que hoje vai fechar aquele frigorífico... Botô a boca, deixou o Paulo apavorado! Mas para fechar tem o rito, não tem? Sei lá. Como que funciona um negócio desse?

Gonçalves Filho: Deixa eu ver o que está acontecendo... tomar pé da situação lá... falo com o senhor.

Após a ligação, diz a PF, Gonçalves Filho liga para Maria do Rocio Nascimento, outra integrante do esquema, contando-lhe que o fiscal de Iporã quer fechar o frigorífico Larissa. Ele pede, ainda segundo os investigadores, que ela averigue o que está acontecendo e lhe ponha a par. Nascimento faz o contato, descobre que não há nada errado e avisa Gonçalves Filho, que, por sua vez, avisa Osmar Serraglio.

O "Paulo" citado por Serraglio é Paulo Rogério Sposito, que em 2010 foi candidato a deputado federal pelo PPS-SP com o nome de Paulinho Larissa.

De acordo com o delegado federal Maurício Moscardi Grillo, no contexto das investigações não surgiram indícios de que Serraglio tivesse ciência do esquema, mas o caso foi encaminhado para a Procuradoria-Geral da República, responsável por processar políticos com foro privilegiado, caso de Serraglio.

Em nota enviada à imprensa, Serraglio afirmou que ficou sabendo nesta sexta-feira da operação, o que seria "prova cabal" de que ele não pode interferir "de alguma forma na autonomia do trabalho da Polícia Federal" e disse que não há nada contra ele no áudio. "A conclusão, tanto pelo Ministério Público Federal quanto pelo juiz federal, é a de que não há qualquer indício de ilegalidade nessa conversa degravada", afirma.

A Operação Carne Fraca é a maior da história da PF. Ela envolveu 1,1 mil policiais federais para cumprir 309 mandados judiciais em sete estados. Entre os alvos da operação, além dos fiscais, estão executivos das gigantes JBS (de marcas como Friboi, Swift e Seara) e BRF (marcas como Sadia e Perdigão).

Outro alvo é o frigorífico Peccin Agroindustrial Ltda., baseado em Curitiba e dono da marca Italli Alimentos. O grupo é responsável por algumas das fraudes mais graves detectadas pelos investigadores, como o uso de carne de cabeça de porco na fabricação de linguiças, o que é proibido por lei.

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