A poética das quebradas

Cultura
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Saraus e slams abrem espaços para a arte na periferia

Por Lilian Primi
Caros Amigos

Lucas Afonso olhava as pessoas que saíam apressadas do vagão lotado, esbarrando em outras tantas que se espremiam tentando entrar, enquanto contava sobre como deixou de ser sambista das quebradas de São Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo, para virar um slammer (competidor de poesia falada), semifinalista do mundial disputado no ano passado em Paris. "Quando terminei o ensino fundamental, parei de estudar. Não quero viver isso, não quero estudar e trabalhar, ficar indo e voltando de metrô todo dia, como todo mundo faz". O que queria mesmo era viver no mato. Tinha 14 anos quando chegou a essa conclusão e sua solução foi fugir, levando para isso, uma muda de roupa na mochila da escola e um bilhete de metrô. "Fui para Paranapiacaba, que era a primeira referência de mato que eu tinha e onde dava para chegar com uma passagem", lembra, rindo.

Essa aventura durou menos de uma noite, mas a de Paris, nove anos depois, ele viveu inteira. "Cheguei lá sozinho, sem falar uma palavra em francês ou inglês, e um dia depois me vi numa roda com dez pessoas, cada um cantando rap numa língua diferente", conta. Entre a fuga e a experiência em Paris, ele foi músico de bar; lançou um CD de rap – À Margem – formou-se agente cultural em um programa da prefeitura e conheceu Rafael da Silva Carnevalli, professor de português e Andrio Cândido, professor de história, também moradores de São Miguel e frequentadores dos saraus e slams de que Lucas participava. Rafael é poeta além de professor e Andrio, ator e cineasta. Os três decidiram, um dia, recitar as poesias que iriam apresentar no metrô lotado, e criaram assim o coletivo Filhos de Ururai, que até hoje repete a façanha, minutos antes do rush. "A gente se apresenta no trecho em que a distância entre as estações é maior, para dar tempo, filmamos tudo", explica. Eles não ganham nada com isso, além da experiência poética. O objetivo do grupo é provocar pessoas predispostas a reações negativas e ganhá-las com a poesia. A façanha está em fugir dos "policinhas do metrô", que dão a eles o mesmo tratamento dispensado aos camelôs, porque essa, de ganhar as pessoas, eles tiram de letra. "Já fomos até aplaudidos", conta Andrio, olhos brilhando.
Lucas montou ainda um slam perto da sua casa – o slam da Ponta –, em parceria com o pessoal do ponto de cultura Reação Arte e Cultura, da Cohab José Bonifácio, que envolve os alunos da escola local. Rafael e Andrio também têm as suas produções – batalhas de slam, saraus, oficinas –, assim como todos os competidores que Lucas enfrentou ao longo de 2015 no Slam da Guilhermina, na Zona Leste, em batalhas semanais que têm, segundo o dramaturgo Emerson Alcalde, seu criador, uma média de público de 300 pessoas e a participação de 20 poetas. Emerson, além de fundador do Slam da Guilhermina, ganhou o slam BR em 2013 e no ano seguinte foi para Paris como Lucas, mas terminou vice campeão mundial.

Este ano, quem vai representar o Brasil em Paris é Luz Ribeiro, vencedora brasileira no ano passado, que como os meninos de Ururaí, gosta de se apresentar no transporte coletivo. "Um dia eu e a Carol (Carolina Peixoto), conversando, tivemos a ideia de mostrar nossas poesias nos coletivos". Inspiradas nos vendedores ambulantes que ganham a vida nas linhas de ônibus, metrô e trem, fundaram o Poetas Ambulantes, juntamente com Jefferson Santana, Thiago Peixoto, irmão de Carol, Mariane Staphanato e Mel Duarte.

