Mariana: "Os afluentes vão salvar o Rio Doce", diz engenheiro florestal

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“O rio não está morto; os afluentes vão salvar o Rio Doce”

Por Savio Tarso
Fotos: Nilmar Lage

A palavra “ressureição” vem sendo usada recorrentemente pela mídia para se referir a um possível renascimento do Rio Doce. O coordenador de Meio Ambiente da Cenibra e engenheiro florestal, Jacinto Lana - o Sansão - discorda da expressão. “Só conheço uma única história de alguém que morreu e voltou: Jesus Cristo. O Rio Doce não morreu”, contestou o ambientalista numa entrevista reveladora em que, dentre outras coisas, avalia o estado do Rio Doce antes da tragédia e a força das entidades que legalmente têm o dever de liderar a recuperação da bacia hidrográfica.

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Jacinto Lana: afluentes são esperança do Rio Doce

Como no mito biblíco, Sansão acredita que a força do rio está em seus cabelos, ou melhor, suas ramificações, seus afluentes. De lá partirão as espécies que vão repovoar as águas do Rio Doce. Com um tempo escasso como a vida marinha do nosso personagem principal, a conversa ocorreu em plena sala de aula quando eu lecionava a disciplina de Ética para uma turma de Engenharia Ambiental. Nada mais oportuno neste momento.

 
O que o Rio Doce representa para Minas e para o Brasil? 
O Rio Doce é muito importante para a História do Brasil. Está muito assoreado em função disso. O Ciclo do Ouro tem origem e se realiza em nossa bacia hidrográfica. Descobriram o ouro porque mexeram na areia do rio na foz no Espírito Santo, encontraram ouro e resolveram subir leito acima até encontrar o metal precioso nas alturas das montanhas de Minas Gerais. Essa atividade de extração de ouro e mineração revolveu muito o solo, levantou sedimentos que foram para a calha do rio. Assim é que se deu o início do fenômeno do assoreamento que se constitui num dos fatores de degradação do rio.
 
Qual era a real situação da bacia hidrográfica antes do rompimento da barragem de Mariana?
A situação era muito precária. Ele figurava certamente entre os dez rios mais degradados do País. Os níveis de vazão eram os mais baixos de sua história. O fato de não chegar ao mar, que todos associam à morte do Rio Doce, era apenas um aspecto disso. Existe um relevo submarino chamado Banco de Abrolhos. Esse elemento geológico possui uma cava que joga toda a areia para o Rio Doce. Há uma constante luta da corrente do rio contra as marés de Abrolhos e como o Rio Doce estava muito fraco, a areia tampou a foz, impediu o encontro das águas do Rio Doce com o oceano. Muitos atribuem a perda de força do rio somente ao assoreamento, mas esse aspecto não é o maior problema do Rio Doce. Ele sempre foi muito arenoso porque, além do aspecto histórico, boa parte das nascentes ocorrem na Serra do Espinhaço que tem essa característica.

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Então, o que fez o Rio Doce agonizar?
O Rido Doce estava na UTI pelo uso intensivo da agropecuária, com o pisoteio de animais, a má conservação das matas ciliares, o impacto da extração de mineral e baixa vazão por causa da escassez das chuvas. Não podemos atribuir a secura da bacia somente pelos outros fatores que são mais explícitos. Nos últimos três anos, o clima da nossa região funciona como no semi-árido. Está chovendo 70% abaixo da média histórica. A bacia não tem eficiência para reter essa quantidade tão pequena de chuva que cai num solo compactado. Esse chão seco não consegue armazenar e absolver a água, daí a consequência são as cheias muito grandes. Sem infiltração, as nascentes também secam. Se continuar assim, o Vale do Rio Doce se transformará em caatinga. Estamos diante de um fenômeno global que deve ser revertido como um todo para ter influência aqui.

Com a tragédia, podemos afirmar que o Rio Doce está morto? É possível ressuscitá-lo? 
Só conheço uma única história de alguém que morreu e voltou: Jesus Cristo. O Rio Doce não morreu porque estamos falando de um complexo hidrográfico dentro de uma noção de território. Tem ramificações como um troco de uma árvore que tem copa e galhos vivos. Os afluentes vão salvar a bacia. O acidente destruiu a vida em todo o percurso que chamamos de Rio Doce até o mar. Os peixes e as plantas marinhas estão todos mortos na extensão do rio, mas no Rio Santo Antônio, no Rio Piracicaba, no Rio Casa, no Rio Matipó, no Rio Suaçuí tem muitas espécies endêmicas da fauna e da flora. Quando a água melhorar, o Rio Doce será repovoado. Acredito que haverá uma reconolização porque água é o melhor ambiente para a vida renascer.

Como se dará esse processo? 
O rompimento da barragem trouxe muita lama. Esse sólido dissolvido na água chamamos de turbidez. O nível que estava em torno de 30 unidades de turbidez chegou a 450 mil unidades em alguns pontos que nós medimos. Coletamos um litro do rio e a metade era lama. Nenhum ser vivo consegue sobreviver assim. Hoje essa turbibez vem caindo para cerca de 3 mil unidades. Acreditamos que no momento que baixar para 500 unidades já teremos o aparecimento desses organismos vivos.

Quem tem que liderar a luta para salvar o Rio Doce? 
Cerca de 15 anos, foi criado o Escritório da Bacia do Rio Doce, sob a coordenação do arquiteto Marco Antônio Fernandes. Era o embrião do que se tornaria o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce e dos seus afluentes Rio Piracicaba, Santo Antônio etc. A Agência Nacional de Águas (ANA) não consegue monitorar todos os rios do Brasil, então, delega essa tarefa às agências dos comitês de bacias. Na região do Vale do Rio Doce foi criado uma Agência de Águas e há cerca de três anos está vigorando uma cobrança legal da exploração do uso das águas dos nossos rios, ribeirões e lagoas. Agricultores, empresas e a Copasa geram um recurso que é direcionado diretamente para o caixa da Agência de Águas, não vai para o Estado. O Comitê é a instância legítima para definir o que fazer com esse dinheiro e para lutar em defesa do Rio Doce.

O movimento ambientalista atual tem forças para transformar essa tragédia numa oportunidade para recuperar toda a bacia hidrográfica do Rio Doce?
A história da Ponte Perdida revelou uma geração apaixonda. O movimento ambientalista atual se difere um pouco do passado por ser mais pragmático. As ONGs com condições de interferir agora têm um caráter mais técnico. Antes, muitos se colocaram na frente das máquinas para evitar a destruição. O problema já ocorreu, agora precisamos de ONGs que possam contribuir concretamente para solucioná-lo. Ninguém consegue recuperar o Rio Doce sozinho. Vamos precisar das instâncias legitimadas, das agências, dos comitês, das prefeituras, dos governos, das empresas que causaram o dano porque esse desafio é muito grande.

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