Ilú Obá de Min: 12 anos de protagonismo das mulheres negras e exaltação da cultura afro

Cultura
Typography

"12 anos de Ilú Obá - Alaafin Oyó" será uma retrospectiva dos doze anos em reverência a Xangô, orixá da Justiça

Por Lu Sudré
Caros Amigos

Mãos femininas que tocam tambor para Xangô. Este é o significado de Ilú Obá de Min na língua iorubá, nome do principal bloco afro que ocupa as ruas de São Paulo durante o Carnaval. Composto apenas por mulheres que dançam, tocam e cantam, há doze anos o bloco "Ilú", como é chamado, aumenta em número de público a cada apresentação. Para o cortejo que ocorre nesta sexta-feira (24), às 20h, na Praça da República, centro, a expectativa é de 40 mil pessoas. Em 2016, segundo relatório da Secretaria de Turismo do governo estadual, 35 mil pessoas acompanharam o bloco.

"O Ilú está crescendo porque ele é único. É o espaço em que as mulheres negras realmente têm voz. O bloco é pensado, dirigido e concebido por mulheres, que juntas, geram coisas frutíferas. Fazemos do Carnaval uma obra, é um teatro de rua contando a história do povo negro", afirma Beth Beli, presidente, fundadora e produtora artística do Ilú, em entrevista à Caros Amigos. "Contamos as nossas histórias porque elas não são contadas e quando são, é pelo olhar europeu. Parece que a história da gente começa no navio negreiro", critica.

Leia mais:

A poesia que o Brasil não (re)conhece

 Movimento negro vai às ruas e grita: “Fora Temer!”

 Entrevista Elza Soares: “Quero cantar até o mundo acabar”

O tema deste ano "12 anos de Ilú Obá - Alaafin Oyó",  é uma retrospectiva dos doze anos em reverência a Xangô, orixá da justiça, e significa "a corte chegou". Oyó era a cidade de Xangô, território localizado na atual Nigéria, terra do povo iorubá.

Em sua primeira apresentação, ainda em 2005, o bloco desfilou com 30 pessoas. Atualmente, 400 pessoas, a maioria mulheres negras, compõem o cortejo preparado ao longo do ano, que tem ainda a participação de alguns homens na dança. Os instrumentos do bloco são o agogô, xequerê, djem bé e alfaia, que, em harmonia, exaltam a voz das mulheres.

A força do tambor feminino

Beth conta que o último ensaio do bloco antes do desfile, ocorrido no domingo (19), reforçou nela a ideia de que o Ilú Obá de Min tem um trabalho importante de formação. "As mulheres aprendem a dançar e cantar em iorubá. O Ilú faz parte de uma formação da cultura negra, o que fortalece as próprias mulheres negras que estão lá dentro. É um trabalho que dá protagonismo e pertencimento. As mulheres não negras também são englobadas neste pertencimento de cultura. Elas precisam saber da nossa história pra olhar o Continente Africano a partir de outra perspectiva e reconhecer seus privilégios dentro dessa sociedade racista. Quando elas estão com a gente, estão dentro daquilo que passamos. É o momento delas pensarem porque estão ali e saberem que são privilegiadas", comenta Beth. "Muitas falam que o tambor fortalece. Cada uma tem seus motivos. Unidas, fazemos o Ilú Obá andar pelo mundo".

PUBLICIDADE
,
PUBLICIDADE

Foi este sentimento de pertencimento que Beatriz Mascarenhas, de 19 anos, encontrou ao compor o Ilú. Em 2016, a baiana que mudou para São Paulo aos 7 anos, foi ao ato da Mulher Negra Latina e Caribenha e se encantou. "Vi aquela legião de mulheres tocando com uma força incrível e tudo que consegui pensar foi no quanto queria ser uma delas, no quanto queria me aproximar das minhas raízes. O Ilú virou, pra mim, um local de força e energização, me fortalecendo e empoderando", resume Beatriz.