Um lampião e o gogó


Luz, Carol, Emerson, os Filhos de Ururaí e a grande maioria dos poetas que participam ou produzem slams e saraus, viram um sarau pela primeira vez na Cooperifa, criado por Sergio Vaz em 2002 e que, segundo Emerson, transformou o que era uma forma de diversão apenas em um ato de resistência e militância para as populações da periferia. "Ele se posiciona em Taboão (da Serra) e isso muda tudo. Criou um corpo dentro do hip hop e os poetas primeiro foram até os saraus querendo se apresentar lá, para buscar público. Hoje, com os slams, é o contrário, os rappers descobriram que suas letras são poesia e vão se apresentar nas batalhas", diz o poeta. Os relatos ouvidos pela reportagem, dos poetas que integram os slam e coletivos citados, obedecem a um roteiro comum: eram crianças ou jovens pobres, que se sentiam deslocados e diminuídos por alguma razão, e que experimentam uma catarse ao participarem pela primeira vez de um sarau ou slam.

"Costumo usar muito isso, sabe, para cantar e para dançar. Essa dor, que vem (do passado)”, diz Tula Pilar, ex-empregada doméstica e também, filha de empregada doméstica, criada “na casa da patroa” numa rotina de trabalhos pesados e sem salário. Hoje é poeta e vive dos seus escritos há dez anos. "Quando falta dinheiro, saio vendendo Ocas, aquela revista de teatro sabe? Por que não consigo nem pensar em voltar a trabalhar de faxineira", conta. A Ocas é publicada por um grupo de jornalistas e dramaturgos voluntários e vendida por pessoas em situação vulnerável. Ela é uma celebridade no mundo da poesia marginal e diz que não se adaptou aos slams. "Não gosto de competição, ainda mais de poesia. Não entendo isso", diz. Ela se apresenta nos saraus e integra um dos sete coletivos residentes no Cantinho de Integração de todas as Artes – o Cita –, que ocupa um galpão da prefeitura na Praça do Campo Limpo, na zona sul da cidade de São Paulo.

A primeira vez...

"Todo mundo que funda um slam ou sarau é porque participou de um evento assim antes", explica Suzi Soares, esposa de Robinson Padial, ou Binho, poeta e criador do Sarau do Binho, a segunda referência mais citada pelos poetas como “a primeira vez que”. Suzi não é poeta, formou-se em letras quando a universidade chegou ao seu bairro. Deu aulas por um tempo, mas atualmente se dedica quase exclusivamente à produção dos eventos junto com o marido. "Eles se multiplicam dessa forma por que não precisa de nada pra fazer um slam ou sarau", conta ela sobre estrutura de som ou outras. "Começamos com iluminação de velas e o gogó", lembra Binho. Em 1995, o casal tinha voltado de um tempo em Londres, para onde tinham ido em busca de trabalho e faziam faxina. "Não tinha nada para fazer naquela época aqui. Aí montamos o bar, que era mais uma lanchonete", conta Binho. Um dia Binho decidiu reunir às segundas-feiras os amigos que gostavam de poesia para, além de ouvir música, declamar nos intervalos do som. "Era um dia de pouco movimento à noite. Começamos com a vela e mais nada. Chamava Noite da Vela. Deu tão certo que acabou virando o dia de maior faturamento do bar", lembra.

Foi assim também na praça da Estação do Metrô da Vila Guilhermina, onde o slam tem como símbolo um lampião. No início, sem iluminação, Emerson usava um lampião para iluminar a roda. "Tentei primeiro com uma tocha, mas apagava e era arriscado. Era um mato aqui", lembra, mostrando o que hoje é uma bem organizada praça ao lado da estação. E também na de Campo Limpo, que é pertinho do Terminal. Binho passou a apresentar lá o seu já bem conhecido "Sarau do Binho" depois que fechou o bar. "Faço lá e no espaço do Clariô, um coletivo de teatro daqui do bairro também", diz. No Cita, que faz seus eventos na praça, tem o Sarau da Ponte pra Cá e foi criado por Thata Alves, integrante do Sarau das Pretas, por que ela, poeta e mãe de gêmeos, não conseguia ir para um sarau com os meninos. "Eles não param quietos e o sarau tem aquele silêncio. Um dia alguém fez `shiiii` para eles e me deu um aperto – como assim, `shiiiii`? Criança é em si uma poesia", diz.

