Exposição homenageia Niggaz, ícone do graffitti paulistano

Cultura
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Mostra fica instalada até o dia 23 deste abril na Fábrica de Cultura Capão Redondo

Por Marina Saran
Caros Amigos

Falar do Niggaz ou do Alexandre é descrever a trajetória de uma pessoa que influenciou muitos artistas do cenário do graffiti nacional e internacional. Alexandre Luis da Hora Silva, o Niggaz, nasceu em 1982 e morreu precocemente, aos 21 anos, em 2003. A história do grafiteiro é registrada na exposição O Niggaz da Hora - Graffiti, Memória e Juventude, uma homenagem à sua arte que reúne vários artistas, instalada até 23 deste mês de abril na Fábrica de Cultura Capão Redondo.

Para a mostra, foram convidados 17 artistas que criaram obras inspiradas na arte de Niggaz. Entre eles estão Binho, Ciro Scho, Claudio Ganu, Deddo Verde, Enivo, Highraff, Jerry Batista, Lele Paes Ribeiro, Mathiza, Mauro, Michel Onguer, Oito, Paulo Ito, Ricardo Akn, Sliks, Tarsila Portella e Zizi. Os artistas utilizaram como suporte da obra um totem de madeira com colagens e lambes dos trabalhos de Niggaz (um dos trabalhos ilustra a imagem desta reportagem).

Jerry Batista, grafiteiro e amigo de Niggaz, diz que a repercussão da arte de Niggaz é muito grande no resto do País e mesmo no exterior, principalmente na Europa, onde o seu grafite, por ter traços mais simples, é considerado essencialmente brasileiro e lembra um pouco histórias em quadrinhos.

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“A importância dele para o cenário do grafite é gigantesca. Em todos os lugares que eu me apresento no Brasil e mesmo fora do País todas as pessoas falam dele. Existe uma curiosidade muito grande sobre sua forma de arte”, comenta Jerry.

Alexandre, que sempre teve a intenção de expandir o grafite para o resto da cidade, retratou sobre as paredes a periferia, as mulheres e o futuro. Foi um dos pioneiros, pertencentes a uma classe mais baixa a conquistar a Vila Madalena (Zona Oeste), um circuito cult paulistano de bares e afins.

Nascido no Jardim Eliana, Grajaú (Zona Sul), Niggaz desenhava desde criança e via o grafite como uma maneira de “conquistar o Mundo”. O grafiteiro e também amigo de infância, Vini Enivo, diz que Niggaz fazia grafite como uma forma de se autoexpressar e conquistar São Paulo.

Jerry conta que grafitou sete anos ao lado de Niggaz, no início de sua carreira até o fim de sua vida e diz que o grafiteiro via a arte como uma forma de fugir do bullying que sofreu sua vida inteira, efeito colateral de sua condição social. “Ele costumava dizer, 'Pô! Eu sofri bullying minha vida inteira por ser negro e gordo, no colégio e nos lugares e desenhar é uma coisa que eu sei fazer bem'. Então as pessoas o respeitavam por isso. Ele percebeu o poder que a arte dava para as pessoas se destacarem numa cidade com a dimensão de São Paulo e mesmo no resto do Brasil e de uma maneira positiva e não negativa, cercada de preconceitos”.

Niggaz deixou um legado eterno para a cidade de São Paulo, foi revolucionário, com grafites rápidos e elegantes, fez arte “na parede”, e mesmo quem não o conheceu pessoalmente, até hoje se inspira em seus personagens espalhados nos becos da cidade cinza.

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A convivência com Niggaz

Vini Enivo conheceu Alexandre ainda na infância e diz que a lembrança que fica é a influência da obra de Niggaz e as experiências que o amigo transmitiu ao longo da vida para ele. “Eu o conheci muito jovem, tínhamos 7 ou 8 anos de idade, então ele já desenhava. Sempre fomos muito amigos. Jogávamos vídeogame desde pequenininhos, foi uma amizade muito bonita em que ambos aprenderam bastante, o sempre Alexandre gostou muito de compartilhar o trabalho dele com as pessoas. Ele fazia com que acreditássemos no trabalho que produzíamos”.

Jerry Batista cresceu no mesmo bairro que Niggaz, mas só o conheceu em 1998 quando foram apresentados por amigos em comum. Jerry descreve o encontro como “amor a primeira a vista”. “Eu grafitei com ele sete anos seguidos e uma das lembranças marcantes que eu tenho dele era quando saíamos do Grajaú e não tínhamos nem dinheiro para a condução. Íamos até Santo Amaro e pegávamos o primeiro ônibus que vinha, até que um dia fomos parar no Cambuci, onde os Gêmeos grafitavam. Pudemos ver o trabalho deles e foi uma grande experiência para nós, porque não sabíamos que faziam grafite daquela forma fora do Grajaú. Naquela época, as distâncias geográficas eram ainda maiores”.

A pichação e o prefeito João Dória

O prefeito da cidade de São Paulo, João Dória, sancionou a lei "Antipicho” e pintando de cinza apagou, entre outros, os grafites do corredor da 23 de Maio, avenida que liga a Zona Sul ao centro. Era um museu a céu aberto, com mais de 70 murais de diversos artistas desde 2015. Se o pichador for pego no ato terá que pagar uma multa de R$ 5 mil; se a pichação for contra o patrimônio público, a multa dobra para R$ 10 mil; se houver reincidência, a multa também dobra.

O grafiteiro Jerry Batista acredita que a postura do prefeito é um tanto quanto exagerada, sendo que a pichação é considerada arte no resto do mundo.“Eu acho que ele está pegando pesado contra os pichadores, porque os pichadores são um patrimônio brasileiro, pois eles são muito reconhecidos lá fora.

Enivo completa que a pichação é uma das formas mais originais de arte e que, independente do mandato de qualquer governo, ela vai resistir como forma de expressão. “A pichação é uma das formas mais originais de arte contemporânea no mundo, muito genial e vanguardista. A pichação vai existir independente de qualquer lei. Então os mandatos passam, passam partidos, mas a expressão das ruas fica, em tempos mais difíceis e também em tempos de glória”.

Serviço

Exposição Niggaz da Hora – Graffiti Memória e Juventude

Local: Fábrica de Cultura Capão Redondo

Endereço: Rua Bacia de São Francisco, s/n

Data: 4/4 a 23/4

Telefone: (11) 5822-5240

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