Para ela, é notória a diferença que integrar o bloco faz na vida das mulheres. "O modo como não nos enxergamos só em um mundo tão machista e racista, deixa qualquer mulher se sentindo dona de si e capaz de lutar. O trabalho nos aproxima da nossa história enquanto mulheres negras, é muito enriquecedor", ressalta Beatriz, que toca o agogô e se emociona ao falar sobre o Ilú. "Sair no cortejo, junto com tantas mulheres que se tornaram minhas referências, é uma enorme sensação de gratidão e força. Sem sombra de dúvidas o Ilú mudou muito o que sou, e o cortejo vem pra coroar isso", complementa.

Homenagens

Em 2015, o bloco Ilú Obá de Min homenageou a escritora Carolina de Jesus, "a poeta da favela", autora do livro Quarto de Despejo, traduzido em 30 línguas. "Todo mundo a conhece como a 'catadora de lixo que virou escritora'. Parece que sempre é preciso abordar isso pra valorizá-la. Mas nós trouxemos sua história, o lado intelectual dessa escritora tão rica. O Quarto de Despejo é a história política de São Paulo. Ela é uma mulher que esteve com Clarice Lispector. É importante questionar: por que se fala de Clarice Lispector e não de Carolina de Jesus? Porque a sociedade não quer revelar mulheres negras como ela", denuncia Beth Beli, que deu muitas entrevistas sobre a escritora depois do Carnaval. "Foi uma missão cumprida pelo Ilú. Chamamos atenção para a sua história".

A "mulher do fim do mundo", Elza Soares, foi a homenageada do bloco em 2016, no qual a própria fez um show no centro da cidade ao lado do Ilú. "Demos um presente pra São Paulo, a trouxemos e ela cantou na Praça da República. Reverenciamos outra mulher que também foi muito discriminada no Brasil. Tudo que acontecia com o Garrincha era culpa dela. Elza estava um pouco fragilizada e a homenagear foi uma honra", diz Beth. A artista popular Nega Duda e a cantora Leci Brandão também já foram homenageadas pelo Ilú.

Muito além do carnaval

A atuação do Ilú Obá de Min não se resume às apresentações do bloco. As mulheres que tocam tambor para Xangô também são um instituto, com sede no centro de São Paulo, que oferece cursos ao longo do ano e promove projetos. Entre eles, o Ilú Na Mesa, desenvolvido na Ação Educativa. O projeto conta com participação de 70 mulheres, da oralidade e da academia, para discutir gênero e racismo. O Que Batuque é Esse? é outro projeto do Ilú em que o bloco vai até a periferia se apresentar e conversar com outras mulheres negras.

Na sede no centro paulistano, o Ilú ainda disponibilizada uma biblioteca com livros sobre a história, música e arte do povo negro.

"É esse processo complementar de formação do Ilú por meio do bloco, é um ensinamento. Tivemos um enredo sobre rainhas que existiram e são 'esquecidas' na história, mulheres negras como Rainha Sabá. Elas existiram de verdade e ninguém sabe disso, não aprendemos sobre isso", declara Beth. Na sua opinião, a lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio, é insuficiente. "Não adianta ter a lei e não qualificar o professor", avalia.

Além desta sexta-feira (24), o Ilú Obá de Min irá se apresentar no domingo (26), com concentração a partir das 14h na Rua Lopes de Oliveira, 342, na Barra Funda.

ilu

Artigos Relacionados

Cultura deve democratizar a relação com a cidade, diz Juca Ferreira Cultura deve democratizar a relação com a cidade, diz Juca Ferreira
ENTREVISTA Ex-ministro dos governos Lula e Dilma assume coordenação de cultura de Belo...
 “A cultura da cidade de São Paulo está agonizando”, denuncia artista em ocupação de Secretaria de Cultura “A cultura da cidade de São Paulo está agonizando”, denuncia artista em ocupação de Secretaria de Cultura
FORA STURM Após ameaça de agressão, movimento pede saída de André Sturm do cargo de secretário...
Virada teve shows vazios e falhas de estrutura, mas Doria diz que culpa é da chuva Virada teve shows vazios e falhas de estrutura, mas Doria diz que culpa é da chuva
MINGUADA CULTURAL Alguns palcos não foram montados a tempo, outros foram esquecidos....

Leia mais

Correio Caros Amigos

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
×