Luta feminista

A luta feminista é tema recorrente e mobiliza um número crescente de mulheres. "Quando comecei não tinham muitas mulheres nessa poesia marginal. Elas ficavam na plateia, sem participar", lembra Tula. Mariana Felix, do Slam da Guilhermina, conta que muitas colegas se animaram depois de assisti-la. "Essa cena toda de sarau, de slam, tem a questão da representatividade muito forte", explica Jéssica Balbino, jornalista que estudou esse movimento de poesia entre as mulheres em sua dissertação de mestrado. "Antes elas não eram convidadas. Os ciclos de literatura eram sempre com 10 homens e uma mulher cumprindo cota. Nos últimos dois anos, as mulheres tomaram a frente dos movimentos e estão criando os seus espaços", conta. O Sarau da Ponte pra Cá, de Thata, é um exemplo, e o das Pretas – formado por cinco mulheres negras: Tatha Alves, Débora Garcia, Elisandra Souza, Jô Freitas e Taissol Ziggy, o Slam das Minas, que começou em Brasília e hoje tem um núcleo em São Paulo também e o Sarau das Manas, de Campinas. "A Mel Duarte ano passado venceu o Slam Internacional da Festa Literária das Periferias (Flupp), uma feira de literatura marginal que acontece no Rio de Janeiro. O Festival tem três anos e esta é a primeira vez que uma brasileira vence. 2016 foi muito bom para as mulheres nos slams", avalia. Antes de Mel, a primeira mulher a vencer o festival, outro brasileiro ganhou em 2015, o mineiro João Paiva.

A pesquisa de Jéssica entrevistou 425 mulheres por meio de um formulário online, de toda parte do País. Todas se autodenominam poetas. "É muita gente. Esperava que no máximo, 100 mulheres respondessem", diz. Ela ainda pesquisou as 61 antologias publicadas entre 2001 e 2016 e encontrou uma participação de mulheres 21% menor, mesmo considerando as que são 100% femininas. "Este ano começou com o lançamento digital de uma antologia bilingue e a primeira em que a equidade de gênero – 9 homens e 9 mulheres – foi planejada. Um grande avanço", afirma.

Ter voz

A razão para a poesia feminina se prender tanto a luta feminista, segundo as descobertas de Jéssica, é a possibilidade de finalmente, serem ouvidas. "Das que entrevistei pessoalmente – pelo menos 20 – todas falam a mesma coisa: é tão raro poder falar, que quando têm chance de pegar no microfone, falam sobre os incômodos: a falta de espaço, a violência", diz. Jéssica afirma ainda que as novas gerações de poetas periféricos não cabem no modelo pobre e analfabeto e isto é mais um motivo para que coloquem a "boca no trombone". "São mulheres separadas há uma ou duas gerações do analfabetismo", afirma Jéssica.

A vivência acadêmica é importante mesmo quando a experiência não dá muito certo, como aconteceu com Davi de Oliveira, poeta, parceiro de Thata Alves no Sarau da Ponte pra Cá e também seu marido. Ele entrou na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) com 23 anos graças a política de cotas, mas foi jubilado dois anos depois por não conseguir cumprir os créditos. "Acreditava que teria um acompanhamento maior quando chegasse lá, mas não tive. Voltei prá casa em São Paulo em 2013, derrotado e deprimido", conta. Esse quadro mudou quando um amigo dos tempos do cursinho, o Vitor Rodrigues, o levou a um sarau. "Foi no Suburbano Convicto e tive uma catarse. Naquele sarau vi a força da palavra, as pessoas falando, me transformou. Foi meu despertar da consciência", conta, repetindo o roteiro comum a todos os seus colegas. A Suburbano Convicto é uma livraria especializada na literatura produzida nas quebradas, fundada por Alessandro Buzo, escritor pioneiro neste cenário e autor de 13 livros.

