Mariana: O rio e seus castelos de areia

Especial Mariana
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O rio e os seus castelos de areia

Por Sávio Tarso
Fotos: Nilmar Lage
Especial para Caros Amigos

Mariana AdalbertoAlvimEmpresarioAreeiro Nilmar Lage 2Na fronteira entre os municípios de Ipatinga e Caratinga, no estado de Minas Gerais, sob uma ponte metálica, o barro e a água da barragem de Mariana elevaram o nível do rio e das preocupações de inúmeras famílias que vivem da pesca e da criação de animais. Mas o Rio Doce é muito mais que a pátria flutuante dos ribeirinhos. É, antes de tudo, um vetor mestre da economia da micro-região do Vale do Aço responsável por 3,5% do PIB de Minas Gerais (fonte: Diário do Aço). 

Muito além das águas, peixes e plantas marinhas, o Rio Doce forneceu, por exemplo, a areia para erguer toda a concretude visível de uma região. Insumo básico da construção civil, o produto vem sendo extraído do leito do Rio Doce desde a fundação dos primeiros vilarejos no início do século XX. Das portentosas chaminés da Usiminas às primeiras casas dos operários no município de Ipatinga, dos imensos galpões da Cenibra aos condomínios luxuosos nas cidades de Santana de Paraíso e Caratinga, praticamente todas as edificações surgiram do fundo do Rio Doce.

No ar

Com a tragédia da Samarco e a paralisação da extração de areia do leito do rio, várias perguntas parecem emergir da imensa profundidade turva em que se mergulha na atualidade todo o futuro das populações e negócios que dependem dessa bacia hidrográfica. De onde virá a areia para se misturar ao cimento e à vontade de continuarmos o nosso desenvolvimento regional? Quando essa atividade voltará à sua normalidade? Depois de tanta lama e produtos químicos, teremos areia de qualidade? Quais danos e benefícios que a dragagem do areal do Rio Doce poderá trazer daqui em diante? As incertezas flutuam sobre nossas cabeças com a mesma intensidade em que indentificamos milhares e milhares de bolhas de óleo boiando no espelho d’água.

No Areal Rio Doce, empresa criada em 1956 para atender à demanda da construção da Usiminas, oito funcionários e 40 caminhoneiros aguardam respostas enquanto observam com admiração uma areia cor de rosa que se acumula sem servidão. Seria lindo se não fosse trágico. Colorir de rosa o sonho do novo lar ou do novo negócio. No entanto, paira sobre essa tonalidade suave a suspeita da coloração ser formada por produtos tóxicos como cádmio e manganês.
O proprietário Adalberto Alvim (foto nesta página) tenta demonstrar força: “Não estamos parados. Estamos lutando, senão ficaremos doidos”. A afirmação é proferida com um semblante desolado, mas que revela um traço de esperança. A fé de quem já sobreviveu a outros abalos.  Antes do acidente, já tinha sofrido um revés. Em 2015, assistiu à queda de 50% das vendas devido à paralisação das obras em um alto-forno da siderúrgica. Sem poder reagir ao trauma causado pela crise do aço, manteve a cabeça erguida e seguiu em frente. Agora, olha para o horizonte marrom das águas do rio e enfrenta uma nova queda brusca de mais 40% das vendas por causa da lama e seus dejetos venenosos.

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Em menos de um ano, o seu pequeno império se transformou num castelo de areia. Os 80 carregamentos diários que fornecia para várias cidades foram interrompidos. Restou a lembrança da formosura do rio de sua infância e a pujança do negócio que sustentou gerações da família Alvim. “Vamos resistir. Essa empresa é minha vida”.

A pedido das autoridades ambientais, o proprietário do Areal Rio Doce interrompeu as atividade, mas se recusa a dar férias prêmio aos funcionários. Comparece todos os dias na empresa e até solicitou uma análise física para verificar as reações da areia com os outros materiais de construção. Os resultados ainda não foram entregues. Já a análise química é aguardada ansiosamente por Adalberto que ainda não sabe como pagará salários e 13º dos trabalhadores. “Estou preparado para entrar na Justiça contra os órgãos públicos e a Samarco para reaver os prejuízos. Não desistirei”, sentenciou o empresário.  
 
Segunda morte e ressurreição

A verdade é que o rio já era um moribundo quando o mundo conheceu a maior tragédia mineira. A lama da Samarco foi o ato final de um drama que se encenava há décadas. Para Adalberto, há cinco anos o Rio Doce de suas lembranças de criança falecia com o assoreamento, poluição e falta de chuvas. 
Sem meias palavras, sentenciou: “Essa é a segunda morte do rio. Há cinco anos morreu pela primeira vez, mas ainda era viável economicamente. Agora o mataram de vez”.

Perguntado se acredita que irá ver o Rio Doce despoluído e vivo, Adalberto sintetizou o sentimento de quase todos que conversamos naquele dia: “O rio ressuscitará para os nossos netos e bisnetos. Para todos do nosso tempo, ele não passa de lembranças”.


Sávio Tarso é professor universitário, jornalista e documentarista e acompanha a tragédia ambiental em Minas Gerais


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