Mariana: ONU consulta os "novos degredados" do Rio Doce

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ONU escuta os “novos degredados” do Rio Doce

Por Sávio Tarso
Fotos: Nilmar Lage

Várias civilizações floresceram às margens de bacias hidrográficas. No Egito, o Rio Nilo sustentou por milênios o império dos faraós. Também na África, o Reino do Mali, situado na Bacia do Rio Níger, era considerado pelos árabes como o mais rico e poderoso do mundo em sua época entre os anos de 1230 a 1600. A Bacia do Rio Tejo se constituiu em plataforma de lançamento para as grande navegações ibéricas na conquista da Índia, da África e da América. Escorriam pelas artérias principais e por seus afluentes, a prosperidade tão desejada, extraída das terras banhadas por esses complexos hídricos: ouro, diamante, especiarias, produtos agrícolas e toda sorte de mercadorias valiosas. Quase sempre tesouros resultantes de massacres, genocídios, escravidão e espoliação de povos autóctones instalados há milhares de anos em seus territórios.

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 Rile: "guerra justa" da Coroa dizimou indígenas do Vale do Rio Doce; Samarco produz os "novos degredados"

Notadamente, o episódio de Mariana (MG) nos propicia a reflexão sobre o entrelace entre rios e riquezas. O Brasil e, em especial, o Vale do Rio Doce recebem até 16 de dezembro deste 2015 a visita do Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas (ONU). Os técnicos da instituição que representa os interesses da humanidade ouviram, a portas fechadas, os moradores do distrito de Bento Rodrigues. Na pauta, toda a magnitude do desastre e as possíveis soluções para o drama atual. Entretanto, os comissários das Nações Unidas deveriam também escutar as vozes das águas profundas desse rio. Personagens banidos da historiografia oficial que revelariam aos estrangeiros todos os meandros perversos do projeto civilizatório que deu origem a ocupação da região.

Direitos

A reparação da qual tanto se espera pela destruição do meio ambiente pode ser muito maior que as projeções imaginadas até aqui. Ao dano ecológico, somariam-se milhares de perdas humanas e um etnocídio contra os povos tradicionais do Vale Rio. Como os direitos humanos são, por característica, inalienáveis e imprescritíveis, chegou a hora de reinvindicá-los.

Riler Barbosa Scarpati, professor e mestre em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), desvenda a ancestralidade dos moradores do povoado de Bento Rodrigues ao esplanar sobre a História dos Borun, grupo indígena que se espalhava por toda a região das capitanias de Minas Gerais, Espírito Santo e Sul da Bahia. Cada vítima de Mariana traz as marcas da descendência e de uma coincidência histórica com o passado ameríndio que não é mera coincidência.

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O historiador aponta o fim do Ciclo do Ouro como ponto de partida para a transformação do interesse português pelo rio. A densidade da mata, as epidemias e os guerreiros “botocudos”, demoninação genérica e pejorativa que os europeus deram aos Borun por causa dos objetos decorativos que ostentavam em suas orelhas e bocas, foram os motivos que provocaram uma demora maior no povoamento regional. Por esses fatores, o Vale Rio Doce foi uma das últimas fronteiras a serem, de fato, apropriadas definitivamente pela colonização no Sudeste do Brasil. “Na segunda metade do Século XVIII, há uma mudança significativa na política do Império Português em relação à sua colônia na América do Sul e, em específico, para  a região Leste de Minas Gerais. A Coroa decide empreender uma “guerra justa” contra os indígenas e suas terras, em nome de uma aliança do Estado Português e interesses particulares. Esse conflito com os grupos étnicos considerados ‘bárbaros’ foi pautado por uma ideia de que a civilização europeia deveria cristianizar e adaptar o indígena ao modo de vida do colonizador”, esclarece Scarpati.

A “guerra justa” praticamente dizimou a nação Borun. Restaram algumas poucas aldeias formadas por suas ramificações como os krenak que sobrevivem até hoje no municípo de Aimorés (ES). No entanto, antes de serem liquidados nesse genocídio que o mundo precisa conhecer lograram uma vitória expressiva contra o invasor.
 
Mariana-BorunPonte Queimada

O então governador da capitania de Minas Gerais, dom Antônio de Noronha, construiu em 1780 um caminho no meio da Mata Atlântica denominado de Estrada do Degredo. O nome é sugestivo para uma via pública, tenebroso endereço de um presídio destinado aos dissidentes, rebeldes e ladrões das riquezas do império lusitano. Ir para lá significava ficar sem pátria e sem família, mesmo permanecendo em seu próprio território, o sertão do Rio Doce. Um exílio total no meio da selva. Pois bem, uma ponte foi erguida sobre um trecho do Rio Doce no atual município de Pingo D’água (MG), para dar acesso à penitenciária colonial.

Antes do último guerreiro tombar pela espada portuguesa, os Borun queimaram a ponte e o presídio no mesmo ataque, impondo uma derrota humilhante à empresa colonial portuguesa. “A Ponte Queimada, como nós a chamamos agora, portanto, se tornou um símbolo da resistência indígena contra a ocupação europeia no Vale do Rio Doce”, sentencia o historiador.

Sangue e Silenciamento

Reconstruída em 1930 pela Companhia Acesita (atual Aperam), a Ponte Queimada é um vestígio de uma história de sangue e silenciamento. No século XX, com a descoberta do minério de ferro pelos ingleses por meio da Itabira Iron, o Rio Doce passou a ser alvo de grandes investidores privados com a parceria do Estado. Belgo Mineira, Vale do Rio Doce, Acesita, Usiminas, Cenibra se instalaram nas margens de seu leito generoso. Diversos municípios surgiram por causa do desenvolvimento econômico e milhares de posseiros, pequenos proprietários e pescadores continuaram a ser expulsos de suas terras para dar lugar a esses empreendimentos do capitalismo industrial moderno. O degredo permaneceu como carimbo indelével da exploração no Brasil independente e inserido no sistema econômico mundial.

Novos Tempos, Novo Degredo

No dia 25 de novembro, a ONU criticou severamente o Estado Brasileiro, a Vale e a mineradora anglo-australiana BHP. No comunicado oficial, as Nações Unidas chamaram a tragédia de Mariana de "inaceitável" e afirmaram que “as empresas e o governo deveriam estar fazendo tudo que podem para prevenir mais problemas, o que inclui a exposição a metais pesados e substâncias tóxicas. Este não é o momento para posturas defensivas".

Metade das vítimas ainda mora provisoriamente em hotéis. A Samarco não apresentou nenhum plano claro e contundente para reparar a dignidade às 600 famílias atingidas e a toda a população que vive ao longo dos 800 quilômetros do Rio. Essa gente são os novos degredados do Estado Brasileiro e dos interesses privados. Assim como seus antepassados indígenas, morrem pelo isolamento, pelo descaso da empresa ou pela inoperância da burocracia estatal. São vítimas de um modelo civilizatório que permanece fiel aos seus velhos interesses de explorar o meio ambiente e o ser humano com a mesma ganância dos impérios da Antiguidade.

Nessa tragédia planetária, a emblemática missão da ONU precisa escutar a voz do nosso passado.

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