Itinerância

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Hoje Davi é mais um produtor de saraus e pensa que conseguiria acompanhar as aulas da faculdade se pudesse voltar a estudar. “Talvez eu volte. Por enquanto estou estudando economia criativa. Tudo o que produzi até agora foi sem dinheiro, na base da troca” , conta. Ele é um dos fundadores do Projeto Praga, um sarau itinerante e de ocupação de espaços como praças, bibliotecas, viaduto; circulou como competidor em todos os slams e saraus que conseguiu e fundou outro sarau, o Saravá, no bar do Morsa, da Maria Borba, entorno do campus da Universidade Mackenzie, região central de São Paulo; e hoje está no Da Ponte pra Cá, com Thata Alves. “Quando nos casamos mudei para o bairro dela”, explica. Rafael deixou de passar seus dias na rua (em más companhias, segundo ele) para estudar letras e hoje é professor de literatura na rede pública, para onde levou a experiência dos saraus. O Slam da Guilhermina criou um festival de slam escolar como uma forma de fomento da poesia, que começou com quatro escolas em 2015 e no ano seguinte, ocorreu em 20 instituições, 18 da rede pública e duas particulares.
Além de Tula e de Tatha, o Cita conta com a participação de artistas de sete coletivos. Fundado em 2011, ocupou prédios vazios da Prefeitura e acabou devolvendo a praça, antes uma área perigosa e abandonada, para a população. "O entorno de um sarau ou slam muda porque as pessoas passam a frequentar. E as pessoas também mudam. Só de ler alguma coisa já muda", diz Buzo. "Esses artistas tem uma representação muito grande nas suas comunidades, são artistas cidadãos e como planejava Sergio Vaz, eles mudam e melhoram a periferia e os moradores da periferia. O cara tinha parado de estudar e quando vai no sarau, volta aos estudos e quando termina de estudar, retorna para a periferia, como pesquisador", explica Jéssica. Ela acredita que os saraus oxigenaram o rap e o hip hop. "Quando não existia mais espaço para shows, os saraus nos bares foram esse oxigênio e estão intimamente ligados. Os dois nas periferias. Muita gente entendeu que podia ser poeta nestes eventos", completa a pesquisadora.

Vigor editorial
Como os meninos de Ururaí e os Poetas Ambulantes nos coletivos, ou ainda o Emerson no Slam da Guilhermina, a Tula, Thata e Davi; Binho não ganha nada no Sarau, e diz que não se sente à vontade para "passar o chapéu". "Sarau não é para isso. Há uma troca lá e poderíamos constranger as pessoas que não podem pagar", explica. Nascidos como alternativa e reforço para a diversão ou produção cultural nos bairros de periferia, a entrada é sempre livre. "Eles nos dão visibilidade e acaba que abrem muitas outras portas, para trabalhos com contrato, para apresentações nas bibliotecas e escolas, por exemplo. O Sesc também contrata. E além disso, nós nos consumimos", explica Suzi, referindo-se ao consumo de livros ou shows e de uma variedade de produtos relacionados aos slams e saraus; ou mesmo aos coletivos, como bonés, camisetas, botons para os mais variados fins, flys e cartões-postais, e ainda campanhas de pré-venda e vaquinhas virtuais para financiar a edição de livros, muitos livros. "Eles abrem o acesso a um circuito cultural", ensina Buzo.

Livros

A produção independente de livros neste universo só rivaliza com a de CDs independentes de rap. A carreira de autor no cenário da periferia começa, invariavelmente, com a edição de um livro. "Achava que era difícil, uma coisa assim muito distante editar um livro, mas descobri que não. Além de vaquinhas e editais, sempre rola uma troca. Nós trocamos serviços como ilustração, revisão, emprestamos e dividimos a estrutura dos eventos", conta Carol, do Poetas Ambulantes, que é filha de escritora. Essas trocas e parcerias cruzadas criam uma rede solidária que, mais do que viabilizar as publicações, tem servido como uma sustentação permanente para esses artistas, sujeitos aos humores e oscilações do mercado de editais e programas de fomento. É difícil, segundo Buzo, mas na avaliação de Suzi, se fosse qualquer outro trabalho não seria muito melhor. "Quando conseguimos pagar cachê para os poetas, o valor fica entre 50 e 100 reais, por exemplo", diz.

Buzo conta que tem, em suas prateleiras, cerca de 200 autores, publicados nos últimos cinco anos, e uma agenda lotada de lançamentos nos saraus semanais que promove na livraria, instalada em um casarão antigo da Bela Vista, região central da cidade de São Paulo. "A vaga mais próxima é só em maio. Estamos em janeiro!", disse. As tiragens variam de 500 a 1000 exemplares e as vendas nos lançamentos em geral, não passa de 50 livros. "Se ele circular bastante, vai vender tudo pingadinho. O cara vende dois, três livros e vai pra casa contente, com a mistura do almoço", conta. O preço dos livros varia entre R$ 5,00 (os mais simples, em geral um fanzine) a R$ 30, quando são impressos em gráfica profissional.

