A prisão muda as pessoas, sim: pra pior

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A prisão muda as pessoas, sim: pra pior

Por Natalia Timerman

Quando me disseram da possibilidade de eu trabalhar como psiquiatra no hospital penitenciário, há mais de cinco anos, hesitei. Não seria perigoso para uma mulher atender presos, homens e mulheres? A indicação viera de uma colega psicóloga, que me disse que, na equipe de saúde mental, havia então mais de quinze pessoas, entre psiquiatras, psicólogas e terapeutas ocupacionais. Todas mulheres.

Coloquei-me a pensar. Todos os meus caminhos – me surpreendi – esbarravam no mesmo lugar: por que me expor a atender gente perigosa? Eu imaginava as grades, um ambiente escuro e sujo; previa homens e mulheres difíceis, ariscos, ameaçadores. As conversas com minha família e amigos iam pelos mesmo lugares, um tanto comuns: mas, Natalia, atender bandidos? Psicopatas? Assassinos?

Fui conhecer o Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário, único hospital-prisão de São Paulo. Em grande medida, um hospital comum, com profissionais de saúde de jaleco, sorridentes, conversando, vivendo mais um dia de trabalho. Tirando o fato de que, para entrar, eu precisava ser revistada, e minhas coisas passarem por um raio-X semelhante aos de aeroporto; e de que eu não poderia levar para dentro meu telefone celular; e de que, sim, haviam grades. Por detrás delas, os pacientes, todos uniformizados, calça branca e camiseta bege, cada um em uma cela ou enfermaria, dentro de uma ala específica, a depender do seu quadro clínico. Aids, tuberculose, asma, câncer, diarreia, sequela de derrame, sequela de tiro – tirando esta última, e com importantes diferenças de prevalência com relação à população geral, as doenças que as pessoas têm.

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Aceitei o trabalho. Fui percebendo que não só as doenças eram comuns. Deveria ser óbvio, mas não era: detrás das grades, detrás dos gestos obrigatoriamente contidos – mãos para trás, cabeça baixa, ao caminhar pelos corredores dentro da faixa amarela delimitada para eles, indo para algum atendimento ou exame –, pessoas comuns.

A princípio, fiquei encantada. Era gente comum que estava presa! Gente que tinha história para contar, de sua vida, de sua família, de seu trabalho, seus filhos, seu delito, sua condenação (isto é, quando a sentença já havia sido dada, porque, em muitos casos, depois de meses de prisão, a pessoa sequer havia ido a audiência). Um paciente mesmo me deu a proporção: “doutora, aqui malandro é só 20%”. Número que tende a aumentar pela própria dinâmica dos presos, que têm hierarquia e regras próprias, tácitas, às quais todos têm que obedecer, malandro ou não (já se sabe que prisão gera prisão: a taxa de reincidência é de 25% em cinco anos, segundo dados de 2015 do Conselho Nacional de Justiça).

"Os anos se passaram, e continuo trabalhando no hospital penitenciário. O encantamento passou: quem está preso continua sendo gente, mas, de tanto ser tratado como se não fosse, embrutece"  
   

Os anos se passaram, e continuo trabalhando no hospital penitenciário. O encantamento passou: quem está preso continua sendo gente, mas, de tanto ser tratado como se não fosse, embrutece. Eu sei disso, porque, além de ver, percebi em mim mudança correspondente – guardadas as devidas e grandes proporções, porque afinal de contas eu apenas trabalho na prisão, não estou presa. Mas se minha escuta está por um lado mais afiada, esperta daquele mundo, por outro, se cansou, deixou de escutar chamados pelos corredores, deixou de se surpreender tanto com histórias que se repetem. A prisão muda as pessoas, sim: pra pior.

Serviço e ficha técnica

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Desterros — histórias de um hospital-prisão

Natalia Timerman

Posfácio: Bruno Zeni

Projeto gráfico: Bianca Oliveira

Capa: Karen Ka

192 páginas

Editora Elefante

Lançamento

Nesta terça (14), a partir das 19h, no Ateliê do Gervásio (Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga)


 

 Natalia Timerman é psiquiatra e conta a vivência no sistema carcerário em Desterros – histórias de um hospital-prisão, que será lançado nesta terça (14) pela Editora Elefante.

 

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