Feira literária

Suzi está tentando consolidar uma feira literária, para ajudar a dar vazão para a produção. Ela já fez a primeira edição, que teve a participação de 293 artistas, escritores, pensadores e educadores, 57 coletivos, e a exposição para venda de 47 pequenas editoras e 43 autores independentes. Semelhante à Flupp, criada em 2012 por Julio Ludemir e Ecio Salles no Rio de Janeiro como um espaço de formação de novos leitores e autores das periferias do Brasil todo.

A primeira edição aconteceu no Morro dos Prazeres e a última, no ano passado, em Cidade de Deus, depois de passar pela Rocinha e pela Babilônia. "Temos um festival internacional de slam dentro do evento, e um festival de slam escolar que nos coloca em contato com uma molecada que é filha dos grandes projetos de inclusão dos últimos anos. Se for ver, o Cooperifa nasce em 2002; o Ferrez se consolida no início desse século, na virada. E tudo isso coincide ainda com o aumento do número de estudantes de todas as idades, de adolescentes que não precisaram trabalhar e permaneceram na escola, até os cotistas das universidades", analisa Julio, também escritor e poeta que trabalha como agente cultural nas periferias há 20 anos.
Ele diz que criou a Flupp porque enxergou nesta enorme fertilidade literária das periferias – um movimento que, ele faz questão de ressaltar, era pré-existente aos programas de inclusão –, cria grandes oportunidades, inclusive de vender livros. Os números que acompanham a Flupp parecem confirmar a sua avaliação. Precedida de batalhas regionais semanais que percorrem as favelas da cidade levando dois autores diferentes, a feira movimenta cerca de 20 mil pessoas ao longo do ano. "Cada encontro semanal atrai, em média, um público de 150 pessoas, mas dependendo da atração esse número aumenta muito. Tivemos 700 pessoas para ver o Mano Brown numa terça-feira", conta Julio. A feira em si, na última edição, contou com público de 10 mil pessoas. "Quando comecei ninguém acreditava que daria certo, me chamavam de louco. Hoje a Bienal do Livro estuda uma forma de incorporar a cena da literatura marginal e vários autores que apareceram na Flupp já foram convidados para falar na Flip", conta.

Temores

A reportagem da Caros Amigos visitou coletivos de poetas em todas as regiões da cidade para esta reportagem. Além dos já citados, encontrou experiências ainda no início, como o Sarau do Urutu, de Edson Lima, que tenta resgatar a autoestima de uma comunidade de 400 famílias que vivem provisoriamente há 20 anos no entorno da rua Urutu, na região de Ermelino Matarazzo. “O Sarau aproxima as pessoas e melhora o entorno. Queremos revitalizar essa praça”, diz, mostrando um matagal em volta de uma construção em ruínas do que seria um prédio histórico tombado, localizada no final da rua e que serve de passagem para os moradores. “Tá tombado literalmente”, lamenta. E outros que vêm de antigas lutas, como o Sarau d’Quilo, de Perus, que se apresenta na biblioteca por meio de uma parceria com a administração e é uma evolução da militância local.

Neste início de ano há, entre todos eles, grande apreensão sobre o que lhes espera. Temem desde a perda do espaço em que se apresentam – a maioria está na rua ou ocupando um local da Prefeitura, que na última gestão tinha uma postura solidária com esses coletivos –; até a redução ou extinção dos recursos investidos em editais de cultura, que até aqui funcionaram como um fomentador deste movimento. Com ou sem edital e apoio do poder público, no entanto, este é um movimento que dificilmente será brecado. “Você acha que quem viveu o que o Lucas viveu continua a mesma pessoa? A experiência do estudo, isso não se perde. Ninguém vai conseguir parar isso não”, garante Julio.


Poetry Slams

Slammers é como chamam aqueles que disputam as Poetry Slams; competições abertas – qualquer um pode participar – em que poetas interpretam um trabalho original, que será julgado pela plateia com base na qualidade da poesia e também, da performance. Com pequenas variações, que adequam o formato para especificidades locais, essas batalhas tem em comum o microfone aberto. "Qualquer um pode subir no palco e falar, é livre", explica a poeta e slammer Roberta Estrela Dalva, fundadora do Zona Autônoma da Palavra (ZAP) em parceria com o grupo de teatro Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, o primeiro slam realizado no Brasil. Essas batalhas, segundo Roberta, foram criadas por Marc Smith, poeta socialista e trabalhador da construção civil de Chicago, nos Estados Unidos, em 1986. "Ele queria devolver a poesia, que estava restrita aos ambientes formais e às regras da Academia, ao povo", conta a slammers, que também apresenta o programa Manos e Minas, da TV Cultura. "O jogo e a competição tem esse apelo, de diversão. O slam é um espaço da diversidade, da celebração – qualquer pessoa pode participar. Você chega e participa. Não tem restrição nenhuma, de tema, de tipo de texto – é campeonato de poesia, mas tem prosa, tem várias coisas. Não segue formalidades, de estética, idade, nada", continua.
Para o poeta angolano Ermi Panzo (Ermildo Panzo), escolhido como um dos oito maiores poetas da Panafrica, a origem dos slams está ligada à antigas tradições africanas, e a um movimento literário que nos Estados Unidos é chamado de spoken word. "São discursos poéticos em torno das dores e das necessidades, um discurso de lamentação e crítica, que surgiu muito antes dos Poetry Slams. Eram prática comum entre as tribos escravizadas pelos colonos europeus e que foi levada para as Américas com os negros vendidos como escravos", conta. Martin Luther King foi, segundo o angolano, um dos grandes nomes do spoken word estadunidense. "Os slams são eventos onde se pratica spoken word", afirma. Ermi está no Brasil desde 2015, vindo de Cuba, onde estudou, e neste momento, se prepara para deixar a casa de Binho, que o acolheu, para morar em um canto só seu. "Tudo por meio da poesia e está sendo muito importante pra mim", diz.

Existem critérios básicos que norteiam as apresentações, como a interpretação de um texto original e o limite de três minutos de tempo por poeta. "Para que mais pessoas possam participar", explica Roberta. Os desempenhos serão julgados pelo público – que pode ser representado por um grupo escolhido de forma aleatória na hora, por toda a plateia ou por um juri especialista; ou ainda por dois júris, um popular e outro, artístico. As batalhas começam nos bairros, realizadas semanalmente. No final do ano, cada slam regional escolhe um vencedor, e estes vencedores se enfrentam no Slam BR, que foi financiado pelo Sesc até 2015 e no ano passado, pelo Instituto Itaú Cultural. O campeão nacional vai representar o Brasil em Paris, na Copa Mundial. Em 2016, 32 poetas competiram no Slam BR. “Este ano vamos chegar a 50”, prevê Roberta.


ERRATA
A reportagem “A poética das Quebradas”, publicada na edição de número 239 de Caros Amigos, traz erros de grafia e de informações corrigidos nesta publicação no site e relacionados abaixo.

Erros de informação: Lucas Afonso foi semifinalista no campeonato mundial de slam de Paris em 2016 e não campeão, como está escrito na versão impressa. Emerson Alcaide venceu o Slam BR em 2013 e, em 2014, representou o Brasil no mundial de Paris – ele não faz parte do Núcleo Bartolomeu. Foram quatro, e não oito, escolas da Zona Leste de São Paulo que aderiram às batalhas de slams, realizando o evento entre os alunos em 2015. Em 2016, foram 20 escolas participantes. E Luz Ribeiro é integrante do Slam do 13 e do Slam das Minas e não faz parte do Sarau das Pretas, que é formado pelas poetisas Thata Alves, Débora Garcia, Elisandra Souza, Jô Freitas e Taissol Ziggy.

Erros de grafia: Ao nomear dois eventos, o texto trocou o termo slam – batalhas de poesia – por sarau – eventos culturais que reúnem várias expressões artísticas, mas sem competição. Assim, o “Slam das Pretas” e o “Slam das Minas” são, de fato, Sarau das Pretas e Sarau das Minas. Luz Ribeiro não se escreve com apóstrofo, como está grafado e o nome de Thata Alves também está grafado na edição impressa sem o “h”. Da mesma forma, Buzo, de Alessandro Buzo, se escreve com apenas um “z”.

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